Por Maurício Carvalho*
Tenho insistido — entre amigos, políticos e políticos amigos — em quatro alertas que, na minha leitura, ajudam a compreender 2026:
1. não há eleição decidida antecipadamente;
2. erros estratégicos custam mais do que convicções ideológicas;
3. o capital simbólico do lulismo não se transfere automaticamente no tempo;
4. em disputas de margem estreita, a confiança institucional é variável decisiva.
Os números — em especial os da Quaest (fev/26) — mostram um país dividido em três blocos. Dois estão praticamente empatados em rejeição e intenção de voto consolidadas. No terceiro está o grupo decisivo: os eleitores independentes, sem pertencimento fixo. E 64% deles acham que Lula não merece continuar presidente. Esse é o epicentro da próxima eleição.
Em 2022, parte desse eleitorado preferiu o risco da não escolha: absteve-se, votou nulo, recusou ambos. A pergunta de 2026 é direta: esses eleitores encontrarão uma margem em que depositar alguma esperança? Serão seduzidos por algum dos polos? Ou repetirão o gesto, empurrando a decisão para o vazio?
A memória sustenta Lula entre quem viveu os anos de mobilidade social. Para eles, o lulismo foi experiência concreta. Mas memória não é herança automática. Para quem era criança até 2010, o PT não é insurgência histórica; é o partido que governou por muito tempo, ocupou o centro do poder e se integrou às estruturas institucionais.
O discurso antissistema foi real na origem. Mas, para a geração sem lembrança, ele não é vivência — é narrativa que compete com percepções sedimentadas pela Lava Jato, pela extrema-direita e pela repetição da palavra “corrupção” até virar paisagem. Some-se qualquer episódio que sugira proximidade entre elites políticas, judiciais e financeiras — como no caso Toffoli–Vorcaro — e cristaliza-se a síntese simbólica: sistema fechado.
Aqui reside um erro estratégico perigoso. Insistir na identidade antissistema como se ela fosse evidência autoexplicativa pode produzir o efeito inverso: reforçar a percepção de establishment. Se esse discurso fosse, por si só, decisivo, talvez o país estivesse hoje sob outra gestão. Ele não basta. Precisa haver coerência na leitura do presente.
É nesse ambiente que os eleitores “independentes” ganham relevância. O PSD de Kassab trabalha com presidenciáveis de menor rejeição. Em cenário de desgaste simétrico, nomes borderline tornam-se instrumentos de veto. Não precisam liderar; basta oferecer ao eleitor desconfortável uma alternativa menos ruidosa. Daí, é só aguardar pelo segundo turno.
Enquanto isso, o novo Imposto de Renda aponta na direção estratégica correta. Ampliar a isenção até cinco mil reais para cerca de 16 milhões de trabalhadores desloca o debate da memória para a experiência concreta. Não é evocação; é renda que permanece com quem trabalha.
Para muitas famílias, mais de mil reais ao ano significam matrícula paga, rotina reorganizada, pequena melhora doméstica. Não é assistência; é autonomia. Mas autonomia precisa ser percebida como tal. A entrega não gera capital por si só. Se não for propagada e traduzida na linguagem de quem recebe, permanece como dado técnico.
Para quem valoriza proteção social, a medida reforça justiça. Para quem valoriza mérito, precisa soar como reconhecimento — menos tutela, mais liberdade de decidir. Aqui pode residir outro erro estratégico: a ausência de segmentação e de posicionamento simbólico.
Quando a identidade declarada não coincide com a experiência percebida — ou quando se insiste em uma definição que o eleitor independente não reconhece como real — instala-se a dissonância. E a dissonância, em eleições decididas na margem, corrói silenciosamente.
2026 será definida na interseção dos quatro alertas: a incerteza estrutural da disputa, o risco de erros na leitura do eleitor independente, o desgaste natural do capital simbólico e a necessidade de reconstruir confiança onde a rejeição é mais alta.
Capital político pode até ser herdado. Mas, sem atualização e conexão com a percepção real do eleitor, vira apenas lembrança — respeitável, porém insuficiente. Eleições apertadas não premiam memória isolada nem retórica reiterada. Premiam coerência, redução de risco e confiança percebida.
*Maurício Carvalho é publicitário e estrategista de marketing político