‘Seja forte, mas não endureça’

Mensagem nas redes da dra. Andréa Marins, morta pela polícia
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Não vai adiantar dizer aqui, nesta coluna, do absurdo das circunstâncias do assassinato da dra. Andréa Marins Dias, médica morta pela polícia no último domingo (15/03). Todo mundo sabe, porque é a repetição de descalabros em série. Também não surtirá efeito algum argumentar que policiais que saem perseguindo bandidos e atirando nas vias públicas, com as câmeras corporais descarregadas, não são inocentes e esperam ansiosamente o resultado morte. Preferencialmente dos bandidos, mas — dirão cinicamente eles — em uma guerra inocentes morrem.  Dito isto, nestas poucas linhas fico com a vida: A da Dra. Andréa.

A médica carioca de 61 anos, cirurgiã oncológica especializada no tratamento de endometriose, estava no auge de sua produtividade. Ativa nas redes sociais, ela tirava dúvidas e alertava mulheres sobre o mal em que se especializou e que faz sofrer silenciosamente milhões de pessoas mundo afora. Suas postagens eram de altíssimo astral, conclamando ao amor-próprio, ao autocuidado, a enfrentar o medo que o diagnóstico traz.

Uma dessas postagens é linda. Em vários “cards”, ela formula frases de incentivo para suas pacientes ou para quem eventualmente caísse em sua página. Nada que já não tenhamos ouvido em algum momento, mas cada uma delas tem novos e profundos contornos. Provocam reflexões infinitas.

“Cuidar de você também é coragem…”

Ser mulher é estar sobrecarregada. Mesmo as ricas, mesmo as que se enquadram nos padrões exigidos pela sociedade de consumo não escapam a lógica machista que exige do corpo feminino muito mais do que ele é capaz de dar. Magreza, juventude eterna, competência, maternidade, simpatia, delicadeza, saúde… tudo isso dá trabalho e custa caro manter. Tudo isso pesa. Para as não ricas, que não se encaixam nas “fôrmas” de bolo exigidas e que não conseguem delegar as corriqueiras e custosas tarefas do cotidiano, a carga quadruplica.

Trabalho dentro e fora de casa; criação e cuidado dos filhos; responsabilidades familiares sem conta; o bem-estar dos que dela dependem; a harmonia da família…tudo depende dela, menos ela mesma. A coragem de cuidar de si só nasce quando vem a coragem de se priorizar na frente de tudo isso. Não é fácil…, mas se o corpo é a nossa única morada real, se ela ruir não resta nada. Dra. Andréa estava alertando para o fato óbvio da urgência em se colocar em primeiro lugar.

“Você não precisa dar conta de tudo sozinha…”

A coragem de cuidar de si só vem quando se é capaz de ter coragem também de pedir ajuda, delegar, entender os seus limites, lidar com a incompletude e a imperfeição. É fácil imaginar quantas mulheres ela não atendeu que chegaram em suas mãos já em estágio crítico porque acharam que podiam levar o mundo nas costas e se colocaram em último lugar na própria fila.

“Escutar o corpo é um ato de amor…”

Aquela dor persistente com a qual você se acostuma pode ser o seu rim dizendo que vai pifar e sem ele, só um transplante. Então, quem se ama escuta o que o corpo está gritando, berrando… mas não é fácil e nem tão óbvio. Fomos treinadas com eficiência a escutar todo mundo, menos ao nosso próprio corpo.

“Seja forte, mas não endureça…”

Aqui ela exigiu. Como ser forte sem endurecer diante de uma sociedade que tenta te matar a cada esquina? Como não criar uma casca bem dura para aguentar tanta paulada? Como não endurecer, vendo uma pessoa como dra. Andréa sucumbir de forma tão brutal e vil?

Talvez se preocupando em construir com garra uma vida cheia de propósitos, como ela criou ao deixar tanto ensinamento sobre uma doença pouco falada, pouco debatida e que acomete tanta gente, mas não só isso. Ensinamentos práticos e técnicos, envolvidos em humanidade e valorização   da vida. Cada uma, em sua área de atuação ou em seu dia a dia, pode fazer isso.

“Dor não é normal. Cuidado é necessário…”

Frescura. Coisa de mulherzinha. Mês que vem passa. Quanta frase a gente aprendeu para se habituar a fazer todas as tarefas da vida sentindo dor? Cólicas absolutamente brutais dizem que algo há, mas bolsa de água quente, analgésicos fortes e mil receitas caseiras vão ajudando a naturalizar não sair da cama, não conseguir andar de tanta dor. O que é isso, minha gente?

“Você merece viver com leveza…”

Até a gente se convencer de verdade disso é o peso-pesado que impera. Toneladas de tanta coisa amarrada feito bola de ferro nos tornozelos e que atrasa nossas vidas, nos faz dar uma volta muito maior para alcançar por vezes objetivos relativamente simples. Sim, merecemos leveza, Doutora.

Quanto tempo leva para um país formar uma médica, com 30 anos de prática e excelência? Vi uma coroa de flores das “Médicas Negras do Brasil”. Uma homenagem emocionante, considerando que medicina é um dos cursos mais difíceis de entrar e mais elitistas do país. Não raro abarrotado de gente que ainda acredita em “verdades”atribuídas a racismo científico do século 19. Uma mulher negra médica é uma chance de que outra pessoa negra entre no consultório e seja vista como ser humano, não como um corpo descartável.

Quanto investimento familiar em recursos financeiros e emocionais para uma pessoa como ela chegar onde chegou? Sua última visita foi aos pais com 88 e 91 anos. Pessoas que tiveram um ciclo completo de vida, cuidadas pela filha e certamente orgulhosas dela. Quem a substituirá no cuidado e no coração deles, em seu olhar especial para o corpo da mulher, em seu exemplo?

“Vai morrer, irmão. Desce!”.

É uma perda irrecuperável, mas foi gritando essa frase que o policial se aproximou do carro da médica. Esta é a última coisa que um agente do Estado brasileiro lhe disse. A vergonha mais absoluta.

Não vai adiantar dizer, mas a gente diz e luta até que adiante.

 

 

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