O PT, o antissistema e a luta pela democracia

"Por mais de 200 anos convivemos com um sistema que não permitia que os filhos da classe trabalhadora entrassem nas Universidades"
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

Por Ligia Toneto*

O Estadão publicou um editorial hoje atacando o PT e seu presidente nacional, Edinho Silva, por dizer que o PT é um partido do diálogo e do antissistema. Não surpreende ler isso do jornal que há 8 anos escreveu o editorial “uma escolha muito difícil” às vésperas da eleição de Jair Bolsonaro contra Fernando Haddad – e vimos o que ocorreu depois.

O editorial diz que o PT não pode ser antissistema porque o PT exerceu o poder de boa parte dos últimos anos e que moldou o sistema que faz parte, através da aprovação de projetos de leis e funcionamento das instituições. Mas, qual será esse sistema?

O PT luta e sempre lutou contra um sistema que perpetua privilégios.

Por mais de 200 anos convivemos com um sistema que não permitia que os filhos da classe trabalhadora entrassem nas Universidades. O PT criou o ProUni, as cotas raciais, e mais recentemente o pé-de-meia. Mas o PT ainda luta contra o sistema que reproduz o racismo na educação, na desigualdade de classes, no acesso a oportunidades. Conseguir mudar – e revolucionar – o sistema, não significa que deixamos de ser contra ele. Lutaremos contra o racismo e o preconceito sistêmico até que ele não exista mais.

Por mais de 500 anos o Brasil conviveu com a fome. Precisou o PT assumir o Governo para que o combate a fome passasse a ser uma prioridade e uma realidade. Aliás, foi só o PT sair do Governo que a fome voltou. O PT luta contra um sistema que produz uma minoria de bilionários contra uma massa de esfomeados. E lutaremos contra o sistema até que todos tenham alimentação saudável, digna e de qualidade – dentro e fora das fronteiras do Brasil.

Por mais de 200 anos o Brasil reformou seu sistema tributário sem atacar seu principal problema: a brutal concentração de renda, em especial no topo. Foi com o PT no Governo que conseguimos aprovar pela primeira vez na história do Brasil uma reforma do imposto de renda visando maior justiça tributária: aliviar o bolso de quem ganha menos cobrando mais de quem ganha muito. Começou a mudar a lógica de financiamento do Estado. Lutaremos contra o sistema concentrador de renda, até que o Brasil deixe de estar entre as 10 nações mais desiguais do mundo para estar entre as mais iguais.

O PT luta contra um sistema misógino, permissivo à violência contra a mulher e onde mulheres ganham menos que homens. Por isso aprovou a Lei Maria da Penha, o Pacto pelo fim do feminicídio e a Lei da Igualdade Salarial. Mas lutará contra o sistema até que nenhuma mulher seja morta, atacada, menosprezada, desvalorizada por ser mulher.

O PT luta contra um sistema político em que o orçamento é capturado pelo Congresso, em que interesses individuais de mandatos se sobrepõe ao projeto de país, como o orçamento secreto criado pelo Governo Bolsonaro. O PT defende – e sempre defendeu – a Reforma Política e o voto em lista.

Apesar de contra o sistema estrutural no qual estamos inseridos e batalhamos democraticamente para transformá-lo, nunca deixamos de defender as instituições, porque sabemos o trabalho que deu para reconquistas a democracia no Brasil. Ainda que nossa democracia seja frágil, a luta pela democracia plena é parte do DNA do PT. Sabemos quantas vidas foram perdidas, quantos companheiros torturados e desaparecidos entregaram suas vidas para conquistar a democracia que temos hoje. Diferente da família Bolsonaro, que defende a ditadura e os torturadores.

Aliás. Quando o Estadão escreveu que era uma escolha muito difícil entre Haddad e Bolsonaro, já sabia que Bolsonaro tinha defendido o torturador Ustra na votação do golpe de Dilma Rousseff.

Dizer que o PT nunca prezou pelo diálogo é desconhecer – ou ignorar – a prática política do PT e, em especial, do presidente Lula. Que desde líder sindical sabe a importância do diálogo e da negociação para conseguir avançar. O PT disputou todas as eleições desde a redemocratização, e nunca contestou nenhum resultado. O PT sempre soube ouvir os diferentes. Prova é que na última eleição trouxe para vice de Lula, Geraldo Alckmin, que já tinha disputado várias eleições contra o PT. Diálogo não é oposto de ter lado; é oposto de autoritarismo, e quem governou de maneira autoritária este país nunca foi o PT, mas a família Bolsonaro.

Comparar o PT com Bolsonaro e sua família, que não aceitaram o resultado das eleições, tentaram dar um golpe, negaram a ciência custando 700 mil vidas, é mais uma vez, pecar por tentar confundir o eleitor. Ou, como o jornal diz, ofender sua inteligência. Infelizmente, não surpreende.

 

*Ligia Toneto é economista, membra da direção nacional do PT e ex-secretária de juventude do PT de São Paulo

Carregar Comentários
Assine nossa newsletter
Receba nossos informativos diretamente em seu e-mail