O preconceito, a discriminação e a intolerância religiosa sempre foram, e continuam sendo, fatores recorrentes na história das religiões na sociedade brasileira desde o período colonial, quando aqui aportaram os primeiros negros escravizados na África, com suas culturas e religiosidades.
A possibilidade dos africanos e seus descendentes exercerem suas religiosidades e práticas culturais durante boa parte da história do Brasil foi por meio das práticas sincréticas, uma ação velada que tinha, por fim, ocultar a exaltação de seus pertencimentos ancestrais religiosos, que suas tradições, culturas e religiosidades sobreviveram.
Podemos entender a ação dos movimentos religiosos de matrizes africanas, submersos no sincretismo religioso brasileiro, e suas ações contra a intolerância religiosa (durante um grande período histórico) até o momento de ebulição e manifestação nas primeiras décadas do século 21.
Este processo, de longa duração, tornou-se uma possibilidade de sair da linha da marginalização social,
com o claro propósito de reescrever suas histórias.
Trata‑se de um procedimento de pirâmide invertida, em que os grupos situados na sua base, logo os de baixo, deixam ecoar o som de suas vozes em busca de justiça e de reconhecimento religioso, político e social.
Cabe, então, compreender a história e as lutas de grupos religiosos de matrizes africanas contra a intolerância religiosa no Brasil, o que se torna extremamente relevante para a construção de um movimento contra a história tradicional dominante.
História esta que colocava como marginais todas as ações desses grupos que, de certa forma, não fizeram parte, diretamente, das principais decisões e acontecimentos políticos do país, e em especial os afrodescendentes.
Portanto, ao debruçarmos nosso olhos sobre as evidências das lutas e das ações desses grupos, em prol da liberdade religiosa e da tolerância, abriremos para reflexões a partir das suas experiências históricas sobre os fatos vividos, ou seja, as histórias dos negros, de suas culturas e representações religiosas, a partir de uma abordagem voltada para seus conhecimentos de gente comum.
Narrativas que buscam construir outro (novo) olhar sobre a história amplamente disseminada, que coloca na marginalidade política e social as religiosas e os religiosos de matrizes africanas (gente comum).
Pontuamos aqui tal, essa abordagem histórica, voltada para a análise da gente comum, não era focada pela disciplina história, e muito menos fazia parte de uma historiografia tradicional brasileira.
Estudos e revisões históricas vêm sendo intensificados, possibilitando a formação de uma nova abordagem política e social, a fim de proporcionar novas leituras que possam dar visibilidade aos destituídos da história.
Assim, ao rememorarmos as histórias dos grupos religiosos de matrizes africanas, gente comum, não estamos simplesmente tentando conferir‑lhes um significado político retrospectivo que outrora não tiveram; estamos buscando explorar uma dimensão desconhecida do passado.