Por Cleber Lourenço
A Prefeitura de São Paulo financiou por ao menos três anos consecutivos o RIEFA (Rumos da Inovação na Educação do Futuro Agora), congresso organizado pelo Instituto Conhecer Brasil (ICB), entidade presidida por Karina Ferreira da Gama, ligada à produção do filme “Dark Horse”, inspirado em Jair Bolsonaro.
Documentos obtidos pela reportagem mostram que, entre 2023 e 2025, a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT) firmou sucessivos contratos e parcerias com o instituto para a realização do evento. Somados, os valores identificados chegam a pelo menos R$ 2,05 milhões.
A revelação ocorre após a Polícia Civil de São Paulo deflagrar operação que investiga contratos firmados entre o Instituto Conhecer Brasil e a Prefeitura de São Paulo. A apuração mira outro acordo ligado ao projeto Steam Maker.
O RIEFA era apresentado como um congresso de inovação educacional voltado a debates sobre inteligência artificial, inclusão digital, realidade virtual, tecnologias imersivas, metaverso, big data, IoT, e empreendedorismo.
Os materiais institucionais do evento também mencionavam integração entre universidades, startups, empresas e setor público.
O primeiro contrato localizado pela reportagem é o Termo de Fomento nº 03/SMIT/2023, firmado em outubro de 2023.
O documento previa repasse de R$ 500 mil ao Instituto Conhecer Brasil para realização do RIEFA.
As planilhas de execução orçamentária obtidas pela reportagem mostram que os recursos foram destinados por meio de emenda parlamentar do vereador Isac Félix, do PL — partido do senador Flávio Bolsonaro, que pediu apoio financeiro ao banqueiro Daniel Vorcaro para a produção do filme “Dark Horse”.
Naquele momento, o projeto foi formalizado por meio de um termo de fomento, modalidade usada quando a iniciativa parte da própria organização da sociedade civil.
O contrato previa vigência até janeiro de 2024.
A ampliação do projeto em 2024
Em 2024, a Prefeitura voltou a financiar o RIEFA.
O novo acordo, chamado de Termo de Colaboração nº 02/SMIT/2024, previa inicialmente mais R$ 500 mil para o evento.
As planilhas orçamentárias analisadas pela reportagem mostram que o valor foi destinado por emenda parlamentar do vereador André Santos, do Republicanos — mesmo partido do governador Tarcísio de Freitas.
Poucos meses depois, em agosto de 2024, a parceria recebeu um aditivo de R$ 300 mil, elevando o valor total do contrato para R$ 800 mil.
Os documentos mostram também uma mudança importante na relação entre o projeto e a administração municipal.
Diferentemente do termo de fomento utilizado em 2023, o modelo adotado em 2024 foi um termo de colaboração — instrumento normalmente utilizado quando o poder público considera a iniciativa alinhada ao interesse institucional do órgão responsável.
O plano de trabalho do evento previa:
- palestras magnas;
- workshops;
- plataforma EAD;
- produção de conteúdo digital;
- debates sobre inteligência artificial;
- ações ligadas ao chamado “metaverso”;
- e atividades sobre tecnologias imersivas.
Entre as despesas previstas no documento estavam:
- R$ 113 mil para locação de equipamentos;
- R$ 85,5 mil para “conteúdo metaverso”;
- R$ 48 mil para criação de vídeos;
- e R$ 44 mil para redes sociais.
O evento de 2024 aconteceu no Teatro Rosário Net, em São Paulo.
Pedido direto de verba à Prefeitura
Os documentos obtidos pela reportagem mostram ainda que a ampliação da parceria ocorreu após solicitação formal feita diretamente pelo Instituto Conhecer Brasil à Prefeitura.
Em um ofício enviado à Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia, Karina Ferreira da Gama pediu aporte financeiro de R$ 750 mil para a realização do “RIEFA 2025”.
O documento, encaminhado em outubro de 2025, solicita parceria financeira da Prefeitura para viabilizar o evento.
Posteriormente, a reportagem localizou um novo Termo de Fomento nº 03/SMIT/2025 prevendo exatamente o mesmo valor: R$ 750 mil.
As planilhas de execução orçamentária apontam que os recursos previstos para a edição de 2025 também estavam vinculados a emenda parlamentar.
O documento cita novamente Karina Ferreira da Gama como representante legal do Instituto Conhecer Brasil.
Em 2025, o RIEFA voltou a acontecer, desta vez na Universidade Presbiteriana Mackenzie, novamente com parceria institucional da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia.
A reportagem verificou ainda que as transmissões disponibilizadas publicamente no YouTube mostram um evento esvaziado no último dia de programação, com baixa presença de público em diversos painéis e palestras.
Mesmo assim, o processo administrativo relacionado ao evento permaneceu ativo dentro da Prefeitura até fevereiro de 2026, incluindo movimentações internas para designação de fiscais e gestores responsáveis pelo acompanhamento da parceria.
A reportagem procurou a Prefeitura de São Paulo e a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia questionando os critérios técnicos utilizados para os repasses; a fiscalização da execução dos projetos; as prestações de contas; os fornecedores contratados pelo Instituto Conhecer Brasil; os critérios para liberação das emendas parlamentares; e se a operação policial desta semana motivará alguma auditoria ou revisão administrativa sobre os contratos.
Também foi questionado se há previsão de realização de uma nova edição do RIEFA em 2026 e se existem novos processos administrativos ou repasses públicos em andamento relacionados ao evento.
A Prefeitura enviou a seguinte nota:
“A Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT) informa que o Termo de Colaboração para os eventos mencionados foram celebrados para a execução de emendas parlamentares e são sujeitos à prestação de contas nos termos da legislação vigente. A indicação de emendas é de livre escolha dos vereadores e sua tramitação no Executivo segue critérios técnicos e orçamentários. A definição dos valores cabe ao parlamentar. Foram destinados por meio das emendas R$ 500 mil para a edição do RIEFA 2023; R$ 800 mil para o de 2024; e R$ 750 mil para o de 2025. Não há emendas para 2026. Quanto à prestação de contas, a SMIT analisará a documentação dentro do prazo estipulado por lei. As empresas contratadas pelo ICB para os eventos constam das prestações de contas, que são abertas ao público”.