Por Amanda Prado
Domingo, oito de fevereiro: “Rumo a Petrolina! Eu e as cinco malas de roupa de frio para a turma!”, escreveu a cineasta Eliza Capai em uma publicação nas redes sociais, diretamente do aeroporto. Ao desembarcar do voo, em Pernambuco, mais 410 km de estrada levam até Guaribas, no sul do Piauí, onde as temperaturas normalmente passam dos 30ºC. É lá que recomeça uma nova aventura com três meninas da cidade e uma mãe, rumo a Berlim, na Alemanha.
Um tapete vermelho espera pela estreia das protagonistas de “A Fabulosa Máquina do Tempo”, documentário brasileiro gravado no sertão piauiense ao longo dos últimos dez anos. Uma sala com mais de mil lugares, a tela grande do cinema e uma plateia de estrangeiros. “Eu falei: em Berlim vai estar muito frio. Quanto vocês acham que vai estar? Elas: 15 graus! Eu falei: não, menos 10! A noção de frio e calor é outra, né?”, comenta Capai, em entrevista ao ICL Notícias.
Nesta sexta-feira (13), às 11h30 no horário de Brasília (15h30 em Berlim) acontece a primeira apresentação pública do filme, no Festival de Berlim (Berlinale) — um dos maiores e mais prestigiados festivais de cinema do mundo. O documentário dirigido por Eliza Capai foi escolhido para abrir a mostra Generation Kplus, dedicada a filmes com protagonismo infantil. “É raro um documentário aparecer na sessão de abertura, tradicionalmente reservada a ficções. O festival destacou que o filme sintetiza muitas das questões que eles querem discutir”, afirma a diretora.

Guaribas é o ponto de partida. O filme acompanha meninas entre 7 e 12 anos na cidade-piloto do Fome Zero, iniciativa do governo federal que deu origem ao Bolsa Família e transformou a vida de milhões de brasileiros e brasileiras que conviviam com a fome. Em três de fevereiro de 2003, o programa chegou ao município do interior do Piauí, considerado um dos mais pobres do país à época. Com cerca de 4,5 mil habitantes, Guaribas simbolizava o início das ações contra a miséria no Brasil — e um marco de cidadania e esperança.
Filhas de mulheres que passaram fome, interromperam os estudos e viveram a maternidade precoce, as meninas de “A Fabulosa Máquina do Tempo” pertencem à primeira geração que cresce podendo usufruir de direitos básicos. Para elas, essa nova realidade significa “nascer em berço de ouro”, com a chance de comer pelo menos três vezes ao dia. “Isso é frase que eu ouvi mais de uma vez. Com câmera ligada e desligada. Porque muita gente pode ver pobreza, mas, pra elas que entendem de onde elas vêm, elas nasceram num berço de ouro”, afirma Eliza.

Capai retorna a Guaribas mais de uma década depois de “No Devagar Depressa dos Tempos” (2013), quando registrou o cotidiano das mães em um contexto de miséria extrema e pequenas mudanças iniciadas a partir do Bolsa Família. Agora, o foco se desloca: não mais a sobrevivência, mas a possibilidade de sonhar. “A gente está assistindo à primeira geração que já nasce com o direito de comer, de ir para a escola e de sonhar futuros diferentes”, diz a diretora.
A descrição do primeiro filme dizia: “Ao lado da Serra das Confusões, sertão do Piauí: onde o tempo da escravidão ainda é frase no presente, algo começa a mudar. Conversando com mulheres de duas gerações, escutamos como era, como é e como pode ser a vida de quem acaba de cruzar a linha da miséria. De um lado seca, alcoolismo, violência familiar e fome. Chegada do Estado, renda, educação e auto-estima do outro. No embate do que era e do que começa a ser, vislumbramos um tempo de rápidas mudanças no devagar daqueles tempos”.
Agora, “A Fabulosa Máquina do Tempo” conduz o espectador por ideias, pensamentos e reflexões de uma nova época, em que meninas-mulheres compartilham o processo de uma transformação ainda maior no interior do Brasil de hoje.

“Tem uma preocupação na abordagem de enxergar esse Brasil. Essa transformação existe. A pessoa pode gostar ou não do Bolsa Família, mas ele transformou aquele lugar. As meninas, ainda que hoje estejam melhores que suas mães, ainda têm uma realidade de pobreza. Mas, perto do que era, houve uma transformação muito profunda”, diz.
“No primeiro filme, pessoas que estão vivas hoje, que têm a minha idade, falam ‘eu vivi a escravidão. Sem comida, sem chinelo, sem o básico da dignidade, o básico da cidadania’. As filhas já não passam mais por isso. O filme segue uma mesma investigação, então, do que significa essa saída da miséria, o que significa o acesso à educação, o acesso à alimentação, o início de um rompimento com o machismo estrutural, só que dessa vez pelo olhar das crianças”, explica Eliza.

