O mito da classe média brasileira

Mais do que renda, a classe média funciona como identidade social e peça central na disputa ideológica em uma sociedade marcada pela desigualdade
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Você provavelmente já ouviu que o Brasil se tornou um país de classe média. Na prática, o país voltou a ser majoritariamente de classe média em 2024, quando mais da metade dos brasileiros estavam nas classes C, B e A, segundo um levantamento feito pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Esse aumento dos ganhos das famílias fez com que a classe média puxasse o crescimento de renda e voltasse a crescer no país. Como consequência, esse grupo passou a representar, pela primeira vez desde 2015, a parte majoritária da população brasileira, um dado que indica a retomada econômica e avanço nos níveis de emprego.

Mas o que significa, afinal, ser da classe média? Quais são os marcadores que a definem? Suas faixas de renda, padrões de consumo? Para responder a isso, é preciso entender a dimensão ideológica da chamada classe média no Brasil.

Mas o que é a classe média?

Historicamente, o termo “classe média” surge com o capitalismo industrial. Ele passa a designar um grupo intermediário entre proprietários e trabalhadores manuais, associados a um certo padrão de consumo e escolaridade.

No debate contemporâneo brasileiro, especialmente a partir dos anos 2000, o conceito foi apropriado pelo discurso econômico. A tese da “nova classe média” sustentava que milhões de brasileiros haviam ascendido à chamada classe C por critérios de renda entre os anos de 2003 e 2008.

Mas esse enquadramento foi amplamente criticado por sociólogos, que apontaram o reducionismo em definir classe apenas por renda, desconsiderando a dimensão do pertencimento simbólico. Ser de classe média no Brasil é menos sobre os dados estatísticos e mais sobre aspirações sociais associadas a status e segurança material, como por exemplo casa própria, ensino superior e padrão de consumo diferenciado.

A ascensão da classe média expõe uma contradição social: a identidade funciona como um símbolo de prestígio, mas, na prática, não altera a posição estrutural de quem continua dependendo do trabalho para sobreviver. E é exatamente aqui que o mito começa.

A classe média não é sobre renda, mas sim ideologia

No capitalismo existem duas classes estruturais: a burguesia, que é proprietária dos meios de produção, e os trabalhadores, que vendem sua força de trabalho à burguesia. Nesse sentido, a classe média não se apresenta como uma classe econômica propriamente dita, mas sim uma categoria ideológica.

É isso que diz a filósofa Marilena Chaui, uma das principais referências para entender o Brasil contemporâneo, principalmente no que diz respeito à desigualdade, ideologia, autoritarismo e democracia. Chaui nos ensina, refletindo e entendendo melhor as desigualdades e estruturas sociais do Brasil.

Essa camada social chamada classe média, na realidade, está situada entre o capital e o trabalho, pois não controla os meios de produção, tampouco organiza a luta por direitos, vivendo sob essa ambiguidade estrutural.

Nessa dualidade, ela não pertence às elites econômicas nem se reconhece como parte da classe trabalhadora, o que gera um sentimento de insegurança social, o medo de perder status e cair na base da pirâmide. É nesse contexto que a classe média passa a adotar discursos moralizantes sobre mérito, ordem e corrupção, funcionando como formas simbólicas e performáticas de se diferenciar das classes populares, quando na verdade está apenas preservando seus privilégios.

Essa tensão ajuda a explicar os momentos de radicalização política. Em momentos interpretados como ameaças pela classe média, como a ampliação de direitos sociais e inclusão das camadas populares, o conservadorismo costuma ser a reação adotada.

A fúria da classe média expressa um conflito estrutural dentro de uma sociedade desigual, onde o grupo social intermediário oscila entre a identificação com a elite e o distanciamento de classes populares.

O que transforma a classe média, ainda segundo Marilena Chaui, em fascista, violenta e ignorante. Um grupo que sonha em se tornar burguês e teme tornar-se proletário, quando na prática, faz parte do proletariado. A classe média brasileira é conservadora e autoritária porque vive essa tensão permanente.

Quando políticas públicas ampliam o acesso de trabalhadores ao consumo e à universidade, por exemplo, isso é visto como perda de distinção. Chaui aponta que a entrada de pobres e negros no ensino superior revelou o racismo estrutural latente.

A classe média passa então a se comportar como guardiã simbólica da hierarquia social, defendendo a ordem e a meritocracia, ainda que também venda sua força de trabalho. Tornando-se uma classe média ideológica.

Saiba mais em: Modo capitalista de produção e suas faces do trabalho

Dados que desmontam a ilusão

O Brasil é um país extremamente desigual no que diz respeito à concentração de renda. Um estudo de 2025 mostrou que a parcela de brasileiros que correspondem aos 1% mais ricos, concentram cerca de 27,4% da renda nacional. Um grupo que paga, em média, 20,6% em tributação de impostos, enquanto a classe média, cerca de 42,5%.

