Por Juliano Medeiros*
O primeiro ano do novo governo de Donald Trump nos Estados Unidos escancarou um projeto de poder autoritário, marcado pela erosão de direitos, pela repressão política, pelo racismo e pela produção deliberada de instabilidade, tanto no plano nacional quanto no internacional.
Longe de representar apenas uma radicalização retórica, o trumpismo em seu retorno ao comando do governo estadunidense passou a operar de forma sistemática contra pilares centrais da democracia liberal, combinando perseguição a minorias, intimidação de opositores, ataque às instituições do conhecimento e uma política externa agressiva que vai além até mesmo da própria tradição imperialista dos EUA.
No plano interno, a política migratória assumiu contornos de verdadeira perseguição estatal. Operações do ICE – a polícia política de Trump – em diversos estados transformaram comunidades imigrantes em territórios de exceção, com prisões em massa, deportações aceleradas e uso letal da força.
O assassinato de uma mulher por um agente federal durante uma ação em Minneapolis, motivando um pedido de investigação independente pela ONU, tornou-se símbolo dessa nova lógica. A deportação de africanos, árabes e sul-americanos cresceu de forma abrupta, revelando que o alvo não são apenas imigrantes indocumentados, mas populações inteiras definidas como indesejáveis.
A história demonstra que regimes autoritários costumam iniciar seu avanço pela desumanização de grupos específicos, criando inimigos internos para justificar o endurecimento do Estado.
Esse movimento repressivo também atingiu a liberdade de expressão e o pensamento crítico. A investigação do FBI contra uma jornalista do Washington Post crítica ao governo, bem como a crescente pressão sobre universidades, expôs a disposição da administração Trump em atacar espaços historicamente associados à produção de conhecimento e ao debate plural. Universidades como Harvard passaram a ser tratadas como focos de “subversão ideológica”, sendo alvo de ameaças de corte de verbas, intervenções administrativas e campanhas públicas de deslegitimação.
A perseguição ao meio acadêmico remete a experiências autoritárias do século XX, nas quais a ciência, a cultura e a educação foram enquadradas como inimigas do povo, como também aconteceu no Brasil durante o governo de Bolsonaro.
O mesmo padrão se expressa no ataque a direitos civis. A política de “passaportes anti-trans”, validada pela Suprema Corte, institucionalizou a discriminação de pessoas trans pelo próprio Estado, transformando a identidade em critério de exclusão. Ao mesmo tempo, o uso de cancelamento de vistos contra opositores políticos estrangeiros evidencia a instrumentalização da política externa como mecanismo de repressão ideológica, extrapolando fronteiras nacionais.
Mas nada tem chocado tanto o mundo quanto os contornos da política externa de Trump. No cenário internacional, o primeiro ano de seu governo foi marcado por uma escalada de tensões sem precedentes. A retomada das guerras tarifárias, com impacto direto sobre economias como a do Brasil, da União Europeia e da China, aprofundou um ambiente de incerteza econômica.
Paralelamente, o governo passou a adotar uma retórica abertamente beligerante, com ameaças militares ao México, ao Canadá, ao Panamá, à Colômbia, ao Irã, à Groenlândia e, de forma particularmente grave, à Venezuela.
As declarações e ações que sugerem ataques diretos, violações de soberania e até o sequestro de Nicolás Maduro representam uma ruptura com princípios básicos do direito internacional e reacendem o espectro de intervenções armadas na América Latina.
Se antes os Estados Unidos se consideravam a “polícia do mundo”, com poderes para dizer que país merece ou não ser invadido — como lembram os episódios da ocupação do Iraque, do Afeganistão e os bombardeios à Líbia — agora os Estados Unidos agem como a “milícia do mundo”, que determina um preço para evitar uma agressão militar.
O aumento do gasto militar na Europa de 2% para 5% do PIB entre os países membros da OTAN, exigido pelos EUA, segue essa lógica, tanto quanto as exigências impostas ao governo de Delcy Rodríguez na Venezuela.
Esse quadro se agrava com o apoio irrestrito às ofensivas de Israel em Gaza e com as ameaças recorrentes de novos ataques ao Irã, indicando uma política externa baseada na força e no alinhamento incondicional a estratégias de guerra.
O “Conselho de Paz” para legitimar a tomada criminosa de Gaza é apenas mais uma ação esdrúxula entre tantas. A promessa de anexação da Groenlândia, acompanhada de intimidações econômicas contra aliados europeus, reforça o caráter imperial e unilateral da atuação norte-americana sob Trump.
O conjunto dessas ações revela um padrão conhecido nos últimos anos: o autoritarismo contemporâneo avança não por um golpe súbito, mas pela acumulação de medidas que restringem direitos, intimidam a oposição, deslegitimam instituições e mobilizam o medo.
As constantes referências simbólicas ao passado autoritário — seja pela exaltação da força, pela perseguição a minorias ou pelo ataque ao pensamento crítico — não são acidentais, mas parte de uma estratégia política.
Nesse contexto, as manifestações que se espalham pelo interior dos Estados Unidos contra as políticas do governo assumem papel central. Elas representam uma reação democrática ao processo de fechamento do regime e à normalização da exceção.
Apoiar essas mobilizações é fundamental não apenas para a defesa das liberdades nos Estados Unidos, mas para conter uma deriva autoritária cujo impacto ultrapassa fronteiras. O primeiro ano de Trump deixa claro que a democracia, quando atacada a partir do centro do poder global, torna-se uma causa internacional que exige solidariedade, vigilância e resistência permanente
*Historiador, Cientista Político, professor convidado na FESP-SP e ex-presidente nacional do PSOL. Comentarista do ICL Notícias.