Entendendo masculinidades tóxicas e violência de gênero

A violência de gênero e masculinidades tóxicas são um sintoma de uma estrutura social baseada na dominação masculina e manutenção das hierarquias de poder
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A violência de gênero costuma aparecer no debate público como uma sequência de tragédias isoladas. Caos seguidos de indignação e promessa de punição, mas quando você observa os dados e a estrutura social que organiza essas violências, a leitura muda.

A violência de gênero surge de uma lógica histórica baseada na dominação masculina e na manutenção de hierarquias de poder. Nesse sistema, comportamentos agressivos e o controle sobre as mulheres aparecem como mecanismos de reafirmação da autoridade masculina.

Compreender esse fenômeno exige olhar para a construção social da masculinidade. A chamada masculinidade tóxica ajuda a explicar como certos padrões culturais de comportamento masculino estão ligados à reprodução da violência.

Neste artigo, você vai entender como esses padrões são construídos, como eles se conectam ao patriarcado e por que a violência de gênero precisa ser analisada como um problema estrutural.

O que é masculinidade tóxica

A expressão masculinidade tóxica descreve um conjunto de normas sociais que definem como homens devem agir para serem reconhecidos como masculinos. Entre essas normas estão, principalmente, a negação da vulnerabilidade, a valorização da força e a ideia de que emoções devem ser reprimidas.

Esses padrões começam a ser ensinados ainda na infância. Meninos são frequentemente incentivados a competir, demonstrar força e esconder sentimentos. Esse processo cria um modelo de masculinidade que valoriza o controle e a agressividade como forma de afirmação social.

Quando um homem aprende que expressar emoções é sinal de fraqueza ou que precisa resolver conflitos pela força, ele passa a ter menos recursos para lidar com frustrações e conflitos sociais. Pesquisadores apontam que esse modelo de comportamento pode gerar isolamento emocional e dificuldades na construção de relações saudáveis.

Uma sociedade pautada por um ideal tóxico de masculinidade acaba por produzir formas de violência que recaem sobre as mulheres, mas não só. Esse padrão de socialização tem impacto direto na saúde mental dos próprios homens, que são socializados para silenciar suas emoções e enfrentar problemas de forma individualizada, muitas vezes reagindo com violência.

Na foto, Vitor Hugo Simonin, preso suspeito de participação no caso de um estupro coletivo em Copabacana, em 2026, usando uma camisa com a frase “Regret Nothing” (não me arrependo de nada, em tradução livre), ao se entregar à polícia. Foto: Carlos Elias Junior/Agência O Dia
Na foto, Vitor Hugo Simonin, preso suspeito de participação no caso de um estupro coletivo em Copabacana, em 2026, usando uma camisa com a frase “Regret Nothing” (não me arrependo de nada, em tradução livre), ao se entregar à polícia. Foto: Carlos Elias Junior/Agência O Dia

Como a masculinidade é construída socialmente

A masculinidade não nasce pronta, é construída socialmente por meio de instituições que organizam a vida cotidiana durante a formação social e psicológica dos indivíduos.

Desde cedo, meninos e meninas são socializados de formas diferentes. Em um ecossistema patriarcal, crescem de formas distintas. Desde as cores das roupas até a escolha dos brinquedos por gênero, estão enraizadas na sociedade expressões como “homem não chora”, “isso é coisa de menina”, entre outras. Essas mensagens reforçam um modelo em que homens devem dominar e mulheres devem se adaptar a esse poder.

Família e socialização

A família costuma ser o primeiro espaço onde esses papéis são ensinados. É comum que meninos recebam estímulos ligados à competição e à resistência emocional. Ao mesmo tempo, demonstrar sensibilidade ou fragilidade pode ser desencorajado. Essa socialização cria expectativas rígidas sobre o que significa ser homem. Com o tempo, esses padrões passam a orientar comportamentos na vida adulta.

Escola e cultura

A escola também reproduz esses modelos. Situações como bullying, valorização da agressividade e hierarquias entre meninos reforçam a ideia de que a masculinidade está associada à força.

Um estudo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IGBE) revelou que cerca de 23% dos estudantes brasileiros já sofreram bullying, fenômeno que muitas vezes está ligado à construção de identidades masculinas baseadas na agressividade como expressão da identidade. Quando esse modelo se consolida, a violência passa a aparecer como uma linguagem socialmente aceita para lidar com insegurança e conflito.

