Dizem que política é coisa da cabeça: você escuta os argumentos, pondera as propostas e faz a escolha mais racional. Mas, quem já sentiu o coração apertar durante uma eleição ou ficou com raiva ao ver uma notícia, sabe que não é bem assim.
A gente vota com a cabeça, mas também com o peito. Nossas escolhas políticas carregam medo, esperança, raiva e frustração. Tudo aquilo que nos move como pessoas. Afinal, a política não é apenas um debate de ideias, mas também é sobre o que a gente sente quando pensa no futuro.
De uns anos pra cá, isso ficou impossível de ignorar. Basta ligar a TV, abrir as redes sociais ou conversar com a família no almoço de domingo: o medo virou argumento, a raiva virou palanque, o discurso de ódio é vírgula na fala de tantas pessoas. E o pior: não são só emoções soltas no ar — elas organizam discursos, mobilizam multidões e elegem líderes.
O que sentimos deixou de ser apenas nosso e passou a ser usado como ferramenta de poder. Aqui vamos olhar pra isso de perto: como as emoções, especialmente o medo, viraram ferramentas da política atual. Como os afetos atravessam o debate público, alimentam discursos de ódio e ganham força num mundo onde crenças, filosofias de vida e esfera pública estão cada vez mais entrelaçadas.
Medo como ferramenta política
De todos os afetos, o medo é talvez o mais usado politicamente. Sempre foi assim: ao longo da história, quem está no poder usa o medo para controlar, mobilizar, convencer. Medo da violência, do inimigo de fora, do fim dos valores, do caos. Esse medo abre espaço para quem promete ordem, segurança e punho firme.
A fórmula é conhecida: primeiro, cria-se a sensação de que estamos sob ameaça constante. Depois, oferece-se uma solução política que promete acabar com o perigo — mesmo que isso signifique menos direitos ou mais violência do Estado.
O medo não só paralisa; ele também faz a gente concordar com coisas que antes pareciam inaceitáveis.
Na prática, o medo muda o debate. Questões importantes como desigualdade, educação e saúde ficam em segundo plano. No lugar delas, entram narrativas simples sobre segurança, inimigos internos e necessidade de punição. A política deixa de ser sobre construir junto e vira gestão do pânico.
É por isso que políticas autoritárias às vezes encontram tanto apoio. Elas não se sustentam só pela força, mas porque uma parte da sociedade que se sente ameaçada adere emocionalmente a elas. Vamos ver alguns exemplos aqui.

Nazismo na Alemanha
Na Alemanha nazista, o medo foi organizado de forma sistemática pelo Estado. A crise econômica do pós Primeira Guerra, o desemprego e a instabilidade social foram canalizados para a construção de um “inimigo interno” — neste caso, os judeus, comunistas e outras minorias.
O regime de Adolf Hitler usou esse medo para justificar a supressão de liberdades civis, a centralização total do poder e, em seu estágio mais extremo, o genocídio. Sendo assim, o discurso da “ameaça existencial” serviu para mobilizar a população e legitimar um projeto autoritário baseado na violência.
Ditaduras militares na América Latina
No Brasil e em outros países da América Latina, o medo do comunismo foi utilizado para justificar golpes de Estado e regimes autoritários.
A ideia de que a nação estava ameaçada por um inimigo ideológico interno permitiu a suspensão de direitos, a censura à imprensa e a perseguição política. O discurso da “ordem” e da “segurança nacional” foi central para normalizar a repressão e apresentar a violência estatal como um mal necessário para evitar o caos.
Terrorismo nos Estados Unidos
Após os ataques de 11 de setembro, o medo do terrorismo passou a estruturar a política internacional, especialmente nos Estados Unidos. A ameaça constante de novos atentados foi usada para expandir a vigilância sobre cidadãos, restringir liberdades civis e legitimar guerras preventivas no exterior.
Nesse contexto, o medo funcionou como um dispositivo permanente de governo: a sensação de insegurança contínua tornou aceitáveis medidas excepcionais que, em condições normais, encontrariam forte resistência democrática.
Ditadura Militar no Brasil
No Brasil, o medo do comunismo foi importante para legitimar o golpe de 1964 e sustentar o regime militar por mais de duas décadas.
A narrativa de que o país estava sob ameaça de uma “subversão interna” permitiu a suspensão de direitos, a censura à imprensa, a perseguição a opositores e o uso sistemático da violência estatal.
O discurso da “segurança nacional” transformou o medo em política de Estado, normalizando ações extremamente autoritárias em nome da ordem e do consequente combate a um inimigo ideológico.

