A nós, os pobres mortais, os posts em redes sociais. É esta a sensação que temos diante dos dramas nacionais e geopolíticos dos últimos tempos. Principalmente depois que um certo senhor, como se estivesse brincando num jogo de tabuleiro, foi alçado à presidência dos Estados Unidos da América. Parecem 60, mas são apenas 12 meses.
Em todos os noticiários domina o rosto alaranjado encimado por cabelos ralos cor de palha de milho, expressão de mau e voz que parece recém-saída de uma ressaca, anunciando um fim de mundo a cada minuto. É Golfo da América; é resort na Faixa de Gaza; é bomba na Síria; é treta com a Nigéria; tarifaço no Brasil; é sequestro de presidente; é roubo de petróleo; é bomba em barquinho; é venezuelano feio, é Somália pirata, é muita associação de imagens e atos fascistas, é pezinho batido porque quer um prêmio: “Eu quero o Nobel! O Nobel é meu! Não deram o meu Nobel, então vou bater em vocês!”.
Decide, volta atrás, decide de novo, desiste, retoma, inventa novo problema. E tome ameaça, e tome taxação, e tome medição de força com a OTAN, com os europeus, com os chineses, com os russos… O método é: Canse, esgote as forças, encha a paciência do mundo porque você é o mais rico e o dono da bola na pelada do campinho.
A nós, os pobres mortais, os posts em rede social e a observação de como o disco da terra plana roda e toca sempre a mesma música.
Curioso ver a Europa, este continente que inventou o colonialismo, o tráfico transatlântico, a retaliação da África entre si em fronteiras que são quase linhas retas, a subjugação pelo poderio bélico, a exploração de ricas colônias até o osso do empobrecimento total e local, o rebaixamento de seres humanos a coisas pela pseudociência do racismo científico… Curioso ver a Europa que foi capaz de tudo isso, patinando para responder como se deve ao novo imperador estadunidense que ameaça — veja só! — garfar um de seus territórios pelo poderio bélico, comercial, etc., etc.
A Groelândia, a obsessão de Donald J. Trump, no momento pode ser adjetivo sinônimo de coisa ambicionada, desejada, cobiçada. Interessante ver como os europeus estão se dando conta de que “não são essa Groenlândia toda”.
Em sua bipolaridade geopolítica, Donald elege a cada dia uma nova agonia, mas a Groelândia está sempre lá, no topo dos desejos de posse. Porém, o senhor alaranjado não deseja a ilha fria da mesma maneira que quer outros territórios.
Ser uma Groenlândia não é o mesmo que ser uma Venezuela, uma Colômbia ou um Brasil. E onde fica a foto de “Eu aumentei o mapa dos Estados Unidos” que ele quer no livro de história do futuro? Ego roto, maroto, boquirroto.
Você, brasileiro, não tem aquela brancura gelada e, segundo ele, estratégica. Você também não é essa Groelândia toda. Agradeça, pois se ao invés de salivar pela terra sob controle da Dinamarca, ele achasse que deveria anexar a Amazônia, não demoraria dois minutos para patriotas que estenderam um bandeirão do país dele na avenida, cerrassem fileiras para entregar cada milímetro o quanto antes.
Você não é essa Groenlândia toda. Ainda bem!
Mas fique ligado. Neste cenário de um mundo rompido pela faca do ego e da ganância, o pior problema é sempre o próximo.