O cinismo do alerta ‘Jogue com responsabilidade’

Depois de promover o vício e a doença da jogatina, os narradores e comentaristas da Copa soltam a perversa e fria advertência
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Só uma coisa irrita mais do que um entusiasmado anúncio de Bet feito pelos narradores da Copa do Mundo: aquela cínica e sonsa advertência “jogue com responsabilidade” feita ao final do massacre publicitário.

É quase como se culpassem o viciado na jogatina por ter adquirido a doença. Ah, seus fracos, seus irresponsáveis, não me venham dizer agora que estão dependentes da roleta e do caça-níquel do tigrinho.

Só porque entreguei um cassino na palma da mão, combinado com overdoses de dopamina e apelo 24 horas por dia, seus vulneráveis de uma figa.

Fracotes!

Jogue com responsabilidade, mesmo você sabendo que será depenado ao final do expediente. E assim lá se foi o salário, o consignado, um novo empréstimo, a grana com o agiota do bairro, o orçamento da família.

Jogue com responsabilidade. Corta para o vídeo da auditora Juliana Prates, do TCE da Bahia, contando como perdeu o irmão por causa do vício das Bets. Você já viu?

“Só descobri que meu irmão estava viciado em apostas quando ele morreu”, declara, ainda sob o pânico da tragédia.

É um pesadelo que faz da advertência do influenciador um detalhe macabro.

Jogue com responsabilidade. No que entra em cena o jovem russo Aleksei Ivánovitch, 25, para rir da nossa cara. Ele é o cara de “O Jogador”, romance de Fiódor Dostoiévski escrito em 1866.

E olhe que Ivánovitch enfrentava apenas a antiga roleta. Imagina a mesma pessoa propensa ao vício com a invasão de estímulos eletrônicos de hoje.

“Pode ser que, ao atravessar tantas sensações, a alma, em vez de saciar-se com elas, apenas se irrite e acabe por exigir ainda mais sensações, cada vez mais fortes, até o esgotamento definitivo”, dizia o personagem, na tradução de Rubens Figueiredo para a Companhia das Letras.

Imagina no cassino ao alcance dos celulares e da barra de rolagem movida a dopamina.

Jogue com responsabilidade, seu picareta?

Isso é pior que propaganda de cigarro — felizmente proibida.

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