A oposição venezuelana tem pressa. Pouco mais de um mês depois da prisão de Nicolas Maduro, não há ainda qualquer sinal de um processo de transição política e nem o compromisso do governo de Donald Trump em estabelecer uma data para uma eleição em Caracas.
Em entrevista exclusiva ao ICL Notícias, dois dos principais nomes da oposição admitem que querem acelerar o debate sobre a democracia na Venezuela e que levaram essa mensagem ao governo de Donald Trump que, de fato, controla o destino do país. Mas são cautelosos em comentar ou criticar as decisões do republicano.
No dia 3 de janeiro, a operação militar contra Caracas levou Maduro como prisioneiro. Mas os EUA mantiveram a base do chavismo no poder, frustrando a expectativa de opositores de Maduro. Washington passou a ditar quais leis teriam de ser aprovadas e como o orçamento seria gasto, principalmente com a receita do petróleo.
Leopoldo Lopez, líder do partido Vontade Popular, disse à reportagem que “o próximo passo é construir um caminho para uma uma eleição geral,”. “Um caminho concreto”, insistiu. “Vamos na direção correta. Mas não estamos onde queremos chegar”, admitiu.
Para ele, o único caminho é a convocação de uma eleição geral, com votos para presidente e também para uma nova Assembleia Nacional. Lopez ainda defende que processos eleitorais sejam estabelecidos em prefeituras, sindicados, centros estudantis e em todos os locais com espaços de participação popular.
Em 2014, Lopez foi alvo de um pedido de prisão por seu papel nos protestos contra o chavismo. Ele se entregou à Guarda Nacional e, em 2015, foi condenado a 13 anos de prisão por “incitação pública”. Ele permaneceu em detenção domiciliar até 2019 e, um ano depois, se refugiou na embaixada da Espanha em Caracas.
Hoje, ele reconhece que alguns “avanços” foram feitos desde a prisão de Maduro. Mas alerta que a libertação de presos ainda não é suficiente. “Desmantelar o sistema repressivo e manter Diosdado Cabello como Ministro do Interior é algo que não tem credibilidade”, criticou.
Sua postura, porém, é a de aceitar a escolha que Trump fez. O americano, ao anunciar a queda de Maduro, não fez sequer uma referência à democracia na Venezuela.
“Do lado da oposição, responsabilidade é o de entender o momento diferente que a Venezuela vive. Estou otimista, mas também realista. Os tempos vão depender das circunstâncias politicas e geopolítica, e a influência clara que os EUA tem nesse processo”, disse Lopez.
Questionado se uma eleição poderia ser em 2026, ele ponderou. “À medida que vão passando os dias, fica cada vez mais difícil que seja no curto prazo. Há várias mudanças institucionais que precisam ocorrer”, destacou.
Ele lembra que os venezuelanos no exterior não podem votar e que seriam cerca de um terço da população do país.
Ao ser perguntado se havia ficado frustrado com o caminho adotado por Trump, ele foi diplomático. “Não diria frustração. São realidades que precisamos assumir e trabalhar sobre ela. É uma realidade, é uma decisão que foi tomada”, disse. O opositor admite que “havia uma expectativa diferente”. “Mas é o que é”, afirmou, defendendo que se trabalhe num processo de democratização. “Eu fui preso por sete anos por pedir eleição. A aspiração não muda”, insistiu.
Ele rejeita a ideia de que se possa trocar a democracia por uma estabilidade. “A estabilidade passa pela democracia”, disse.
Segundo ele, as mudanças de leis nos últimas semanas para atrair investimentos são positivas. “Mas haverá um limite. Os grandes investimentos no setor de petróleo se construem com a qualidade do estado de direito. Essa estabilidade exige democracia”, defendeu.
Lopez admite que, do lado de Trump, “não há um compromissos com os tempos” de uma eventual eleição. “Se não começarmos a construir um caminho da democracia, ninguém o fará por nós. A exigência da democracia não podemos pedir nem à ditadura interina de Delcy Rodrigues e nem aos EUA”, constatou.
Os venezuelanos no centro da transição
Pedro Urruchurto Noselli, diretor de Relações Internacionais da campanha de Maria Corina Machado, tem uma avaliação que vai na mesma direção.
“Cabe a nós acelerar os tempos. Precisamos acelerar. A comunidade internacional tem seu tempo. Mas nós precisamos ter o nosso”, disse.
Segundo ele, uma eleição pode ser organizada em nove meses. Mas perguntado se ainda acreditava que o processo poderia ocorrer em 2026, ele apenas respondeu que sua prioridade é que aconteça “o quanto anos”.
Mas, para seu grupo, a condição é de que o ponto de partida do processo eleitoral seja a criação de um governo de transição liderado por Edmundo Gonzalez, hoje vivendo no exílio.
Urruchurto foi um dos homens que ficou 412 dias presos na embaixada da Argentina em Caracas, mantida pelo Brasil para evitar que fosse invadida. “Aquela bandeira do Brasil nos protegia”, relembrou o venezuelano, que disse ainda não poder contar as circunstâncias de seu resgate e sua ida aos EUA, ainda em 2025.

Ele admite que o governo Trump optou por apostar numa primeira fase na estabilidade da Venezuela. Mas teme que o chavismo use essa oportunidade dada pela Casa Branca para ganhar tempo e apresentar diferentes projetos para atender aos EUA. “São manobras para normalizar a situação e apostam em uma debilitação da posição dos EUA. Por isso, não podemos perder a oportunidade”, alertou.
Segundo ele, ao longo dos anos, o chavismo realizou 17 processos de negociação com a oposição, todos eles sem resultado.
“Estamos em comunicação com EUA, há conversas permanentes e sabem que temos capacidade efetiva de governar o país e aplicar um plano de recuperação”, disse.
Para o assessor direto de Corina Machado, a oposição já deixou claro para Trump que uma transição precisa ocorrer “com os venezuelanos no centro”. “Em público e privado, já passamos essa mensagem”, disse.
Num primeiro momento, ele destaca como Washington optou por encarregar o próprio chavismo de desmantelar o sistema de governo que existia.
“Mas isso é insustentável. Trata-se de um grupo que precisa atender aos EUA e sua base. Uma hora não vão conseguir cumprir as promessas a ambos os lados”, alertou.