Faleceu nesta terça-feira (3), em sua casa, no Assentamento Conquista da Fronteira, na cidade de Hulha Negra (RS), Frei Sérgio Antônio Görgen. O franciscano completou 70 anos de vida no último dia 29 de janeiro. Ele ficou conhecido por sua atuação nas causas sociais, ambientais, contra a desigualdade e em defesa da agroecologia.
Natural de Não-Me-Toque (RS), Frei Sérgio foi um dos fundadores do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e do Partido dos Trabalhadores (PT). Também exerceu mandato como deputado estadual, mas sua principal atuação se deu como líder religioso e militante das causas populares.
Franciscano, Frei Sérgio também ficou marcado pelo engajamento com movimentos populares e pela presença constante em lutas ligadas à terra, à justiça social e à dignidade dos mais pobres.
Atos de despedida serão realizados nesta terça-feira, a tarde, inicialmente no Assentamento Conquista da Fronteira e após no Salão Paroquial de Candiota, em Hulha Negra, com missa a ser celebrada pelo Bispo Dom Frei Cleonir Dal Bosco as 19h.
Na quarta-feira (4), as despedidas serão realizados no Convento São Boaventura, no distrito de Daltro Filho, em Imigrante (RS). O sepultamento está previsto para as 16h no cemitério dos freis, no próprio convento.
Frei Sérgio publicou uma carta ao completar 70 anos de idade, no último dia 29.
“Vivi em situações de muita dor (até hoje ecoam nos meus ouvidos o choro de crianças com fome nos barracos de acampamento e até me dói no mais fundo de mim a dor de enterrar crianças que morriam de fome) e muita tensão em tantos e tantos conflitos vividos, mas os tempos de alegria e confraternização foram infinitamente maiores. Algumas decepções, mas os testemunhos edificantes foram e são infinitamente maiores”, escreveu.
“Continuo acreditando na força do povo organizado, uma das expressões mais vigorosas da Graça e das Benções divinas. Um direito, porém, sempre me assistiu: a proteção de Maria e a presença amorosa e incômoda de Jesus. Talvez, só por isto, tenha chegado aos setenta. Gratidão enorme, a Deus e a tanta gente com quem os caminhos da existência propiciou encontrar”, publicou. (Leia a carta completa ao final da matéria).
Nesta terça, o presidente Lula lamentou a morte do religioso, em nota oficial. Lula relembrou o período em que Frei Sérgio o visitou durante a prisão, em Curitiba, no Paraná.
” A fé e as sábias palavras de Frei Sérgio durante suas visitas em Curitiba me ajudaram a atravessar com força e esperança os momentos difíceis da prisão injusta a que fui submetido. Ele carregava consigo uma história de vida exemplar. De luta e de sacrifícios pessoais – incluindo greves de fome – para garantir os direitos daqueles que vivem da agricultura familiar”, escreveu o presidente.
“Frei Sérgio dedicou sua vida a cumprir o ensinamento de Cristo: “Dai de comer a quem tem fome”. Lutou pela alimentação do corpo e da alma. E deixa esta vida com sua missão cumprida, que seguirá servindo de exemplo e inspiração a todos nós. Descanse em paz, companheiro”, completou.

Frei Sérgio
Defensor da Teologia da Libertação, teve atuação ao lado de nomes como Paulo Freire, Leonardo Boff e Dom Pedro Casaldáliga. “A religião começa quando a gente bota o pé para fora da igreja”, dizia.
Participou de greves de fome, enfrentou perseguições e foi retratado até como “frei bom de briga” por sua proximidade com os trabalhadores sem terra e com comunidades em situação de vulnerabilidade. Em Hulha Negra (RS), onde também deixou marca de sua atuação, é lembrado como figura essencial na mobilização de assentados e agricultores familiares.
Em fevereiro de 2025, Frei Sérgio completou 50 anos de vida religiosa. A data foi marcada sem celebrações públicas, apenas com oração e com o anúncio de um novo livro, “Simplesmente Jesus”, ainda inédito.