Insegurança, neoliberalismo e produção do medo
O neoliberalismo tem um papel gigante nessa história.
Trabalho sem garantias, medo de perder o emprego, ansiedade constante, competição o tempo todo — tudo isso cria um clima emocional pesado, onde o medo deixa de ser passageiro e se transforma em algo que faz parte da rotina do cidadão brasileiro.
A filósofa Marilena Chauí, por exemplo, aponta que esse modelo econômico não produz apenas desigualdade material, mas também uma subjetividade política baseada no medo e na desconfiança. Quando o Estado se afasta da proteção social, cresce a percepção de que a vida está fora de controle e esse sentimento abre espaço para discursos que prometem restaurar a ordem por meio da força.
Assim, crenças, filosofias de vida e esfera pública passam a ser moldadas por uma lógica defensiva. O outro, que pensa diferente, é uma ameaça. E a política emocional ganha força exatamente enquanto a empatia é enfraquecida.
Saiba mais: Marilena Chaui: a filósofa que mudou a forma de pensar o Brasil
Discurso de ódio como produto político
No Brasil, o discurso de ódio deixou de ser apenas uma retórica e passou a produzir consequências concretas na vida social e política.
Um dos exemplos mais evidentes ocorreu durante o período eleitoral de 2018 e nos anos seguintes, quando grupos políticos passaram a enquadrar adversários como “inimigos da nação”, “comunistas”, “corruptos por natureza” ou “ameaças à família e à religião”.
Essa desumanização simbólica criou um ambiente no qual agressões verbais, perseguições e até ataques físicos passaram a ser naturalizados. Na verdade, esse mecanismo recorrente de desumanização simbólica é primordial para o funcionamento do discurso de ódio.
Ao retirar do outro sua condição de cidadão legítimo, cria-se um ambiente no qual agressões verbais, perseguições, intimidações e ataques passam a ser vistos como respostas aceitáveis para “defender valores”, “proteger o país” ou “salvar a democracia”, ainda que esse discurso seja profundamente antidemocrático.
Casos de violência política motivados por ódio ideológico tornaram-se mais frequentes e, em alguns episódios, resultaram em assassinatos. Esses crimes não ocorreram de forma isolada, mas em contextos marcados pela radicalização, pela circulação intensa de narrativas de ameaça e pela normalização da violência como resposta política.

Assassinatos políticos no Brasil
Não podemos falar sobre a alta do discurso de ódio, sem falar sobre o resultado dessa prática. Afinal, o discurso de ódio não acaba no X, antigo Twitter, quando um troll ou hater desliga seu computador. O discurso de ódio de hoje em dia passou as barreiras do digital e causa resultados infelizes como, por exemplo, o assasinato político.
Entre os principais casos registrados nos últimos anos estão:
Marielle Franco
Vereadora do Rio de Janeiro pelo PSOL, Marielle foi assassinada a tiros em 2018 junto com o motorista Anderson Gomes. Mulher negra, defensora dos direitos humanos e crítica da violência policial, Marielle tornou-se símbolo internacional da violência política no Brasil.
Mestre Moa do Katendê
Capoeirista, educador e referência cultural na Bahia, foi assassinado após declarar voto em Fernando Haddad durante uma discussão política em 2018. Importante lembrar que esse crime evidenciou como o discurso de ódio eleitoral pode se traduzir em violência imediata.
Marcelo Arruda
Guarda municipal e militante do PT, Marcelo Arruda foi morto durante sua festa de aniversário, que tinha temática política, em Foz do Iguaçu. O autor do crime era apoiador declarado de Jair Bolsonaro, e o caso expôs o grau extremo da prática do discurso de ódio.
Bruno Pereira
Indigenista e servidor da Funai, Bruno Pereira foi assassinado em 2022 no Vale do Javari enquanto atuava na defesa de territórios indígenas. O crime teve forte dimensão política, relacionada a conflitos ambientais, garimpo ilegal e interesses econômicos na Amazônia.
Esses episódios revelam um padrão preocupante: quando o discurso político transforma adversários, ativistas ou grupos sociais em ameaças, a violência deixa de ser exceção e passa a ser realidade.
Por que as emoções estão no centro da disputa política?
A política do medo não é um acidente nem um desvio passageiro. É um modo recorrente de organizar o poder, especialmente em tempos de crise. Num mundo marcado por insegurança econômica, transformações aceleradas e polarização crescente, os afetos se tornam cada vez mais centrais na vida pública.
Entender os afetos políticos é essencial para compreender por que discursos autoritários encontram tanto apoio, por que o ódio se normaliza no debate e por que a violência política se torna realidade.
Mas reconhecer o papel das emoções na política também abre espaço para imaginar outros caminhos. A democracia depende da nossa capacidade de construir afetos que ampliem o espaço do comum e fortaleçam a confiança coletiva.
No fim, a disputa política do nosso tempo não é só por ideias, mas pelas emoções que organizam crenças, filosofias de vida e esfera pública. É pelas emoções que organizam nossas crenças sobre a vida e o espaço público. É nesse terreno invisível, mas decisivo, que o futuro da democracia está sendo jogado.
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