No mesmo ano, o governo federal conseguiu a aprovação de uma proposta para isentar o imposto de renda para as pessoas que ganhavam até R$ 5 mil, aumentando as cobranças e alíquotas sobre a população mais rica. A medida, adotada no terceiro mandato de Lula, foi vista como um avanço na luta contra a desigualdade social e a concentração de renda no país.

Manifestantes estendem faixa na Ponte Juscelino Kubitschek exigindo a taxação dos super ricos no Brasil.
Na foto, uma bandeira gigante estendida na Juscelino Kubitschek, em Brasília, em 2025, em protesto a favor da reforma do Imposto de Renda. Foto: Scarlett Rocha

Quem se identifica como classe média está muito mais próximo da classe trabalhadora do que do topo da pirâmide e isso é evidenciado pela desigualdade tributária. O que mostra-se contraditório, pois a classe média sustenta o Estado mais do que os super-ricos e, ainda assim, identifica-se simbolicamente com eles.

Identidade e reconhecimento

Um estudo da Quaest, publicado em 2025, mostrou que 66% dos brasileiros se consideravam pertencentes à classe média, revelando que a classe funciona menos como uma posição objetiva de renda e mais como uma identidade social desejada. Entre os mais pobres, 55% também se enxergam como classe média, enquanto entre os mais ricos, o número sobe para 81%.

A identidade da classe média está associada a marcos sociais como a casa própria — um símbolo central dessa identidade — , estabilidade familiar, acesso a serviços financeiros e expectativa de mobilidade. O estudo, como vimos, sugere que a percepção de pertencimento à uma classe muitas vezes não corresponde à posição econômica real. Isso revela que, no Brasil, se declarar de classe média é uma forma de afirmar dignidade, aspiração social e reivindicar um lugar dentro de uma sociedade profundamente desigual.

O conservadorismo da classe média

A herança escravocrata brasileira estruturou uma sociedade profundamente hierárquica. O sociólogo Jessé Souza, nome fundamental para quem busca compreender a desigualdade social no brasil, nos mostra como as elites construíram narrativas para preservar privilégios. A classe média, muitas vezes, reproduz essas narrativas, acreditando que desigualdade é resultado de esforço individual, não de estrutura histórica.

Esse alinhamento simbólico explica parte do conservadorismo político contemporâneo. A desigualdade é tratada como falha moral dos pobres, e o ressentimento se volta contra quem está abaixo, e não contra quem concentra riqueza.

O conservadorismo da classe média está ligado a forma como a camada é influenciada pelas ideias e valores produzidos pela elite econômica. Na prática, o discurso moralista reproduzido por esse grupo tem como consequência a manutenção dos privilégios de uma camada bem restrita da população: a elite.

Em 2018, a Escola de Samba Paraíso do Tuiutí desfilou no Carnaval do Rio de Janeiro com um samba enredo que ironizava a classe média brasileira.
Na foto, a Escola de Samba Paraíso do Tuiutí, no Rio de Janeiro, ironiza a classe média manipulada em seu desfile na Sapucaí, em 2018. Foto: Tânia Rego / Agência Brasil

Parte desse conservadorismo nasce do medo de perder status, fazendo com que a classe média dirija sua frustração contra os mais pobres, atacando principalmente as políticas sociais. Logo, a classe média se torna um grupo facilmente mobilizado pela elite financeira e usado como base de apoio para manter a hierarquia social e seus privilégios.

O mito da ascensão permanente

Nas últimas décadas, observamos algumas ondas de ascensão da classe média no Brasil. Entre os anos de 2002 e 2008, milhões de brasileiros melhoraram sua renda e ascenderam à classe C. Já em 2024, o Brasil voltou a ser um país majoritariamente de classe média.

Mas, a renda intermediária não significa controle sobre capital. Sem patrimônio, sem propriedade produtiva e sem influência estrutural, essa camada continua dependente do mercado de trabalho.

A ideologia da classe média cria a sensação de pertencimento a um grupo privilegiado, mesmo quando a vulnerabilidade permanece. A classe média que ascendeu nestes períodos acredita que tem controle sobre o capital e que permanece em crescimento, embora continue vendendo sua força de trabalho.

Existe, também, o mito de que um diploma universitário alteraria a estrutura econômica das pessoas, principalmente com o aumento da população com ensino superior a partir do começo dos anos 2000. Mas, essa distinção simbólica não elimina a dependência salarial, pois intelectuais também pertencem à classe trabalhadora.

Desmontar o mito da classe média é fortalecer a democracia

A classe média brasileira não é apenas uma faixa de renda, mas sim uma construção social ideológica que mascara a estrutura real do capitalismo. Enquanto os dados mostram que a classe média é na verdade composta por trabalhadores, o sentimento de pertencimento à elite é real.

Por isso, desconstruir o mito da classe média é revelar estruturas sociais no nosso país. Enquanto o 1% mais rico concentrar mais de um quarto da renda nacional, a disputa não é entre a classe média e as pessoas mais pobres, mas sim entre o capital e o trabalho.

Entender isso é um dos primeiros passos para reorganizar a luta por direitos, ampliar a democracia e entender a sua posição social no jogo do capitalismo. Afinal, somos (quase) todos trabalhadores.

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