Endividamento avança com compras por impulso e crédito facilitado em plataformas digitais

Avanço do comércio eletrônico, bets, crédito facilitado e juros altos ajudam a explicar cenário
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O avanço do comércio eletrônico e a facilidade de acesso ao crédito têm ampliado a preocupação com o crescimento do endividamento no Brasil. Em um cenário marcado por promoções constantes, parcelamentos longos, estímulos ao consumo em redes sociais e juros altos, especialistas apontam que as compras por impulso ganharam força, especialmente nos ambientes digitais. Há também outro componente agravante nesse cenário: as apostas esportivas online, as chamadas bets.

A principal porta de entrada para esse processo continua sendo o cartão de crédito, hoje a principal fonte de dívidas das famílias brasileiras. Segundo dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), 80,2% das famílias estavam endividadas em fevereiro. Cartões de crédito, crediários do varejo e empréstimos pessoais lideram a lista de débitos.

Ao mesmo tempo, o uso do crédito rotativo — considerado uma das modalidades mais caras do mercado financeiro — segue em alta. Apenas no primeiro trimestre deste ano, o volume movimentado ultrapassou R$ 109 bilhões, enquanto os juros da modalidade chegaram a mais de 428% ao ano.

Especialistas em educação financeira afirmam que o parcelamento contribui para reduzir a percepção do custo real das compras. Ao focar no valor mensal das parcelas, muitos consumidores deixam de avaliar o impacto total da dívida ao longo do tempo, especialmente em operações com juros embutidos.

Consumo impulsivo cresce no ambiente digital

O ambiente online é apontado como um dos principais fatores para o aumento das compras impulsivas. Atualmente, cerca de 80% das compras virtuais no Brasil são realizadas pelo celular, em um mercado que movimenta mais de R$ 250 bilhões por ano.

Além da praticidade, aplicativos de compras utilizam mecanismos considerados altamente estimulantes para o consumo: notificações frequentes, promoções-relâmpago, descontos limitados e campanhas contínuas com datas promocionais ao longo do ano.

Segundo especialistas, essas estratégias criam um senso de urgência que reduz o tempo de reflexão antes da compra. Em vez de consumir por necessidade, muitos consumidores passam a agir motivados pelo receio de perder ofertas.

Outro elemento apontado como decisivo é o papel dos influenciadores digitais. Em plataformas de vídeos curtos, publicidade e entretenimento aparecem de forma integrada, tornando o estímulo ao consumo mais constante e menos perceptível. Programas de afiliados também aproximam marcas e criadores de conteúdo, incentivando a divulgação contínua de produtos.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a compulsão por compras atinja cerca de 8% dos consumidores em todo o mundo. O transtorno, conhecido como oniomania, tem levado mais pessoas a buscar atendimento psicológico e psiquiátrico nos últimos anos.

Crédito dentro dos aplicativos

Especialistas avaliam que a expansão dos serviços financeiros dentro das próprias plataformas de varejo pode intensificar o problema. Empresas do setor já operam sistemas próprios de pagamento e crédito, permitindo que o consumidor realize empréstimos, parcelamentos e financiamentos sem sair do aplicativo.

A avaliação é de que esse modelo elimina etapas de reflexão entre o desejo e a compra. Com poucos cliques, o consumidor visualiza o produto, recebe ofertas de crédito instantâneo e conclui a aquisição rapidamente.

Além disso, analistas alertam que a integração entre consumo e crédito dificulta que o usuário tenha uma visão clara do próprio nível de endividamento. O pagamento das parcelas ocorre dentro do mesmo ambiente em que novas ofertas são exibidas, reforçando o ciclo de consumo.

Busca por ajuda ainda enfrenta barreiras

Profissionais da área de saúde mental afirmam que a procura por tratamento para compulsão por compras aumentou significativamente nos últimos anos. Apesar disso, o tema ainda é menos discutido do que outras formas de dependência, como álcool, drogas ou apostas, o que dificulta o reconhecimento do problema e a busca por ajuda.

Além do acompanhamento clínico, grupos de apoio voltados para pessoas endividadas também vêm ganhando espaço no país, seguindo modelos semelhantes aos utilizados em programas de recuperação de outras compulsões.

Para especialistas, o crescimento do consumo impulsivo e do crédito digital exige maior educação financeira, além de debates sobre os limites das estratégias de estímulo ao consumo utilizadas pelas plataformas online.

Vício em apostas

As apostas online também tem contribuído para o aumento do endividamento. Durante participação no ICL Notícias 1ª edição na sexta-feira (8), o secretário de Reformas Econômicas do Ministério da Fazenda, Régis Dudena, esclareceu dúvidas da audiência sobre o Novo Desenrola Brasil.

De olho no problema das bets, ele explicou que, em determinadas situações, a renegociação de dívidas no âmbito do Desenrola pode ser associada a uma medida de proteção adicional: a suspensão temporária do acesso a plataformas de apostas esportivas.

Segundo ele, a ideia é evitar que o consumidor, já em situação de endividamento, agrave ainda mais o seu quadro financeiro durante o processo de reorganização das dívidas. A medida funcionaria como uma espécie de condição vinculada ao acordo de renegociação.

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