Basicamente, me interesso por encontros. O mundo como canjira dos encantados. Bach e Pixinguinha, a semântica do ‘Grande Sertão’ e a semântica das folhas de Ossain, Heráclito e Exu, Ogum e Sigurd, Spinoza e Mestre Pastinha, biblioteca e rua, notebook e bola, tambor e livro, um ijexá para Oxum e um lied de Shubert. Nijinsky e Garrincha, Mayara Lima na Sapucaí e Isadora Duncan na Ópera de Paris. Descartes dançando um mambo com dona Maria Mulambo.
Recorro a Ifá, o conjunto de saberes que ancora o culto aos orixás. Diz um mito que Exu é aquele que fuma o cachimbo e toca a flauta. Ele fuma o cachimbo como signo da absorção das oferendas e toca a flauta como ato de restituição do que foi oferecido como axé, a energia vital.
É por isso que percebo o campo da cultura como exusíaco: o ato cultural vivo é o da disponibilidade para ingerir o que chega como oferenda e devolver a oferta, redimensionada, como força que inaugura a vida.
Ifá diz ainda que certa feita Exu foi desafiado a escolher, entre duas cabaças, qual delas ele levaria em uma viagem ao mercado. Uma continha o bem, a outra continha o mal. Uma era remédio, a outra era veneno. Uma era corpo, a outra era espírito. Uma era a da fé, a outra era a da ciência. Uma cantava, a outra fazia silêncio.
Exu pediu uma terceira cabaça. Abriu as três e misturou o pó das duas primeiras na terceira. Balançou bem. Desde este dia, remédio pode ser veneno e veneno pode curar, o bem pode ser o mal, a alma pode ser o corpo, o visível pode ser o invisível e o que não se vê pode ser presença, o dito pode não dizer e o não-dito pode fazer discursos vigorosos.
Exu, um pensador sofisticado, virou o Igbá Ketá — Senhor da Terceira Cabaça. É com ela que ele caminha pelo mercado, com o passo gingado, o filá, o cachimbo e o flautim. Vez por outra, retira um pouco do pó da cabaça e sopra entre as mulheres e os homens.
A cultura me interessa como lugar de encontros. O território da cultura é a encruzilhada; a terceira cabaça. O que não se define e não encontra porto seguro. Aquilo que me escapa e, por isso, me interessa.
Em resumo: não abro mão de Shakespeare e não abro mão de Zé Limeira como descortinadores das belezas do mundo.