Pensamento religioso do dia: “Do suor dos homens e do amor de Deus, que a cerveja veio ao mundo.” (Santo Arnulfo de Metz, padroeiro dos cervejeiros).
“Cerveja com Doutor Sócrates”. Sim, aqui está o começo de um livro, na mesma linha devocional do best-seller “Café com Deus Pai”.
Comecei a escrever algo assim com o próprio Doutor. São anotações sóbrias (até o oitavo chope) e garranchos bêbados em guardanapos da noite e da madruga, amém. O amigo santista Vladir Lemos, o cara que teve a coragem de nos contratar para o “Cartão Verde” (tv Cultura), é o fiel depositário destes escritos avulsos.
Sócrates gostava de falar mais do espetáculo da vida — a fauna & flora de um bar, por exemplo — do que de futebol. Não deixaria barato, porém, a decadência que a seleção Brasileira expôs nesta Copa do Mundo.
“Jogar sem a bola”, essa obsessão do técnico Carlo Ancelotti e dos pranchetinhas das mesas redondas das Bets, renderia bíblicas reflexões do Doutor nessa ressaca copeira.
“De tanto obedecer ao pedido de jogar sem a bola, nossos jovens atletas não sabem mais o que fazer com a redonda, só pensam em se livrar dela”, dizia, em 2010, antecipando situações como vimos no desastre do Brasil contra a Noruega.
O líder da Democracia Corinthiana sabia da importância de cercar ou marcar (o tal jogar sem a bola), jamais, porém, entenderia como uma seleção brasileira teve apenas 30% de posse em um jogo de Copa, resultado da estratégia “faroeste spaghetti” de Ancelotti.
“O jovem atleta precisa voltar a ser reapresentado à bola; dizer muito prazer, tratar com apego, se possível dormir com ela, para não desconhecê-la em momentos que exigem alguma intimidade”, aconselhava o Doutor.
Mora na filosofia. Não pode haver ideia de futebol brasileiro, como Sócrates jogava e concebia, dando a bola de presente para o adversário brincar sozinho. É melhor pecar por ser fominha.
É urgente, dizia o Doutor há cinco Copas, formar meio-campistas, gente que pense o jogo.
“Nossa crise está toda nisso, falta meia, tem que virar uma obsessão nacional, uma questão que envolva escola, MEC, várzea, igreja, terreiro, sindicato, centro comunitário, Rotary Club, escola de samba, ministérios, Palácio do Planalto”, palestrava. “Se passa por aí nossa identidade, vale até financiar publicamente as famílias dos futuros craques, o bolsa-camisa-10”.
O manifesto socrático não era uma coisa voltada à obrigatoriedade de ganhar a próxima Copa. Nada para agradar aos imediatistas ou idiotas da objetividade, digamos assim.
O Doutor pensava no Brasil vistoso, o futebol como “soft power” ou persuasão cultural para todo o mundo.
O estrago de perder com 30% de posse de bola, como uma atuação mal-assombrada de tão feia, deixa um prejuízo estético equivalente a jogar fora o PIB de uma década.
“Dá vontade de vomitar vendo esse Brasil”, disse o meio-campista Youri Djorkaeff, campeão com a França safra 1998. Djorkaeff é fã declarado do estilo brasileiro. Daí o seu mal-estar depois da partida com a Noruega.
Prometo entregar em breve essa religiosa edição do “Cerveja com Doutor Sócrates”, afinal de contas a preciosa bebida sempre teve as suas melhores produções ligadas às abadias e aos mosteiros de antigamente. Santo Arnulfo de Metz que nos proteja, amém.