Na foto, uma garota sofre bullying de um grupo de pessoas. Crédito: Freepik 
Na foto, uma garota sofre bullying de um grupo de pessoas. Crédito: Freepik

Mídia e redes sociais

A mídia também desempenha um papel importante. Representações frequentes de masculinidades associadas à força, ao controle e ao poder ajudam a reforçar esses padrões do que é “ser homem”.

Papéis másculos e com pouca fragilidade , presentes desde a infância nos filmes e séries, ajudam a reproduzir essa organização social. Mas esse padrão não se limita ao entretenimento: está também na publicidade, nos esportes e nas narrativas culturais associadas à masculinidade, poder e superioridade.

as redes sociais ampliam esse processo através de dinâmicas de validação social e competitividade, pressionando jovens a se adequarem a modelos rígidos de identidade masculina de exposição e busca por aprovação social. Esse conjunto de influências ajuda a explicar por que comportamentos violentos podem ser naturalizados dentro de uma cultura que valoriza a dominação masculina.

Patriarcado e estruturas de poder

A violência de gênero é um reflexo direto gerado pelo patriarcado, um sistema social que organiza as relações de poder a partir da superioridade masculina. Nesse modelo, são os homens que ocupam as posições centrais de autoridade política, econômica e simbólica.

Esse sistema influencia desde relações familiares até instituições públicas, limitando a autonomia feminina e consolidando desigualdades de gênero. Dentro dessa estrutura, a masculinidade é associada ao poder. Quando essa autoridade é questionada, a violência pode surgir como tentativa de restabelecer o controle.

A violência de gênero, portanto, funciona como um mecanismo de punição social contra mulheres que desafiam essas hierarquias.

Violência de gênero no Brasil: o que mostram os dados

Os dados sobre violência contra mulheres ajudam a compreender a dimensão do problema. O Brasil registrou 1.492 feminicídios em 2024, o equivalente a cerca de quatro mulheres assassinadas por dia.

Em São Paulo, por exemplo, o número de casos também teve alta no período. Em 2025, a capital paulista registrou 53 feminicídios, o maior número de uma série histórica, superando o recorde atingido no ano anterior. Outro dado relevante é 67% dos casos ocorru dentro de casa, geralmente cometidos por companheiros ou familiares das vítimas.

Isso mostra que a violência de gênero não está restrita ao espaço público, mas se manifesta justamente nos ambientes que deveriam oferecer proteção.

O feminicídio costuma ser o desfecho de um ciclo prolongado de violência, que geralmente inclui controle emocional, ameaças, agressões psicológicas, isolamento social, violência física entre outros. Quando a mulher tenta romper a relação ou questionar o controle do agressor, a violência pode se intensificar. O feminicídio representa o ponto extremo de uma dinâmica que é construída muito antes do ato.

Outro desafio importante no enfrentamento da violência de gênero é a dificuldade de reconhecer certas agressões como violência. Uma pesquisa, lançada em 2025 pelo Instituto Natura e Avon mostrou que 4 em cada 10 brasileiras não identificam agressões que sofreram como violência contra a mulher. O dado mostra que a sociedade ainda não sabe lidar com esse tipo de crime tão comum no cotidiano, uma vez que o tema não é tratado como prioritário, tornando-se normalizado.

Mesmo assim, é importante reafirmar que este índice não transfere a culpa para as mulheres que não identificam as agressões, mas é reflexo de uma sociedade patriarcal que normaliza a violência.

Quando somente a agressão física é vista como problemática ou intolerável, outras formas de violência como a psicológica, moral, sexual e patrimonial acabam sendo ocultadas.

Essa falta de reconhecimento dificulta a denúncia e a interrupção do ciclo de violência.

O cenário da violência política de gênero

A violência de gênero reflete em todas as camadas da sociedade, inclusive nas instituições sociais e políticas. Segundo um estudo desenvolvido pelas organizações Terra de Direitos e Justiça Global, entre 2022 e 2024, o Brasil registrou 299 episódios de violência política. Desse total, 46% dos ataques registrados foram direcionados à mulheres, sendo ameaças e ofensas as ocorrências mais frequentes.

Mas um detalhe evidencia ainda mais o uso da masculinidade como ferramenta de controle e poder: o estudo identificou 15 ocorrências de ameaça de violência sexual, todos cometidos contra mulheres parlamentares.