Direito de sonhar
“A Fabulosa Máquina do Tempo” apresenta uma estrutura narrativa elaborada a partir de três camadas principais: a observação do cotidiano das meninas na cidade, as entrevistas — muitas delas feitas pelas próprias crianças com suas mães — e as cenas criadas pelas meninas, em forma de brincadeira. Relatos de frustração, machismo ou perda são transmitidos de forma lúdica nas filmagens.
“Eu entendo o filme como uma brincadeira”, define Capai. “Acho que o riso tem muitas vezes essa capacidade de a gente conseguir entrar em temas que talvez a gente não entraria numa narrativa mais dura”, analisa a diretora. “É nesse lugar que elas elaboram temas densos.”
As meninas do documentário ainda não são as “mulheres” marcadas pela violência estrutural. Elas estão no limiar, no movimento de “tornar-se” mulheres. “Elas ainda podem sonhar. O sonho é o primeiro passo para mudar a realidade”, diz Capai. Para ela, ao construir imaginários, o cinema pode e deve insistir numa perspectiva mais otimista do presente e do futuro.

“Acho que tem a ver com criar um cinema que fale sobre utopia. E aí eu fiquei pensando muito sobre quando eu era criança, o que eu cresci vendo como futuro possível? A gente cresceu vendo filmes em que a água acabava, em que os extraterrestres invadiam o planeta, que a gente criava robôs que depois se transformavam em assassinos e nos escravizavam. Então, se a gente só consegue imaginar esse tipo de futuro, é esse tipo de futuro que a gente busca, não é? Eu quero ajudar a criar imagens de futuros onde a gente queira viver”, reflete.
Nesse sentido, a cineasta conta que gosta especialmente da cena do filme em que as meninas “vão para o futuro” e realizam os próprios sonhos. “Quando elas materializam em cena o próprio sonho delas, acho que isso traz uma beleza de que é possível sonhar e realizar o sonho se a gente for atrás”, comenta.
Revolta, memória e utopia
Eliza Capai filma a partir de um incômodo. Antes mesmo de saber que faria cinema, ela já identificava sua revolta diante das injustiças — uma revolta antiga, com histórias que permeiam sua infância. Ao refletir sobre sua trajetória, a cineasta identifica no trabalho com as meninas piauienses a continuidade de um caminho pessoal e político que é definidor do seu olhar para questões sociais complexas.
Filha de um ex-preso político torturado durante a ditadura militar, Eliza cresceu em um ambiente marcado pelo silêncio imposto pelo medo. “Minha mãe só recentemente entendeu que a memória ruim dela tem a ver com a clandestinidade. Esquecer era uma forma de sobreviver”, conta. “Mas quando a gente esquece, a gente abre espaço para o que não quer que se repita”.

Também por isso, Eliza escolhe filmar a partir do que chama de “pontos de luz”. Morando em Ubatuba, no litoral de São Paulo, cercada pela natureza, a cineasta fala da beleza do mundo com a mesma intensidade com que denuncia seu horror. “Fazer filmes é minha terapia para continuar amando a vida”, afirma.
“Eu não tenho como mudar a desigualdade social no Brasil. Mas eu penso onde eu posso atuar, e tento atuar nesse meu pequeno campo. Eu tenho dois lados muito fortes na forma de observação do mundo: um que, por um lado, eu acho o mundo deslumbrante. O ser humano é capaz de criar música, dança, comida, cinema. Isso é belíssimo. Por outro lado, eu acho muito absurdo como uma pequena parcela consegue concentrar poder e produzir tanta violência”, pontua.
Essa confluência entre indignação e encantamento organiza “A Fabulosa Máquina do Tempo” e o “método Eliza Capai” de produzir filmes bonitos e sensíveis sobre assuntos duros. “Quando meu trabalho encontra eco nas pessoas, eu penso: não estou sozinha”, diz.

