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Policial militar mata jovem negro à queima-roupa em protesto pacífico no Rio

Jefferson Araújo Mota, de 22 anos, estava com a irmã quando foi assassinado com tiro de fuzil
09/02/2024 | 08h31

Jefferson Araújo Mota, um jovem negro de 22 anos que trabalhava com fretes, foi assassinado à queima-roupa por um policial militar no Rio de Janeiro, na tarde de ontem (8), na entrada da favela Nova Holanda, no Complexo da Maré, onde vivem 140 mil pessoas. A execução, cometida pelo cabo da PM Carlos Eduardo Gomes dos Reis, ocorreu na Avenida Brasil, uma das mais importantes da cidade, durante protesto pacífico contra uma operação em diversas comunidades da Maré.

Ele estava desarmado e, em vídeos que circulam nas redes sociais, é possível ver que não houve nenhum movimento de ameaça ao policial, que disparou um tiro de fuzil na costela do jovem. Jefferson parece demorar a perceber que foi baleado, pois ainda tentou proteger sua irmã e tirá-la do local, até que caiu no chão, onde aguardou por socorro durante aproximadamente 12 minutos, segundo testemunhas. Quando os policiais autorizaram que um carro o levasse ao hospital, já era tarde.

À repórter Bruna Martins, do jornal O Globo, Kaylaine de Araújo Costa disse que o agente primeiro espirrou spray de pimenta no olho de seu irmão. O policial ainda foi atrás dele, contou a irmã, e disparou o fuzil antes de ir embora sem socorrer a vítima.

“A gente estava protestando, a maioria ali era mulher e criança, meu irmão era um dos únicos homens. O policial chegou jogando spray, atirou e depois correu para a viatura. A gente foi para a pista da Avenida Brasil gritar por socorro, mas os agentes não fizeram nada, debocharam e disseram que não tinham culpa”, contou Kaylaine.

A revolta nas redes sociais foi imediata. A escritora e professora Bárbara Carine foi uma das vozes a se manifestar:

“Um tiro à queima-roupa de fuzil num menino preto favelado não é despreparo policial, é um projeto genocida de Estado”, escreveu.

Em depoimento, o policial Carlos Eduardo Gomes dos Reis disse que a vítima tentou agredi-lo com uma pedra e, ao se defender, a arma disparou. As imagens derrubam a versão do policial, que está preso e teve seu fuzil e a câmera acoplada ao uniforme apreendidos. Apesar das gravações flagrarem tanto o crime quanto a omissão de socorro, ele responderá por homicídio culposo, quando não há intenção de matar.

A operação policial na favela Nova Holanda foi para recuperar um caminhão com 11 automóveis roubado de madrugada. Pelo menos outros dois moradores além de Jefferson foram baleados no mesmo dia. A babá paraibana Paula Lima, de 30 anos e moradora da favela Parque União, também na Maré, conta que suas filhas tiveram que ficar sozinhas em casa, pois ela estava trabalhando no bairro do Jardim Botânico, a 20 quilômetros de distância, e seu marido, motorista de ônibus, não tinha com quem deixar as meninas.

O fotógrafo Paulo Barros, nascido e criado na Maré, desabafou:

“No momento em que a polícia entrou na Nova Holanda, eu estava saindo para o trabalho, assim como muitos homens e mulheres. Dois tiros bateram no muro do local onde me protegi. Saí vivo dessa situação por causa de Deus. No trabalho, só conseguia pensar no meu filho, na minha família que estava em casa e em quanto a exposição excessiva à violência vai nos fazendo definhar, dia após dia. Pura necropolítica”, disse o fotógrafo.

UMA PESSOA NEGRA É MORTA PELA POLÍCIA A CADA 8 HORAS NO RIO

Segundo o estudo “Pele Alvo: a bala não erra o negro”, da Rede de Observatórios de Segurança, o Rio é o segundo estado com mais mortes de pessoas negras no país provocadas pela violência policial — em primeiro lugar está a Bahia. O levantamento revelou, no fim do ano passado, que uma pessoa negra foi assassinada pela polícia a cada 8 horas e 24 minutos no estado do Rio em 2022. De 3.171 registros de morte em oito estados da federação com informação de raça declarada, vidas negras representaram 87,35% das vítimas.

A Anistia Internacional exigiu a responsabilização dos envolvidos, incluindo o comando da polícia. As imagens, segundo a entidade, escancaram as práticas ilegais cometidas pelas forças de segurança no Rio de Janeiro.

Em nota, a ONG Redes da Maré contou que a operação durou três horas ininterruptas e causou o fechamento de Clínicas da Família e escolas da Maré pela segunda vez nesta semana, quando as aulas voltaram em todas as escolas municipais e estaduais do Rio.

Segundo a nota, “a operação descumpre decisões importantes que, de alguma forma, minimizem os impactos dessas ações. Como por exemplo a falta de equipamento de gravação de áudio e vídeo nas fardas de todos os policiais. Também não foi registrada a presença de ambulâncias, que poderiam ter ajudado a salvar a vida de Jefferson. O rapaz foi socorrido por uma pessoa de carro que passava pela Avenida Brasil”.

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