Por Cleber Lourenço
A nova edição do relatório Desafios de Inteligência, apresentada pela Abin na terça-feira (2), detalha com mais precisão do que em anos anteriores como o crime organizado se transformou em um fator político estruturante no país. O documento afirma que facções e milícias avançaram sobre lacunas do Estado, construindo redes de poder que influenciam a vida cotidiana, a economia local e, cada vez mais, o comportamento eleitoral das populações sob seu domínio.
Segundo o relatório, esse avanço não é episódico nem restrito a regiões específicas: trata-se de um movimento nacional, com características próprias em cada território, mas que compartilha a mesma lógica — ocupar o vácuo institucional deixado por serviços públicos insuficientes e convertê-lo em capital político. O texto aponta que grupos criminosos passaram a atuar como “instâncias reguladoras” de áreas inteiras, definindo normas, controlando a circulação e impondo regras paralelas que afetam diretamente a dinâmica eleitoral.
A Abin descreve que essa presença resulta de uma “simbiose crescente entre a criminalização da política e a politização do crime”. Ou seja, enquanto organizações criminosas buscam representação institucional para proteger seus interesses, parte da classe política se beneficia do controle territorial exercido por esses grupos. O relatório cita trechos que tratam dessa relação como “um processo corrosivo e silencioso que empurra a democracia para fora de seus próprios limites”.
Em outro trecho o relatório da agencia diz:
Em áreas periféricas e de baixa presença estatal, grupos criminosos exercem poder paralelo, controlando a vida de comunidades e, consequentemente, o voto.
Em áreas com menor presença estatal, as facções exercem influência direta sobre o voto. O documento afirma que o controle social praticado por esses grupos se manifesta de diferentes formas: desde coerção explícita no dia da votação até o financiamento de campanhas e a indicação de candidatos que atuam como intermediários entre o poder criminal e o sistema político. Em alguns territórios, destaca a Abin, “o eleitor vota sob a regulação de forças paralelas que controlam serviços essenciais, impõem medo ou oferecem proteção”.
- avanço territorial que redefine a dinâmica local de poder e fragiliza a atuação institucional;
- participação direta ou indireta em campanhas, criando dependência política e financeira em determinadas regiões.

Um servidor da Abin ouvido pela reportagem, sob anonimato por se tratar de tema sensível, reforça o diagnóstico: “O que vemos em campo é a consolidação de estruturas paralelas que já não atuam apenas na margem do Estado, mas disputam com ele a capacidade de regular a vida pública em regiões inteiras”. Ele descreve que, em muitos casos, a gestão de conflitos locais, o controle de transportes clandestinos e até a mediação de disputas familiares são conduzidos por representantes das facções.
O relatório acrescenta que o avanço político dessas organizações é alimentado por economias ilegais que geram alto poder financeiro e capacidade de coerção. A Abin detalha que atividades como exploração imobiliária irregular, grilagem urbana, transporte clandestino, venda de serviços de segurança e controle de mercados paralelos servem como fonte de renda e instrumento de dominação territorial.
A agência também registra um ponto considerado crítico: a sobreposição entre lógica territorial do crime e processos eleitorais. Um analista ouvido afirma que “o processo eleitoral deixa de ser apenas uma disputa de projetos e passa a refletir a correlação de forças entre grupos armados que controlam território e circulação de pessoas”.
A Abin observa que, em algumas regiões, o controle dessas organizações substitui funções públicas básicas, como segurança, transporte e resolução de conflitos:
- domínio de serviços clandestinos e redes econômicas informais que funcionam como base de poder político;
- imposição de regras paralelas que moldam a vida cotidiana e ampliam o controle eleitoral em ciclos sucessivos.
O relatório é explícito ao dizer que facções transnacionais e milícias locais se aproveitam de fragilidades institucionais brasileiras para expandir sua influência. O texto alerta que, quando o Estado não ocupa plenamente um território, “esse vácuo se converte em oportunidade para a formação de estruturas criminosas que passam a disputar legitimidade com instituições oficiais”. Em certos casos, nota a Abin, essa disputa não é apenas simbólica, mas física: a presença policial se torna limitada ou arriscada, enquanto representantes do crime circulam livremente.
Essa dinâmica, explica o documento, mina a igualdade de condições eleitorais. Em áreas dominadas por milícias, moradores se veem dependentes de serviços controlados por esses grupos, como gás, transporte, internet clandestina e segurança privada. Na prática, a sobrevivência cotidiana se mistura com a relação política — um ambiente em que a liberdade de voto fica comprometida.
A Abin conclui que a combinação entre poder territorial, violência, capacidade financeira e articulação política torna o crime organizado um ator com potencial de influenciar resultados eleitorais, direta ou indiretamente. Em algumas regiões, as facções impõem barreiras de circulação, controlam entrada e saída de pessoas e operam como mediadores obrigatórios de relações sociais. Em outras, financiam candidaturas alinhadas aos seus interesses econômicos, garantindo representação institucional que reforça seu domínio.
Essa avaliação é tratada pela agência como um dos pontos centrais para a segurança do pleito de 2026. A Abin sustenta que a garantia da liberdade de voto depende, antes de tudo, da capacidade do Estado de recuperar o controle de territórios capturados por organizações criminosas. O documento aponta que sem essa retomada, “qualquer esforço institucional para assegurar a integridade eleitoral enfrentará limites estruturais impostos pelo poder paralelo”.
O relatório encerra esse trecho afirmando que a resposta necessária vai além de operações policiais. Exige uma estratégia integrada — envolvendo políticas sociais, urbanísticas, econômicas e de segurança — capaz de disputar legitimidade e reconstruir a presença estatal onde hoje prevalece a força das facções. Um servidor ouvido pelo ICL Notícias resumiu a situação: “sem enfrentar o poder territorial do crime, a democracia seguirá operando sob assimetrias profundas, em que a liberdade de escolha é limitada pelo controle territorial exercido por facções e milícias”.