O historiador, cientista político e analista Leonardo Trevisan afirmou, em entrevista ao ICL Notícias – 1ª Edição, nesta quarta-feira (22), que a investigação aberta pelos Estados Unidos sobre o Pix representa uma interferência na soberania brasileira. Segundo ele, a resposta do governo brasileiro deve ser pautada pelo diálogo entre países soberanos, sem abrir mão de seus interesses.
Ao comentar a decisão do governo brasileiro de não aplicar, neste momento, a Lei da Reciprocidade Econômica em resposta ao tarifaço anunciado pelos Estados Unidos, Trevisan defendeu que as negociações ocorram em pé de igualdade.
“O que o Brasil está comunicando é que não vai aplicar a Lei da Reciprocidade, mas que vai sentar na cadeira de igual para igual. Quando nós sentamos para negociar, são duas nações soberanas sentando para fazer negócio e, ao fazer negócio, uma respeita a outra, ficando bem claro isso”, analisou.
Para o cientista político, a ofensiva norte-americana contra o Pix extrapola a disputa comercial. “O Pix, por exemplo, é uma invasão de soberania — soberania financeira, econômica, de gestão pública e de dados, que é o ponto mais significativo. Quando nós olhamos para esse quadro, fica bem claro”.
Tarifas e estratégia eleitoral
Trevisan também questionou a decisão do presidente Donald Trump de retomar a política de tarifas, mesmo após firmar acordos comerciais com diversos países.
“Por que o Trump, de novo, as tarifas? O mundo está surpreso disso. Tem uma série de acordos com diversos países, não só o Brasil. Por que, neste momento, ele joga tudo fora e diz que vai taxar de novo? Ele está comprando uma briga com a Suprema Corte? Eu tenho suspeitas de que sejam pesquisas eleitorais, que são o contrário das nossas aqui. Muita gente está falando que pode votar em Trump, mas, quando o bolso está apertando, pode mudar de ideia”, questionou.
“Trump está precisando falar de tarifas para poder voltar a vender sonho, voltar à maneira típica com que ele administra. Vender a ideia de que vai voltar a ter emprego, voltar a ter produção aqui dentro e tudo vai ficar mais barato, quando é exatamente ao contrário”, completou.

Repetição da estratégia
Trevisan também comentou a publicação do governo brasileiro nas redes sociais em celebração ao Dia da Amizade entre Brasil e Estados Unidos, feita em meio ao aumento das tarifas sobre produtos brasileiros. Ao analisar a postura de Trump, ele comparou a repetição do discurso do presidente norte-americano a uma reflexão atribuída a Albert Einstein.
“O Albert Einstein dizia que as pessoas fazem uma coisa errada e depois fazem de novo, de novo e de novo. O problema não é novo. Por que Trump está repetindo? Talvez seja a pretensão dele de vender ao eleitor americano, ao eleitor médio, fora das grandes cidades, que vai devolver o tempo em que os Estados Unidos eram poderosos e não tinha para ninguém”, disse.
Segundo Trevisan, a estratégia pode perder força diante do impacto econômico sobre a população. “O mais fascinante é que o Trump imagine que as pessoas sem dinheiro no bolso continuem a acreditar nisso. Uma coisa é acreditar nisso com dinheiro; outra é acreditar nisso sem dinheiro no bolso, com a gasolina mais cara.”
O cientista político afirmou que Trump continua recorrendo às mesmas narrativas sobre as eleições de 2020 para mobilizar sua base.
“Há uma semana, o Trump fez uma rede nacional de televisão, como se fosse um pronunciamento, em que diz que, em 2020, quando o Biden ganhou, a China tinha entrado nos Estados Unidos e contaminado as eleições, e diz de novo que não podia ter voto por correio. Ele quer vender um mundo de ontem e excluir os que não acreditam”, analisou.