‘Centrão vê que candidatura de Flávio Bolsonaro não avança’, analisa cientista política

Cientista política analisa dificuldades de Flávio para formar alianças, disputa interna no PL e desafios de Lula para 2026
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A cientista política Mayra Goulart afirmou, em entrevista exclusiva ao ICL Notícias – 1ª Edição, nesta quarta-feira (22), que a dificuldade de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em encontrar uma candidata a vice-presidente revela o isolamento político de sua pré-candidatura e a falta de capacidade de articulação da família Bolsonaro.

As declarações ocorrem após a senadora Tereza Cristina (PP-MS) recusar o convite para integrar a chapa de Flávio. Ex-ministra da Agricultura no governo Jair Bolsonaro, ela afirmou que sua prioridade é disputar a presidência do Senado em 2027.

“Flávio Bolsonaro, assim como seu pai, não se caracteriza por ser um político muito hábil na relação com outros políticos. Jair Bolsonaro passou sete mandatos na Câmara dos Deputados sem ser um grande articulador e aprovou poucos projetos de sua autoria. Eles são um clã pouco articulado, e isso está traduzido nessa campanha, em que eles não têm coligação eleitoral. O Flávio não tem previsão de vice porque, idealmente, você traz um vice de outro partido para ampliar os apoiadores e os palanques”, analisou Mayra Goulart.

Ela destacou ainda que a construção de alianças regionais é decisiva para uma campanha presidencial. “Ninguém se elege com voto em Brasília. O candidato precisa circular o Brasil para que a informação sobre as eleições chegue ao eleitor menos conectado com a política, que é quem define a eleição. Os palanques regionais são importantes por isso.”

Na avaliação da cientista política, o Centrão evita se associar à candidatura de Flávio por enxergar riscos eleitorais.

“O Centrão está vendo que a candidatura do Flávio não está avançando, pelo menos não está tendo um bom êxito neste primeiro turno, que é o momento mais importante para os candidatos ao Legislativo. Esses partidos veem no Flávio Bolsonaro algo que pode prejudicar a ampliação de suas bancadas. Bancadas maiores no Congresso Nacional significam mais recursos do fundo eleitoral e mais emendas parlamentares”, afirmou.

Disputa no PL

Mayra também comentou a disputa de influência dentro do Partido Liberal, envolvendo Flávio Bolsonaro, Michelle Bolsonaro e o presidente da legenda, Valdemar Costa Neto. Para ela, o conflito está menos relacionado à eleição presidencial e mais ao controle da estrutura partidária.

Flávio e Michelle: divergências públicas expõem disputa por legado de Bolsonaro. Foto: Reprodução / Redes Sociais
Flávio e Michelle: divergências públicas expõem disputa por legado de Bolsonaro. (Foto: Reprodução / Redes Sociais)

“Minha hipótese sobre a disputa dentro da família, entre Michelle e Flávio, é muito menos sobre vencer uma eleição presidencial. Tanto que Michelle seria candidata ao Senado pelo Distrito Federal, mesmo sendo alguém muito popular e oferecendo muito pouco voto para Flávio, do que se disputasse por um colégio eleitoral maior. A disputa diz mais respeito à batalha pela nominata do PL para candidatos a deputado federal e estadual, ao controle do partido em termos de emendas, acesso ao fundo partidário e à movimentação no Congresso nos próximos quatro anos”, analisou.

Segundo ela, a influência de Valdemar Costa Neto sobre o partido vai além da família Bolsonaro. “O Valdemar tem muito mais ascendência sobre esse espectro do PL que não é necessariamente ligado ao Flávio Bolsonaro. No Rio de Janeiro, por exemplo, embora o PL seja o maior partido do estado, muitos desses políticos já tinham carreira antes de Bolsonaro chegar à Presidência e controlam máquinas locais. Eles surfaram na onda do bolsonarismo, mas podem surfar em qualquer outra onda. Têm o controle das atividades no território, que envolve até o uso da violência e relações com a criminalidade. O PL é muito mais que o Bolsonaro.”

Pós-bolsonarismo

Ao comparar Jair Bolsonaro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Mayra afirmou que os dois construíram trajetórias políticas bastante diferentes.

“É incomparável aquilo que o presidente Lula construiu. Ele construiu o maior partido do Brasil, capilarizado, com uma história que envolve inúmeras articulações. Fez governos de Frente Ampla e, além de ser um líder popular, é um grande articulador e formulador. Nada disso Jair Bolsonaro sequer esboçou fazer. Ele é um agitador de plateia, mas não faz estratégia partidária”, disse.

A cientista política também afirmou que os interesses da família Bolsonaro vão além da disputa eleitoral. “Flávio Bolsonaro está menos interessado em ganhar a eleição presidencial, mas a família Bolsonaro também está interessada em dinheiro. Tanto que esses escândalos, como o da Dark Horse, não seriam apenas para financiar campanha, mas também para fazer caixa.”

“Não há um grande projeto do bolsonarismo. Quando se compara com outros líderes da extrema direita, Javier Milei, por exemplo, tem uma agenda muito mais determinada do que a família Bolsonaro, que não está tão comprometida com uma agenda neoliberal. Há isso, mas também outras questões, como alianças com o crime organizado e controle de recursos. Tudo isso parece muito presente quando se fala da família Bolsonaro”, completou.

Lula e a eleição de 2026

Sobre o cenário do presidente Lula, Mayra afirmou que o petista possui ampla experiência na construção de alianças, mas alertou para o crescimento da extrema direita. “O presidente Lula já foi experimentado na construção de palanques, e isso para ele é algo importante. É claro que há diversos líderes da extrema direita em prefeituras e governos estaduais, e isso é problemático para o presidente Lula.”

“Não pode entrar em um oba-oba porque subiu três pontos na pesquisa. A gente está em uma conjuntura global em que a extrema direita é forte e mobiliza as aspirações populares com um discurso de empreendedorismo e respostas fáceis para a segurança pública. Tudo isso será um desafio para a campanha do presidente Lula e para o Partido dos Trabalhadores, que têm respostas complexas para problemas complexos e responsabilidade com a verdade”, analisou.

 

 

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