Por Cleber Lourenço
O Governo de São Paulo suspendeu cautelarmente as novas operações de crédito consignado do Banco Digimais para servidores estaduais. A decisão, publicada no Diário Oficial do Estado, impede que a instituição celebre novos contratos por meio do código de desconto em folha utilizado no funcionalismo paulista e representa mais um revés para o banco, que nos últimos meses passou a enfrentar investigações da Polícia Federal e restrições impostas pelo Banco Central.
O ato foi assinado pelo secretário de Gestão e Governo Digital, Caio Mario Paes de Andrade, no âmbito do Processo SEI nº 018.00007238/2026-51. Segundo a publicação, a medida foi tomada após análise da Diretoria Geral de Pagamento de Pessoal, parecer da Consultoria Jurídica da secretaria e manifestação da Subsecretaria de Gestão de Pessoas.
A decisão determina a “SUSPENSÃO CAUTELAR do código de desconto em folha de pagamento 097360-5, utilizado pelo Banco Digimais S/A, para novas consignações”, com fundamento no artigo 62 da Lei Estadual nº 10.177/1998. O Diário Oficial, entretanto, não detalha os fatos que motivaram a adoção da cautelar nem estabelece prazo para sua duração.
Na prática, o banco fica impedido de firmar novos contratos de crédito consignado com servidores estaduais por meio desse convênio. A publicação não faz referência aos contratos já existentes.
A decisão tem peso relevante porque São Paulo era considerado um dos principais mercados do Digimais no segmento de crédito consignado. Documentos analisados pelo ICL Notícias mostravam que grande parte da carteira de consignados da instituição estava concentrada em convênios com órgãos públicos paulistas, fazendo do funcionalismo estadual uma das principais fontes de negócios do banco.
Operação da PF colocou Digimais no centro das investigações
A suspensão ocorre poucas semanas depois de o Digimais aparecer no centro de uma investigação conduzida pela Polícia Federal no âmbito do chamado Caso Master.
Em documentos encaminhados ao Supremo Tribunal Federal, a PF descreve indícios de irregularidades envolvendo operações realizadas pelo banco e sustenta que a instituição teria reproduzido um modelo de negócios semelhante ao atribuído ao Banco Master. Entre os pontos sob investigação estão operações de cessão de carteiras de crédito, movimentações financeiras consideradas atípicas e suspeitas relacionadas ao lastro de contratos utilizados nessas operações.
A investigação também menciona a cessão de aproximadamente R$ 660 milhões em carteiras de crédito ao FIDC EXP 1. Segundo a representação policial, auditorias apontaram indícios de inconsistências em milhares de contratos utilizados nessas operações, levantando dúvidas sobre a efetiva existência de parte dos créditos negociados.
Embora o Digimais negue irregularidades e tenha contestado publicamente as acusações, os documentos da investigação passaram a integrar um conjunto de medidas que ampliaram o escrutínio sobre a instituição.
Banco Central também impôs restrições
Paralelamente às investigações da Polícia Federal, o Banco Central também adotou medidas que afetaram o banco.
Neste ano, a autoridade monetária vetou a transferência do controle acionário do Digimais para o empresário Maurício Quadrado. Na decisão, o BC apontou a deterioração da situação da instituição e concluiu que a operação não atendia aos requisitos regulatórios exigidos para a mudança de controle.
A negativa representou outro duro golpe para o banco em meio ao avanço das investigações e às incertezas sobre sua situação financeira.
Novo capítulo
Embora o Governo de São Paulo não relacione expressamente a suspensão das novas consignações às investigações em curso, a medida representa mais um obstáculo para o Digimais justamente em uma de suas principais áreas de atuação.
Ao impedir a contratação de novos empréstimos consignados por servidores estaduais, a decisão reduz a capacidade de expansão da carteira de crédito da instituição enquanto permanecer em vigor e se soma à sequência de medidas regulatórias e investigações que vêm cercando o banco nos últimos meses.
