Oito projetos de mineração de elementos de terras raras (ETRs) em desenvolvimento no Brasil podem destravar mais de um terço do potencial nacional — considerado o segundo maior do mundo — e reposicionar o país na corrida global por insumos essenciais à economia de alta tecnologia.
Segundo estimativa recente do Ibram (Instituto Brasileiro de Mineração), a carteira de investimentos para o período de 2025 a 2029 chega a US$ 2,2 bilhões. O avanço ocorre num momento em que a relevância geopolítica dos ETRs se intensifica, impulsionada pela expansão de setores como semicondutores, veículos elétricos, energia renovável e indústria de defesa, além da disputa comercial entre Estados Unidos e China.
A demanda norte-americana por novos fornecedores ganhou força após restrições chinesas à exportação desses materiais, movimento que ampliou a atenção de Washington para as reservas brasileiras. A Embaixada dos EUA manifestou interesse no tema, e o governo brasileiro já indicou que os ETRs podem entrar nas negociações sobre tarifas aplicadas a produtos nacionais.
Os projetos mais avançados foram mapeados em relatório do Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais) em parceria com o Ibram. As iniciativas são lideradas majoritariamente por mineradoras estrangeiras de capital aberto, as chamadas “junior companies”, vindas sobretudo de EUA, Austrália e Canadá.
Entre os empreendimentos, apenas um já opera comercialmente — o da Serra Verde Mineração, em Goiás — enquanto os demais se concentram em diferentes estágios de pesquisa e avaliação de reservas.
A corrida por investimentos e tecnologia
O volume de aportes previstos pelo Ibram subiu de US$ 1,5 bilhão para US$ 2,2 bilhões na comparação entre os períodos 2024–2028 e 2025–2029, reflexo direto da busca ocidental por alternativas à China, líder global no setor.
Especialistas destacam que o Brasil reúne vantagens competitivas, como volume e qualidade das reservas, mão de obra qualificada e infraestrutura energética baseada em fontes renováveis.
O país possui 21 milhões de toneladas de óxidos de terras raras (TREO), de acordo com o Serviço Geológico dos EUA (USGS), ficando atrás apenas da China.
Os oito projetos em estágios mais avançados — localizados em Minas Gerais, Goiás, Bahia e Amazonas — somam 38% desse potencial, com capacidade estimada para produzir 7,98 milhões de toneladas.
Argilas iônicas
O Brasil também se destaca por possuir reservas em argilas iônicas, tipo de depósito que sustentou o domínio chinês nas últimas décadas. Esse diferencial tem atraído empresas de países como Canadá e Austrália, que planejam investimentos bilionários e miram ciclos de produção a partir de 2027 e 2028.
Grande parte dessas iniciativas utiliza tecnologias originalmente desenvolvidas na China, especialmente processos de extração por lixiviação.
Apesar do otimismo, obstáculos persistem. Analistas citam entraves como baixa competitividade industrial, dificuldades de financiamento, incerteza regulatória e desafios no licenciamento ambiental.
A comparação com a China reforça o tamanho do desafio: desde os anos 1980, o país asiático canaliza investimentos contínuos em pesquisa, refino e manufatura avançada, consolidando domínio não apenas na extração, mas também nas etapas subsequentes — separação, purificação e produção de ímãs de alto desempenho.
Especialistas alertam que, sem investimentos em beneficiamento e refino, o Brasil corre o risco de permanecer restrito aos estágios iniciais da cadeia, exportando materiais de baixo valor agregado.