Por Cleber Lourenço
O deputado federal Rogério Correia (PT-MG) afirmou que há dificuldades para o avanço de requerimentos apresentados na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que apura fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Segundo o parlamentar, pedidos que miram a relação entre o Banco Master, igrejas evangélicas e lideranças religiosas citadas em apurações vêm enfrentando resistência para serem pautados e votados.
Em declaração ao ICL Notícias, Correia afirmou que as recentes ações da Polícia Federal apenas reforçam denúncias feitas anteriormente no âmbito da comissão. “Essa operação de hoje não é surpresa. Ela só confirma o que denunciamos há tempos: há ligações profundas entre os desvios do INSS, o Banco Master, o Vorcaro, o Zettel e setores da Igreja da Lagoinha ligados ao bolsonarismo. Isso não é acaso, é esquema”, disse o deputado.
Para Correia, o bloqueio à tramitação dos requerimentos compromete o alcance da apuração e esvazia o papel fiscalizador da comissão. “Quando não pautaram os requerimentos que apresentei sobre o Zettel, o presidente da CPMI blindou esses atores que são importantes para a investigação”, afirmou.
A CPMI do INSS é presidida pelo senador Carlos Viana (Podemos-MG). Os requerimentos apresentados pelo deputado incluem pedidos detalhados de Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs), quebra de sigilos bancário e fiscal, além de convites para depoimento de pastores, empresários e dirigentes religiosos.
Entre eles estão solicitações de informações financeiras envolvendo a Sete Church (Ministério Deus é Fiel), o pastor César Beluci, a Igreja Campo de Anatote e seu dirigente, Péricles Albino Gonçalves, além do Clava Forte Bank, apresentado nos autos como correspondente bancário ligado ao universo da Igreja Batista da Lagoinha. Os pedidos abrangem o rastreamento de movimentações bancárias, fiscais e patrimoniais desde 2019, com acesso a bases da Receita Federal e do Coaf.

Conexões religiosas
Também consta da lista o convite ao pastor André Valadão, líder da Igreja Batista da Lagoinha, além de pedidos de RIFs e de quebra de sigilos relacionados a Fabiano Campos Zettel. Um dos requerimentos destaca que Zettel mantém vínculos familiares e empresariais com Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, e aponta a possibilidade de que estruturas religiosas tenham sido utilizadas como canais de circulação e lavagem de recursos desviados de aposentados e pensionistas.
Além de Correia, o deputado federal e pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ) também tem pressionado por apurações envolvendo a cúpula da Igreja da Lagoinha e o Banco Master. Em declaração ao ICL Notícias, Vieira afirmou que acionou formalmente a Polícia Federal, em novembro de 2025, diante do que classificou como “fato grave envolvendo igreja, banco e poder econômico”. Segundo ele, o pedido buscou apurar possíveis relações financeiras entre o pastor André Valadão e o banqueiro Daniel Vorcaro.
Vieira afirmou que reportagens indicam que Vorcaro cresceu dentro da Igreja Batista da Lagoinha e que sua família realizou doações milionárias à instituição, inclusive para a aquisição de uma emissora de televisão. “Anos depois, ele se torna banqueiro e o Banco Master salta de um patrimônio de pouco mais de 200 milhões para bilhões de reais. É legítimo perguntar como essas relações se deram e se houve uso da fé para obtenção de vantagem financeira”, afirmou o deputado.
O parlamentar também mencionou laços pessoais e familiares entre os envolvidos, citando presentes de alto valor, festas luxuosas e relações próximas entre as famílias Vorcaro, Zettel e Valadão. Vieira destacou ainda que Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e integrante do núcleo próximo da liderança da Lagoinha, já atuou em negócios ligados ao Banco Master e foi alvo recente de ação da Polícia Federal.
Outro ponto levantado por Vieira diz respeito ao Clava Forte Bank, lançado em 2024 por André Valadão com foco no chamado “mercado cristão”. Segundo o deputado, a sede da instituição funciona no mesmo endereço da igreja. “Oficiei o Banco Central cobrando informações sobre a abertura desse banco e protocolei um projeto de lei para impedir o uso da fé e da imagem de líderes religiosos como instrumento de captação financeira”, afirmou.
Para o parlamentar, a maioria dos fiéis desconhece essas relações. “Transparência não é perseguição religiosa. Quem deve ser responsabilizado são os envolvidos, não os membros da igreja”, disse. Vieira afirmou ainda que pretende reiterar o pedido de investigação à Polícia Federal diante dos novos fatos.
Correia sustenta que a CPMI precisa avançar sobre todas as frentes indicadas pelas investigações, sem exceções. Com a retomada dos trabalhos, prevista para fevereiro, o deputado afirma que apresentará novos requerimentos, incluindo a convocação de Natália Vorcaro. “Ela será importante para entendermos a engrenagem do esquema”, declarou.
Procurado pelo ICL Notícias, o presidente da CPMI do INSS, senador Carlos Viana (Podemos-MG), afirmou que apenas requerimentos com ligação direta com o objeto da investigação são levados à votação. Segundo ele, a condução dos trabalhos busca evitar o uso político da comissão.
“Meu compromisso, desde o início, é não permitir que a CPMI se torne palanque político para sustentar discurso ideológico, tanto da base do governo quanto da oposição”, declarou o senador.
O ICL Notícias também questionou a Polícia Federal sobre o andamento das apurações relacionadas ao Banco Master, igrejas neopentecostais e às instituições mencionadas nos requerimentos, mas não obteve retorno até a conclusão desta reportagem.