O genocídio em Gaza continua. Essa é a constatação da Comissão Internacional Independente de Inquérito das Nações Unidas.
De acordo com o informe da equipe internacional, publicado nesta terça-feira em Genebra, a decisão de Israel de atacar deliberadamente crianças palestinas, mesmo depois da conclusão de um suposto cessar-fogo em Gaza, também revela um padrão de crimes contra a humanidade e crimes de guerra na Faixa de Gaza e crimes de guerra na Cisjordânia,
A Comissão constatou que a intensidade e a natureza sistemática das operações militares israelenses continuaram mesmo depois de o governo de Donald Trump celebrar um acordo, resultando em mortes, ferimentos e traumas sem precedentes em crianças palestinas.
Para a equipe, o direcionamento deliberado dos ataques contra crianças é um dos principais elementos que estabelecem a intenção genocida das autoridades e forças de segurança israelenses de destruir o grupo palestino, total ou parcialmente, em Gaza.
“As evidências mostram que crianças palestinas foram alvos deliberados e mortas pelas forças de segurança israelenses”, disse Srinivasan Muralidhar, presidente da Comissão. “Mesmo após o cessar-fogo de outubro de 2025, crianças continuam sendo mortas e gravemente feridas, com o contínuo desrespeito de Israel ao cessar-fogo e à proteção devida às crianças palestinas pelo direito internacional.”
Segundo o documento obtido pelo ICL Notícias, lesões físicas e mentais graves, traumas coletivos, separação, deficiência, deslocamentos repetidos, fome e o colapso da educação e da saúde “apagaram a infância” e continuarão a afetar as crianças em Gaza ao longo de suas vidas.
A Comissão concluiu que crianças palestinas foram presas e submetidas a tortura e outras formas graves de maus-tratos em prisões e centros de detenção israelenses, sem nenhuma informação sobre seu paradeiro.
O documento revela que as forças de segurança israelenses também usaram violência sexual contra crianças como parte da humilhação e opressão coletivas, enraizadas em um padrão prolongado, étnico, de gênero e intergeracional de ocupação e hostilidades israelenses.
A morte de recém-nascidos
O elemento de destruição de um povo ainda pode ser identificado com a decisão de Israel de atacar centros de cuidados neonatais e maternos em Gaza, que prejudicaram diretamente a sobrevivência de recém-nascidos e o futuro reprodutivo dos palestinos, incluindo o aumento de abortos espontâneos, defeitos congênitos e vulnerabilidades duradouras entre os recém-nascidos.
Para a Comissão da ONU, isso resultou na “destruição da vida de recém-nascidos palestinos e da continuidade da população”.
Outra arma tem sido o que o grupo de investigadores classificou como a “fome imposta por Israel” por meio do bloqueio e do cerco. Isso causou ainda mais a morte de crianças palestinas e impactou gravemente a saúde de muitas outras, privando-as de nutrição essencial e aumentando os riscos de doenças em meio à redução da imunização, insegurança alimentar e serviços de saúde destruídos.
Órfãos sem orfanatos
A sofisticação do plano é de tal ordem que, segundo a Comissão da ONU, houve um desmantelamento e a destruição de orfanatos e instalações educacionais em Gaza e na Cisjordânia. Isso criou um obstáculo ao cuidado e ao desenvolvimento cognitivo, social e emocional das crianças e “interromperam os alicerces da sociedade palestina”.
“Mesmo que as bombas e as armas cessem em Gaza e na Cisjordânia, as crianças palestinas não se recuperarão simplesmente da noite para o dia”, disse Muralidhar. “A destruição de sua saúde, educação e desenvolvimento é irreversível.”
Para a ONU, as crianças palestinas sofreram imensos danos psicológicos, tendo sido privadas de qualquer senso de segurança e de futuro. O dano mental minou sua “liberdade de brincar, imaginar, ter esperança e desenvolver uma identidade”.
A conclusão da Comissão é explícita:
Ao visar crianças, Israel está corroendo a estrutura fundamental da sociedade palestina, enfraquecendo a vitalidade demográfica e a capacidade geral do povo palestino de sustentar e exercer seu direito de determinar seu futuro como povo.
Para a presidência dos investigadores, “a proteção, o cuidado e a sobrevivência das crianças palestinas são inseparáveis do direito do povo palestino à autodeterminação”. “Ao visar crianças, Israel está atacando a própria capacidade do povo palestino de existir e de determinar seu futuro”, constatou.
Em seu informe, que será apresentado aos governos de todo o mundo, a Comissão pede que Israel cesse a prática de violações e crimes contra crianças palestinas. A Comissão pede ainda o fim da presença contínua de Israel na Cisjordânia ocupada, incluindo Jerusalém Oriental, em conformidade com o parecer consultivo da Corte Internacional de Justiça.
A Comissão ainda identificou unidades militares dentro das forças de segurança israelenses responsáveis por matar e ferir crianças palestinas e fez recomendações a Israel e a todos os governos para garantir a responsabilização por tais crimes.
Israel precisa, segundo a ONU, colocar fim à sua ocupação e garantir acesso à justiça para as vítimas.