Os alunos da rede estadual do Vale do Paraíba, em São Paulo, voltaram às aulas e de pé, em posição ereta, aprendendo como se portam soldados disciplinados, leram no quadro: Descançar, Sentido e Continêcia. Três palavras e dois erros durante o ensino de comandos da hierarquia militar, por monitores do atual modelo de ensino cívico-militar, no estado mais rico do Brasil.
A gritaria foi imediata. Sindicato dos professores, grupos de pais de alunos, imprensa, população nas redes. Três palavras e dois erros que refletem toda a nossa desventurada história educacional e também os desafios de segurança pública dos tempos contemporâneos, somados à ascensão da extrema direita no país trouxeram a falsa ilusão de que transforar em exércitos escolas públicas — aquelas onde estão a maioria dos excluídos do passado e do presente —, traria a “disciplina e valores cívicos” (palavras da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo) para que jovens não se transformem em “bandidos”.
Não é acaso, é projeto de nação
As elites econômicas sempre foram muito explícitas sobre qual o seu projeto educacional dos sonhos: massas de iletrados, mão de obra abundante e que trabalhe feito máquina e sem pensar criticamente. Não há surpresa. Nunca esconderam.
Não à toa foram precisos 321 anos até que o Brasil conseguisse publicar algo em solo nacional sem o crivo da coroa portuguesa. Também não é acaso que a educação formal tenha sido negada à população negra já no nascedouro da independência brasileira, na constituição de 1824, que garantia instrução a todos os cidadãos, mas como escravizados não eram considerados cidadãos… Não bastasse isso, leis como o Regulamento da Instrução Pública vetavam explicitamente escravizados em escolas.
Neste cenário, há uma farta literatura sobre a relação das forças armadas com as populações negras e periféricas. Não há espaço aqui para um mergulho na complexidade destas instituições e suas hierarquias, bem como as chances que deram para uma mínima ascensão de gente que não era aceita em canto algum, com mobilidade para quase nada dentro de uma estrutura rígida, feita para apartar.
Embora a oralidade e a pouca escolaridade tenham sido as marcas de alguns dos nossos mais geniais pensadores e intelectuais, como os escritores Carolina Maria de Jesus e Patativa do Assaré, quem furou o esquema habilmente desenhado para excluir foi exceção às regras cruéis, que garantiam a permanência na ignorância de uma massa gigante da população brasileira. Enquanto isso, os filhos da riqueza e opulência coloniais e imperiais aprendiam nos melhores estabelecimentos do país e do mundo.
Por falar em Carolina, não foi sem crítica feroz a tudo isso que ela se notabilizou.
O erro que são as escolas transformadas em quartéis não tem tamanho. Assim como não tem tamanho o equívoco em que o país mergulhou há alguns anos, condenando e demonizando o genial Paulo Freire, um dos intelectuais brasileiros mais reverenciados em todo o planeta.
Enquanto o monitor-soldado erra duas em três palavras das mais simples e que fazem parte do seu cotidiano, as escolas ricas do estado de São Paulo e de outras partes do território nacional oferecem a seus alunos o que há de mais sofisticado no ensino e no pensamento humano.
Esta colunista que aqui escreve esteve em algumas, visto que tive livros adotados em alguns vestibulares e até uma questão do último Enem baseada em um dos meus livros. Nestes ambientes elitizados de ensino, literatura contemporânea, clássica, imersões e simulados, orientação especializada para alunos e pais, convites para debates com autores e profissionais de todos os campos do mercado de trabalho, visitas a universidades e instituições de ensino superior de altíssima qualidade.
Para o rico, tudo. Para o pobre, “Descançar, Sentido e Continêcia”.
Três palavras, dois erros e a tremenda ameaça de um futuro em marcha lenta.