Vanessa: vinte anos se passaram
Em conversa com o ICL Notícias, uma moradora de Guaribas — que não está no filme de Capai, mas tem uma história de vida que se entrelaça com as transformações observadas nas andanças da cineasta pelo Piauí — compartilhou um pouco do percurso dela enquanto criança que um dia precisou dos programas sociais implementados na cidade.
Vanessa Souza tem 33 anos. O Bolsa Família chegou a Guaribas quando ela tinha 10 anos. Filha de migrantes nordestinos, ela nasceu no Distrito Federal, mas se mudou para a terra natal da mãe, no Piauí, aos quatro anos de idade. A menina, irmã do meio de dois meninos, foi criada principalmente pela mãe e se sente mais piauiense do que qualquer outra coisa.
“Eu basicamente só nasci no DF. Mas a minha infância e as minhas maiores memórias estão em Guaribas, pra onde minha mãe voltou depois que se separou do meu pai. Eu cresci vendo ela trabalhar como diarista e cozinheira. Dependíamos muito dos benefícios sociais (bolsa escola, bolsa família, vale-gás) para não passar fome. O meu era pai ausente, nunca ajudava. E a minha mãe, sem estudo, encarava muitas dificuldades pra criar três filhos”, relata.

Vanessa se lembra da infância na cidade sem água encanada, sem banheiro e sem energia elétrica. Ela conta que a mãe e a avó passaram fome e muitas necessidades, mas ela e os irmãos já cresceram em condições um pouco melhores. “Não vivemos a fome extrema, e agradecíamos de ao menos ter alimentação básica, como feijão e arroz”, relembra.
Aos 19 anos, Vanessa foi morar em São Paulo, onde ficou até os 31. Ela trabalhou em restaurantes, shopping e padarias, recebendo um salário mínimo. Com o tempo, foi percebendo sua paixão pela cozinha e pela gastronomia. Em São Paulo, se apaixonou, engravidou e viveu durante alguns anos com o pai do filho. Depois, com o rompimento da relação, ela voltou para Guaribas. “Concluí cursos técnicos em Contabilidade e Recursos Humanos. Segui o sonho de crescer, ter independência financeira e mudar de vida. Tudo isso já em Guaribas”, conta.
Com o pouco dinheiro que tinha, Vanessa decidiu empreender. Ao lado da mãe, construiu uma padaria do zero, há cerca de dois anos. “Com uma nova situação financeira, administrando meu CNPJ, não recebo auxílio de programas sociais hoje em dia”, celebra. “O meu filho, com quase 5 anos, vive um outro momento da família — com novos horizontes e possibilidades. Estou mostrando um outro caminho melhor para ele”.

Vanessa virou referência em Guaribas sobre feminismo e superação. Para ela, o principal ganho particular foi a mudança de mentalidade. “Sei que programas como o Bolsa Família foram fundamentais pra que eu tivesse uma vida com menos dificuldades que a minha mãe, mesmo que as dificuldades ainda fossem imensas. Mas o tempo me ajudou a me aprimorar, reconhecer que era possível criar um futuro diferente e dar a volta por cima”, diz.
A mãe, Gilca Alves, voltou a estudar, aos 56 anos. “É um orgulho para todos nós e deixa ela muito feliz. Sensação de poder recuperar um tempo perdido, de poder lutar pelo que antes não era permitido na nossa realidade tão precária. Eu sempre digo que podemos ir ainda mais além, juntas”, reflete Vanessa.

Cinema brasileiro, políticas públicas e mulheres
A estreia em Berlim acontece em um momento de forte visibilidade internacional do cinema brasileiro, com premiações e indicações recentes. Para a documentarista Eliza Capai, há um simbolismo adicional no fato de quatro dos 16 filmes da mostra Generation serem brasileiros, todos voltados à infância e à adolescência. “É um gesto de olhar para o futuro com carinho”, reflete.
A equipe de “A Fabulosa Máquina do Tempo” é majoritariamente feminina, uma escolha que dialoga com o tema e a relação de confiança estabelecida com as crianças.
O filme teve apoio de fundos internacionais, como o de Gotemburgo (Suécia), e do Fundo Setorial do Audiovisual, gerido pela Agência Nacional do Cinema (ANCINE). “Sem políticas públicas nacionais e fundos internacionais de apoio, esse filme não existiria”, afirma Capai.
Na abertura da mostra Generation Kplus, em Berlim, estrelando: Manuellinha, Manu e Sophia. Elas subirão ao palco após a sessão, em tempo de talvez compreender, pela primeira vez, a importância de contar a própria história.
Para a diretora, a estreia no festival pode significar o fechamento emocionante de um ciclo para as meninas de Guaribas. “Com a curiosidade das pessoas assistindo, os aplausos, as perguntas… acho que elas podem entender como a história delas é rica, como faz sentido, como é diferente e especial”, finaliza.