Por Cleber Lourenço
O movimento dos principais partidos do Centrão para a eleição presidencial de 2026 indica uma mudança que vai além da estratégia eleitoral. Ao recusarem alianças nacionais e priorizarem a formação de grandes bancadas no Congresso, legendas como MDB, União Progressista — federação formada por União Brasil e PP — e Republicanos apostam em um ativo que ganhou peso nos últimos anos: a influência sobre a destinação de parte crescente do Orçamento da União.
A estratégia preserva autonomia para alianças regionais, fortalece as chapas para a Câmara e o Senado e melhora a posição desses partidos na negociação com o próximo governo, seja na disputa por ministérios, comissões ou na execução de recursos públicos.
O movimento ocorre em um momento de forte ampliação do poder orçamentário do Congresso.
A Lei Orçamentária de 2026 reserva cerca de R$ 61 bilhões para programações indicadas por emendas parlamentares. Desse total, R$ 37,8 bilhões correspondem às emendas impositivas — individuais e de bancada — cuja execução é obrigatória pelo governo federal, salvo impedimentos técnicos. Outros R$ 12,1 bilhões são destinados às emendas de comissão, que ganharam relevância após o Supremo Tribunal Federal declarar inconstitucional o chamado orçamento secreto, em dezembro de 2022. Diferentemente das impositivas, essas emendas dependem de negociação política com o Executivo.
Esse volume consolida uma mudança institucional iniciada há pouco mais de uma década.
Até 2015, a execução das emendas dependia fortemente da decisão do presidente da República. A partir da Emenda Constitucional 86, as emendas individuais passaram a ser obrigatórias. Em 2019, a Emenda Constitucional 100 estendeu essa regra às emendas de bancada. Nos anos seguintes, novas modalidades ampliaram ainda mais a participação do Congresso na definição do Orçamento.
Na prática, uma fatia crescente do orçamento discricionário passou a ser influenciada por indicações de deputados e senadores. Embora a execução continue sob responsabilidade do Executivo, a destinação desses recursos passou a refletir mais diretamente as prioridades do Legislativo.
Isso reduziu a dependência política do Congresso em relação ao Palácio do Planalto.
Antes, presidentes precisavam formar maioria por meio da distribuição de ministérios, cargos e liberação de emendas. Hoje, parte relevante dos recursos já tem execução garantida por regra constitucional, independentemente da relação política com o governo.
Esse novo cenário ajuda a explicar a estratégia do Centrão.
Ao evitar uma aliança presidencial única, os partidos preservam acordos regionais, ampliam suas bancadas e aumentam o poder de negociação com qualquer governo eleito.
O foco deixa de ser apenas a vitória no Executivo e passa a ser o fortalecimento dentro do Congresso.
Emendas se tornam peça central da articulação política
A pesquisadora do Observatório da Política do Insper (Odap), Bianca Casais, afirma que as emendas deixaram de ser apenas um instrumento de alocação de recursos e passaram a ocupar papel central na estratégia política de muitos mandatos.
“Esse instrumento tem ganhado enorme relevância para boa parte dos mandatos, pois funciona como canal que permite criar ou firmar alianças com lideranças locais, como prefeitos, vereadores e dirigentes de organizações do terceiro setor”, afirma.
Segundo ela, essas lideranças atuam como intermediárias entre parlamentares e eleitores.
“Para o parlamentar, as emendas permitem direcionar recursos que ajudam a consolidar apoio político. Em alguns casos, isso ocorre por meio de entregas efetivamente necessárias à população. Em outros, pode assumir um viés mais clientelista ou estar voltado à obtenção de apoio político”, diz.
O fortalecimento do Congresso também se relaciona à ampliação de sua capacidade de influenciar investimentos federais e negociar prioridades com o Executivo.
As emendas financiam hospitais, escolas, pavimentação, equipamentos públicos e obras de infraestrutura em municípios de todo o país. Ao mesmo tempo, especialistas alertam que a expansão desse mecanismo reduz a margem de planejamento do governo federal e dificulta a execução de políticas públicas de longo prazo, já que parte dos investimentos passa a ser definida previamente pelo Legislativo.
Na prática, presidentes assumem o mandato com uma parcela relevante dos investimentos já direcionada durante a tramitação do Orçamento.
O tema também se tornou central no debate sobre transparência.
Após o fim do orçamento secreto, o Supremo Tribunal Federal determinou mudanças na publicidade das emendas parlamentares. Apesar dos avanços, o modelo segue sob fiscalização do Judiciário e de órgãos de controle.
Em julho deste ano, o ministro Flávio Dino determinou que os presidentes de partidos com representação no Congresso esclarecessem sua participação na definição e execução das emendas. A decisão ampliou o foco da discussão para além de parlamentares individuais, alcançando também as direções partidárias.
Paralelamente, investigações da Polícia Federal, da Controladoria-Geral da União, do Tribunal de Contas da União e do Ministério Público têm identificado suspeitas de irregularidades, como desvios, fraudes em licitações e direcionamento de recursos. Os casos reforçaram a pressão por mais transparência e controle.
Nesse contexto, a postura do Centrão na disputa presidencial reflete mais do que uma escolha eleitoral.
Ela expressa uma mudança estrutural na relação entre Executivo e Legislativo.
Com bancadas maiores e maior controle sobre parte do Orçamento, esses partidos reduzem a dependência de um candidato específico ao Planalto e ampliam sua influência na formação do governo após as eleições.
O próximo presidente continuará responsável pela condução do país e pela execução do programa eleito nas urnas. Mas assumirá o cargo diante de um Congresso com maior poder sobre a distribuição de recursos federais e fortalecido por um instrumento que se consolidou como um dos principais centros de poder da política brasileira: as emendas parlamentares.