O economista e fundador do Instituto Conhecimento Liberta (ICL), Eduardo Moreira, fez um alerta sobre um tema que, segundo ele, permanece fora do debate público sobre as apostas esportivas: o volume de recursos mantidos nas contas das plataformas de bets.
Durante participação no programa ICL Notícias, nesta segunda-feira (8), Moreira afirmou que o mercado de apostas movimenta valores muito superiores aos normalmente divulgados e questionou a falta de transparência sobre o montante de dinheiro que permanece depositado nas plataformas.
Segundo o economista, as casas de apostas obtêm cerca de R$ 40 bilhões por ano com as perdas dos apostadores. No entanto, o volume total apostado seria muito maior. Em sua avaliação, as apostas realizadas em 2025 podem ter superado R$ 600 bilhões, acima das estimativas frequentemente divulgadas pelo setor.
O dinheiro que ninguém contabiliza
Para Moreira, existe uma questão pouco discutida: o chamado “float”, termo utilizado no mercado financeiro para designar os recursos que permanecem depositados em uma instituição antes de serem sacados pelos clientes.
Ele argumenta que parte significativa do dinheiro dos apostadores fica retida nas plataformas durante semanas ou até meses, gerando rendimentos financeiros para as empresas responsáveis pelas bets.
“O número mais importante que ninguém nunca tocou é quanto dinheiro das pessoas fica parado dentro das bets“, afirmou.
Na avaliação do economista, se o volume desses depósitos estiver na faixa de R$ 20 bilhões a R$ 40 bilhões, as empresas estariam obtendo ganhos financeiros expressivos apenas com a remuneração desses recursos em um cenário de juros elevados no Brasil.
Impacto além das perdas dos apostadores
Moreira também chamou atenção para um efeito econômico que, segundo ele, costuma ser ignorado nas análises sobre o setor.
O economista argumenta que o impacto das apostas não se limita ao valor efetivamente perdido pelos usuários. Para ele, quando um apostador mantém recursos depositados em uma plataforma por um longo período, esse dinheiro deixa de circular na economia real.
Como exemplo, ele citou um apostador que deposita R$ 50 mil, realiza diversas apostas ao longo de meses e, ao final, retira R$ 45 mil. Embora a perda direta tenha sido de R$ 5 mil, Moreira sustenta que os R$ 50 mil permaneceram fora da atividade econômica durante todo esse período.
“Você não perdeu apenas R$ 5 mil. A economia ficou sem R$ 50 mil circulando durante meses”, argumentou.
Propostas para aumentar a regulação
Diante desse cenário, Moreira defendeu uma regulamentação mais rígida para os recursos mantidos pelas plataformas de apostas.
Entre as alternativas citadas estão a criação de regras semelhantes às aplicadas ao sistema bancário, como a exigência de depósitos compulsórios junto ao Banco Central, ou mecanismos que garantam alguma remuneração aos usuários sobre os valores mantidos nas contas das bets.
Segundo ele, a ausência de transparência sobre esses recursos dificulta a avaliação dos impactos econômicos reais do setor e favorece um modelo que concentra ganhos nas empresas de apostas.
Assista ao comentário de Eduardo Moreira: