A tristeza pode levar ao câncer?

Quando a tristeza adoece: emoções, relacionamentos e o impacto silencioso na saúde
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

Todos os anos, cerca de 230 mil pessoas morrem no Brasil em decorrência do câncer. Esse dado, por si só, nos convida a olhar para além dos fatores biológicos e considerar também as dimensões emocionais e relacionais que atravessam a experiência humana.

Em uma reportagem televisiva, o oncologista brasileiro Dr. Fernando Maluf, membro da Sociedade Americana de Câncer, foi questionado sobre a relação entre emoções e doenças graves:

Mágoa, tristeza ou rancor podem levar ao câncer?

Sua resposta foi contundente:

“Tristeza aguda, como o término de um relacionamento ou a perda de um emprego, provavelmente não é causa de câncer. No entanto, a tristeza crônica ou a depressão prolongada provocam alterações na imunidade, reduzindo as defesas do organismo e favorecendo o surgimento de diversos tumores malignos. Quem vive em estado crônico de tristeza torna-se mais suscetível não apenas ao câncer, mas a diferentes doenças.”

Foi a primeira vez que ouvi um médico da medicina convencional relacionar, com tamanha clareza, a doença às emoções. Esse reconhecimento nos convida a ampliar o olhar sobre o adoecimento: não apenas como um fenômeno físico, mas também como uma expressão de experiências emocionais não elaboradas.

Oscilar é humano: emoções, equilíbrio e autoconhecimento

Na minha prática profissional, observo que a vida é inevitavelmente composta de ciclos: fases de expansão e recolhimento, alegria e dor, encontro e perda. Essa oscilação, longe de ser um problema, é parte do equilíbrio psíquico.

Curiosamente, estudos mostram que contextos de aparente estabilidade permanente podem estar associados a maiores índices de depressão. Lugares onde “nada muda”, onde não há desafios nem rupturas simbólicas, tendem a produzir uma sensação de estagnação existencial.

O sofrimento emocional, portanto, não é o problema em si. O problema é quando ele se cristaliza, quando se transforma em um estado permanente que impede o sujeito de se reinventar, de ressignificar suas experiências e de reconstruir seus vínculos.

Relacionamentos, ressentimento e a escolha de permanecer.

Costuma-se dizer que um relacionamento termina quando o ressentimento supera a esperança. Embora essa frase seja frequentemente repetida, não concordo plenamente com ela.

O ressentimento, quando reconhecido e trabalhado, pode ser uma poderosa via de transformação. Ele revela feridas, frustrações e necessidades não atendidas, e, justamente por isso, pode se tornar uma ponte para o diálogo, a cura e o fortalecimento da parceria.

Na minha perspectiva, o fator decisivo não é o ressentimento, mas a desistência.

Desistimos quando abrimos mão de:

Perdoar.
Trabalhar as diferenças.
Revisar acordos.
Buscar ajuda profissional.
Investir no vínculo.
Quando desistimos desses movimentos, desistimos também do amor, não como sentimento idealizado, mas como construção cotidiana.

Entre permanecer e adoecer: o limite da tristeza nos vínculos afetivos

É fundamental reconhecer que existem relações que podem ser reconstruídas, mas também existem vínculos que se tornam espaços de sofrimento contínuo. Permanecer em uma relação marcada pela tristeza crônica, pela ausência de diálogo e pela negação de si mesmo pode ter consequências profundas para a saúde emocional e física.

Buscar ajuda terapêutica, investir no autoconhecimento e construir relações mais conscientes são formas de interromper ciclos de sofrimento e abrir espaço para vínculos mais maduros, livres e verdadeiros.

Desistir sem tentar pode ser um erro.
Mas insistir em permanecer onde a tristeza se tornou a principal companheira pode ser ainda mais grave, especialmente quando isso compromete a saúde, a dignidade e o sentido da própria existência.

Grande abraço,

 

Carregar Comentários
Assine nossa newsletter
Receba nossos informativos diretamente em seu e-mail