Por Cleber Lourenço
“Lula podia tudo na prisão.”
Foi assim que Flávio Bolsonaro reagiu à decisão do ministro Alexandre de Moraes de proibi-lo de visitar o pai por 90 dias, após a divulgação da carta escrita por Jair Bolsonaro e lida pelo senador nas redes sociais.
A frase é boa para um vídeo de poucos minutos. Mas desmorona quando confrontada com os fatos.
Não, Flávio.
É Bolsonaro quem passou os últimos anos demonstrando que, no Brasil, poucos investigados receberam tantas oportunidades quanto ele.
Comecemos pela comparação que o próprio senador propõe.
Lula cumpria pena em uma cela da Polícia Federal em Curitiba. Estava submetido à Lei de Execução Penal, ao controle da Justiça Federal e às decisões da juíza responsável pela execução da pena. Houve uma longa batalha judicial sobre entrevistas, visitas e comunicações. O ex-presidente escreveu cartas que foram divulgadas por aliados, é verdade. Mas nunca existiu uma decisão judicial proibindo expressamente que terceiros levassem suas mensagens às redes sociais.
Mais do que isso: Lula enfrentou restrições duríssimas. Não conseguiu comparecer ao velório do irmão porque a autorização judicial chegou tarde demais para produzir qualquer efeito prático. Sua rotina era rigidamente controlada, e cada pedido era objeto de disputa judicial.
Bolsonaro vive uma realidade completamente diferente.
Ele não cumpre pena. Está submetido a medidas cautelares determinadas pelo Supremo Tribunal Federal enquanto responde a investigações. Entre essas medidas está uma proibição específica: utilizar redes sociais, direta ou indiretamente, inclusive por intermédio de terceiros.
É justamente esse ponto que Alexandre de Moraes analisa ao investigar a divulgação da carta lida por Flávio. Não se discute o direito de escrever uma carta. Discute-se se ela foi utilizada como instrumento para contornar uma ordem judicial.
Pode-se discordar da decisão. Pode-se considerá-la excessiva. O que não se pode fazer é fingir que ela não existe.
Mas há uma ironia maior nessa história.
Quem fala em perseguição é o mesmo grupo político cujo líder foi tratado, durante anos, com uma tolerância raramente vista em investigações dessa dimensão.
Bolsonaro convocou atos contra instituições, atacou ministros do Supremo, disseminou desinformação sobre o sistema eleitoral, participou de eventos de caráter golpista, desrespeitou reiteradamente recomendações judiciais e, ainda assim, permaneceu em liberdade durante todo esse período.

Mesmo após ser alvo de sucessivas investigações, viu medidas cautelares serem adotadas gradualmente, em uma escalada muito mais lenta do que a aplicada a inúmeros investigados anônimos.
Enquanto isso, seus aliados transformavam cada nova decisão judicial em combustível político.
Agora, quando uma cautelar passa a ser efetivamente fiscalizada, surge o discurso de que Lula “podia tudo”.
Não podia.
Lula teve pedidos negados, enfrentou restrições severas e passou 580 dias preso. Bolsonaro responde aos processos em liberdade, cercado pela família, concedendo entrevistas, fazendo manifestações públicas e mantendo influência direta sobre a principal força política da direita brasileira.
Os dois casos são diferentes. As decisões judiciais também são diferentes.
Mas talvez a maior diferença esteja na narrativa.
Sempre que Bolsonaro enfrenta alguma consequência jurídica, seus aliados tentam reconstruir a história como se ele fosse vítima de um tratamento excepcional.
Os fatos contam outra versão.
Poucos políticos brasileiros desafiaram tantas instituições por tanto tempo acumulando tão poucas consequências imediatas.
É por isso que a frase de Flávio soa invertida.
Não, Flávio.
Lula não podia tudo.
Quem, durante anos, pareceu acreditar que podia desafiar decisões judiciais, testar os limites das instituições e ainda se apresentar como vítima sempre que a lei finalmente lhe alcançava foi Jair Bolsonaro.