Esses ataques mostram outra face do problema: a violência política de gênero. Essa forma de violência também funciona como instrumento para limitar a participação feminina em espaços de poder. Quando mulheres ocupam posições de liderança ou disputam cargos políticos, elas frequentemente se tornam alvo de ataques misóginos.

Em 2017, o Surpremo Tribunal de Justiça (STJ) condenou o então deputado federal Jair Bolsonaro por danos morais à também parlamentar Maria do Rosário. Em um episódio em 2014, Bolsonaro afirmou que a deputada “não merecia ser estuprada”. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Em 2017, o Surpremo Tribunal de Justiça (STJ) condenou o então deputado federal Jair Bolsonaro por danos morais à também parlamentar Maria do Rosário. Em um episódio em 2014, Bolsonaro afirmou que a deputada “não merecia ser estuprada”. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Políticas públicas e redes de proteção

O enfrentamento da violência de gênero exige políticas públicas estruturadas. No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) desempenha um papel importante nesse processo. Desde 2001, políticas nacionais reconhecem a violência como um problema de saúde pública e organizam redes de atendimento para vítimas, criando uma cultura que faz com que muitas mulheres procurem o SUS antes mesmo de procurarem a polícia.

É na atenção primária que as mulheres conseguem identificar melhor os sinais de violência, recebem escuta qualificada, são orientadas sobre os direitos e serviços e obtém encaminhamentos para a polícia e assistência social, por exemplo.

No entanto, especialistas apontam que ainda existem desafios importantes, como a falta de recursos, a necessidade de formação permanente de profissionais e a subnotificação de casos. Esses obstáculos mostram que o enfrentamento da violência exige ações articuladas entre saúde, justiça e assistência social.

Caminhos para enfrentar a violência de gênero

Alguns caminhos são fundamentais para combater a violência de gênero, exigindo mais do que punir os crimes. É necessário enfrentar as estruturas culturais que sustentam essa violência.

Projetos educacionais que discutem gênero, respeito e diversidade podem ajudar a romper padrões que associam masculinidade à dominação. Além disso, a educação sexual e o debate sobre igualdade também são apontados como estratégias importantes para reduzir a violência de gênero. Outro ponto central é a construção de novas formas de masculinidade, abrindo espaço para que homens demonstrem emoções, reconheçam suas vulnerabilidades e construam relações baseadas em cuidado e respeito, rompendo com o mito da supremacia masculina.

Ações importantes como o cumprimento rápido de medidas protetivas, a integração entre polícia, justiça e assistência social e ampliação de serviços de acolhimento também são essenciais enquanto políticas públicas. Iniciativas como o Pacto Nacional — Brasil contra o Feminicídio, buscam fortalecer essas redes de proteção e coordenar ações entre diferentes instituições do Estado.

Como denunciar violência de gênero?

Como vimos, denunciar a violência de gênero ainda pode ser um desafio porque muitas vezes ela não é reconhecida como tal. Formas como controle, humilhação e violência psicológica seguem naturalizadas, o que mantém o ciclo de violência invisível.

Quando a violência é reconhecida, existem canais institucionais. Em situações de emergência, você pode ligar 190. Para orientação e denúncia, o 180 funciona como Central de Atendimento à Mulher. Também é possível buscar delegacias especializadas e unidades da Casa da Mulher Brasileira, que concentram atendimento jurídico, psicológico e social.

O Sistema Único de Saúde também, por ser procurado antes mesmo da polícia em muitas ocasiões, oferece em seu atendimento escuta e encaminhamento.

Mesmo assim, a denúncia nem sempre acontece. Medo, dependência econômica e falta de informação dificultam esse passo. Denunciar rompe o ciclo, mas isso depende de uma rede que funcione e de uma sociedade que reconheça a violência de gênero como um problema público.

Um problema estrutural

A violência de gênero não se expressa apenas pelo comportamento de indivíduos violentos, ela se liga a uma estrutura social que historicamente organizou o poder em torno da dominação masculina. Quando as mulheres questionam esse sistema, seja ao denunciar agressões, interromper relações abusivas ou ocupar espaços de poder, a violência aparece como reação imediata da masculinidade tóxica.

Enfrentar a violência de gênero exige ir além da punição, parte da transformação de como a sociedade constrói as masculinidades que distribuem o poder e não reconhece direitos. Essa transformação não acontece apenas nas leis, mas passa pela cultura, pela educação e pelas relações cotidianas.

E é nesse terreno que se decide se a violência continuará sendo tratada como destino inevitável ou como um problema social que pode — e deve —  ser superado.

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