O documentário “A Colisão dos Destinos”, que retrata a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), estreou nos cinemas nesta quinta-feira (14) com sessões de baixa ocupação e uma narrativa centrada na exaltação de sua figura política e pessoal.
Dirigido por Doriel Francisco e produzido com participação do ex-secretário especial da Cultura Mario Frias, o filme aposta em depoimentos de familiares e aliados próximos, mas deixa de fora episódios marcantes como a derrota eleitoral de 2022 e as investigações relacionadas à tentativa de golpe de Estado.
Com 70 minutos de duração, o longa é apresentado pelos realizadores como uma “versão humanizada” e uma “história não contada” do ex-presidente. O roteiro é assinado por Doriel Francisco e William Alves, enquanto os créditos apontam Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e Mario Frias como responsáveis pelo argumento.
A estreia nacional ocorreu em salas do Distrito Federal e de estados de todas as regiões do país. Apesar da ampla distribuição, o início da exibição foi marcado por um público minúsculo. Em Embu das Artes, na Grande São Paulo, uma sessão reuniu apenas sete espectadores. Em outras cidades, os cinemas registraram, em média, cinco e seis ingressos por sessão até uma hora antes das exibições, de acordo com o site do Grupo Cine.
O filme reconstrói a trajetória de Bolsonaro desde a infância, passando pela carreira militar, a entrada na política e a Presidência da República. A narrativa é sustentada quase integralmente por falas do próprio ex-presidente, de filhos, irmãos e aliados políticos, entre eles os deputados Nikolas Ferreira (PL-MG), Hélio Lopes (PL-RJ) e o ex-secretário Mario Frias.
Michelle Bolsonaro, ex-primeira-dama e uma das principais figuras do bolsonarismo nos últimos anos, não participa do documentário e tampouco é entrevistada.
Ao abordar o período no Palácio do Planalto, o longa evita referências ao noticiário da época ou a dados sobre os principais acontecimentos do governo. Durante o trecho dedicado à pandemia de Covid-19, aliados de Bolsonaro aparecem defendendo sua atuação. Em um dos depoimentos, Hélio Lopes afirma que o ex-presidente “não errou uma” durante a crise sanitária.
O documentário, no entanto, não menciona que a CPI da Covid recomendou o indiciamento de Bolsonaro em 2021, atribuindo a ele suspeitas relacionadas à condução da pandemia. Também não há espaço para críticas, controvérsias ou episódios que marcaram os quatro anos de governo.
Depois de retratar a Presidência, o filme retorna ao atentado a faca sofrido por Bolsonaro durante a campanha eleitoral de 2018, em Juiz de Fora (MG). O episódio é apresentado como um ponto de transformação na trajetória do ex-presidente, reforçado por depoimentos familiares que associam sua sobrevivência a uma missão religiosa.
“Falo com tranquilidade: ele é um escolhido de Deus”, diz o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em uma das cenas.
A produção se encerra com imagens de apoiadores ovacionando Bolsonaro em eventos públicos e discursos em palanques, reforçando uma narrativa de herói. Não há menção à derrota para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições de 2022, nem aos processos judiciais posteriores, incluindo a condenação de Bolsonaro em 2025 e o julgamento relacionado à tentativa de golpe.
A estreia do filme acontece em meio à repercussão de reportagem do Intercept Brasil, que revelou conversas entre Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro. Nos diálogos, o senador cobra dinheiro de Vorcaro para outro projeto cinematográfico, o chamado Dark Horse — um filme de ficção sobre a vida e trajetória política do ex-presidente estrelado por Jim Caviezel — sem relação direta com “A Colisão dos Destinos”.
Flávio confirmou o contato com o empresário, preso preventivamente sob acusação de comandar um esquema bilionário de fraudes financeiras investigado pela Polícia Federal.