Veja a mensagem de fim de ano publicada por Frei Sérgio nas redes sociais em 2025:
Carta de Frei Sérgio: ‘Aos Setenta Anos’
“Ao completar setenta anos, roda um filme na cabeça da gente.
Nunca imaginei chegar a esta idade.
Mas se os anos se cumpriram, não resta dúvida, foi por Graça, pura Graça.
Então, só resta agradecer ao Senhor da Vida, em seu Filho e em sua Mãe. Com certeza, me ampararam e me seguraram. Muitas e muitas vezes, através das amizades, do companheirismo, da fortaleza comum, no suporte das duas famílias (a de sangue e a de hábito), das tantas e tantas orações, dos pedidos de “se cuide” (quase nunca obedecidos). É nos gestos que a Graça se faz prática e o Amor se faz vivo.
Chegar aos setenta tendo sofrido 6 acidentes de carro, passado por cinco greves de fome, inúmeros conflitos sociais e fundiários, saindo ferido em dois, como diz o ditado popular, “só por Deus”.
Vivi em situações de muita dor (até hoje ecoam nos meus ouvidos o choro de crianças com fome nos barracos de acampamento e até me dói no mais fundo de mim a dor de enterrar crianças que morriam de fome) e muita tensão em tantos e tantos conflitos vividos, mas os tempos de alegria e confraternização foram infinitamente maiores. Algumas decepções, mas os testemunhos edificantes foram e são infinitamente maiores.
Lembro, neste filme da vida, dos direitos que não tive.
Não tive o direito de ter medo, mesmo carregado de temor, porque em tantos conflitos, uma covardia minha seria a derrocada para muita gente.
Não tive o direito de vacilar, embora inseguro e cheio de dúvidas, por este vacilo comprometeria a firmeza na luta de tanta gente.
Não tive o direito ao desânimo, embora tantas vezes sem enxergar caminhos seguros, porque estavam tantos olhando em minha direção e uma pequena demonstração de desânimo de minha parte, contaminaria o coração de muita gente e desistiriam de lutar pela dignidade de suas vidas.
Não tive direito ao cansaço, embora tantas e tantas vezes, o espírito arrastou meu corpo exausto.
Não tive o direito de ter crise, nem vocacional, nem espiritual, nem de confiança no futuro, embora em meu interior, tenha passado por várias e tantas, porque sentia a responsabilidade e o peso do hábito de São Francisco sobre os ombros na vocação que abracei.
E desde aquele dia em que, num conflito de terra na ocupação da Fazenda Anonni, em que a Brigada Militar avançava em direção ao povo e uma mulher puxou minha camisa e me disse “Frei, o senhor não vai fazer nada?” e eu, cheio de vergonha, avancei do meio do povo e fui para frente dos policiais, incapaz de dizer uma única palavra, abri os braços e parei bem próximo a eles – e as crianças com flores na mão, me seguiram e os policiais pararam – desde aquele dia, perdi também o direito à omissão.
Por isto cheguei aos setenta meio assim, bruto, sincero demais, teimoso, xucro, irreverente, fora dos prumos estabelecidos, mas disposto e esperançoso na força do amor e da vida, pedindo sempre a Jesus e aqueles com quem caminho nas empreitadas da vida, que me farquejem e corrijam, para que meus muitos defeitos não sejam mais salientes que a Graça de Deus.
Continuo acreditando na força do povo organizado, uma das expressões mais vigorosas da Graça e das Benções divinas.
Um direito, porém, sempre me assistiu: a proteção de Maria e a presença amorosa e incômoda de Jesus.
Talvez, só por isto, tenha chegado aos setenta.
Gratidão enorme, a Deus e a tanta gente com quem os caminhos da existência propiciou encontrar.
Frei Sérgio Antônio Görgen ofm
29 de janeiro de 2026.