O noticiário, este lugar feito para provocar crises de ansiedade e tensão, está cada vez mais bipolar. Fácil ir da raiva extrema ao riso; da tristeza às gargalhadas no breve instante de uma notícia para outra. Chegamos apenas na metade do terceiro mês do ano e privilegiado de verdade é quem pode dar-se ao luxo de não estar exausto.
Há pouco mais de um ano o mundo ganhou um imperador com a mesma sanha expansionista de território daqueles antigos que entravam, matavam, roubavam e saqueavam. Donald Trump fala como uma criança mimada daquelas insuportáveis, com ego super inflado e que agem como se estivessem brincando de atirar bombas inconsequentemente no videogame. Um imperador com um passado para lá de duvidoso, que resolveu desestabilizar o planeta com uma guerra (já podemos chamar de mundial?), como distração de todas as atividades ilícitas que rondam sua história. O conflito armado no Irã mexeu com as vidas, a economia, a segurança mundial e é a enxaqueca do planeta inteiro.
Enquanto isso, no Brasil, o maior escândalo bancário da história tem um banqueiro bilionário, com boa parte do executivo, legislativo e judiciário em sua agenda no celular, além de uma namorada com quem manteve conversas, ambos como criancinhas com deslalia na letra “r”. Adultos falando na língua do personagem dos quadrinhos “Cebolinha”.
Daí somos obrigados a saber que Daniel, dono de verdadeiros palácios pelo mundo e que declarou um patrimônio de 2,6 bilhões em 2024, gostaria de morar… no suvaco da moça e que os dois se referem ao órgão sexual dela como “peleleca”. Tudo vazado pela Polícia Federal.
Insanidade bem ao gosto brasileiro por memes, que explodiram imediatamente. A loucura de um país que não sabe perder a piada e falar sério, sobre questões seríssimas. Não a “peleleca”, obviamente, mas a fraude que envolveu até a preciosa grana de idosos. Precisamente cerca de 1,2 bilhão de verbas dos aposentados e pensionistas do Rio de Janeiro em títulos do Banco Master.
Então, até aqui temos Irã no macabro jogo de War de Trump e a Peleléca da namorada do Daniel Vorcaro. E onde entra o uni-duni-tê? Daquele reality show de todos os anos há 26 anos. Em 2026, o conflito entre Babu Santana e Ana Paula Renault produziu algumas das cenas mais constrangedoras e verbalmente virulentas da história do programa. Ninguém conseguia falar de outra coisa.
Os dois, usando também a linguagem infantil do “uni-duni-tê-salamê-minguê”, mobilizaram as redes. Entre Irã e a Peleleca, a sensação que se tem é que o uni-duni-tê é que foi o escolhido.
Não fosse a masculinidade doentia e canalha que se afirma por armas e bombas no teto de escolas e de crianças (essas sim, verdadeiras), para ocultar acusações que envolvem pedofilia; a ridícula fala que também leva para uma imagem de sexualização infantilizada, enquanto se frauda o sistema bancário de uma nação do tamanho do Brasil; a permissão de discursos absolutamente misóginos e doentios no programa de maior audiência em rede aberta nacional, num tempo em que a violência contra a mulher mata quatro mulheres por dia no país; ou o fato de que o “Imperador”, em seu jogo cruel e em acordo com países vizinhos, está a nossa porta e com toda gana para entrar… Não fosse tudo isso, ainda assim não poderíamos descansar. Há sempre algum absurdo sendo gestado para nos deixar sem chance de fazer nenhum “uni-duni-tê”.
Aliás, a participante do reality, apelidou um dos adversários de “Quinta série”. Quem dera, Ana Paula, que estivéssemos tão adiantados! A grande pergunta é sobre quando adultos com um mínimo de bom senso entrarão em cena, para que possamos sair deste jardim de infância macabro.