‘Taxa das blusinhas’ provoca perda bilionária e derruba receitas dos Correios

Estatal perdeu até R$ 2,6 bilhões em um ano após mudanças que abriram mercado
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A criação da chamada “taxa das blusinhas” gerou um impacto bilionário nas contas dos Correios. Dados da estatal indicam que a empresa deixou de arrecadar cerca de R$ 2,2 bilhões após a implementação do programa Remessa Conforme, em 2023. O efeito mais expressivo aparece na comparação anual: a receita com encomendas internacionais caiu de R$ 3,9 bilhões em 2024 para R$ 1,3 bilhão em 2025 — uma perda de R$ 2,6 bilhões em apenas um ano.

A participação das receitas com a distribuição de encomendas internacionais no faturamento dos Correios caiu de 22% em 2023 para 7,8% em 2025, segundo demonstrações financeiras publicadas no Diário Oficial da União na última quinta-feira (24).

Os números evidenciam uma retração significativa em um dos segmentos que, até recentemente, sustentava parte relevante da operação da estatal. Em valores absolutos, a receita com encomendas internacionais recuou de R$ 3,9 bilhões em 2024 para R$ 1,3 bilhão em 2025 — uma queda de R$ 2,6 bilhões em apenas um ano.

O movimento já havia começado anteriormente: em 2024, a empresa registrou redução de R$ 530 milhões em relação a 2023.

Remessa Conforme muda o mercado

O programa Remessa Conforme alterou profundamente a dinâmica do setor de entregas ao permitir que empresas privadas realizem o transporte de mercadorias internacionais dentro do Brasil — atividade que, na prática, era concentrada nos Correios.

Além disso, o programa instituiu a cobrança de 20% de imposto de importação sobre compras internacionais de até US$ 50, medida que ficou popularmente conhecida como “taxa das blusinhas”.

Com a abertura do mercado e a mudança tributária, a estatal perdeu exclusividade e passou a enfrentar concorrência direta em um segmento estratégico.

Um estudo interno apontou impacto negativo de R$ 2,2 bilhões na receita da estatal após a adoção do programa.

Colapso no volume de encomendas

A perda de mercado também se reflete no volume de entregas. Dados internos indicam que o número de encomendas internacionais transportadas caiu cerca de 110 milhões de objetos nos nove primeiros meses de 2025, na comparação com o mesmo período de 2024.

Até setembro de 2024, haviam sido transportados 149 milhões de pacotes. No mesmo intervalo de 2025, o total despencou para 41 milhões.

A retração acompanha a mudança no comportamento do consumidor, com a consolidação de marketplaces internacionais e novas opções logísticas. O que já representou quase 25% do faturamento da empresa hoje responde por menos de 9%.

Indicadores mensais reforçam a tendência: em julho de 2024, os Correios movimentaram 21 milhões de pacotes, com receita de R$ 449 milhões. Em setembro de 2025, foram apenas 3 milhões de encomendas e R$ 87 milhões — o pior desempenho em quase dois anos.

Diagnóstico interno aponta falhas estruturais

Documentos da Diretoria Econômico-Financeira (Diefi) indicam que o fim do monopólio apenas evidenciou problemas já existentes.

Segundo a diretora Loiane de Carvalho Bezerra de Macedo, a perda de participação no mercado expôs a ausência de um reposicionamento estratégico diante das transformações no comportamento do consumidor e na dinâmica do setor logístico.

A avaliação interna sugere que a empresa não conseguiu se adaptar com rapidez à nova realidade competitiva, agravando sua vulnerabilidade.

“Ciclo vicioso” de perdas

A queda de receitas desencadeou um efeito em cadeia dentro da estatal. Em documentos oficiais, os Correios reconhecem a formação de um “ciclo vicioso de prejuízos”, marcado pela perda de clientes, redução de caixa e deterioração operacional.

A baixa qualidade dos serviços é apontada como fator central nesse processo, dificultando a retenção de grandes clientes — responsáveis por mais de metade da receita da empresa.

Com negociações mais sensíveis e acordos fragilizados, a estatal enfrenta dificuldades crescentes para recuperar competitividade e estabilizar seus resultados.

O cenário indica que, mais do que o impacto regulatório, a crise atual reflete desafios estruturais que tendem a persistir sem mudanças profundas na estratégia e na operação dos Correios.

Estatal deficitária

Os Correios encerraram 2025 com um prejuízo expressivo de R$ 8,5 bilhões, mais que o triplo do resultado negativo registrado no ano anterior. O desempenho marca o 14º trimestre consecutivo no vermelho e evidencia o agravamento da situação financeira da estatal, que já vinha pressionada nos últimos anos.

Grande parte desse rombo está ligada ao pagamento de precatórios — dívidas judiciais definitivas — que somaram R$ 6,4 bilhões no período. Segundo a empresa, parte desses valores está associada a passivos herdados de gestões anteriores, além de provisões para ações trabalhistas.

Além do aumento das despesas, os Correios também enfrentaram uma retração relevante nas receitas. O faturamento bruto caiu para R$ 17,3 bilhões, impactado principalmente pela forte redução nas encomendas internacionais.

Diante do cenário adverso, a estatal colocou em prática um plano de reestruturação baseado em três pilares: recuperação financeira, reorganização do modelo de negócios e busca por crescimento estratégico.

Entre as principais medidas adotadas estão programas de demissão voluntária (PDV) para reduzir custos com pessoal, fechamento de unidades deficitárias, com previsão de até mil encerramentos, venda de imóveis, monetização de ativos, além de um empréstimo de R$ 12 bilhões junto a um consórcio de bancos, com garantia da União. Mas, até o momento, as medidas têm se mostrado ineficientes.

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