Trens de SP têm acúmulo de falhas em meio a recuos de Tarcísio sobre concessões

Pane que levou o governo a devolver temporariamente três linhas à CPTM amplia a pressão sobre o modelo de concessões e leva o Estado a rever projetos de privatização
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Por Fábio Pescarini e Leandro Machado

(Folhapress) – Linhas concedidas e aquelas operadas pela CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) acumulam falhas ao longo do último ano em São Paulo.

Os problemas que afetam milhares de passageiros incluem lentidão na circulação, falhas elétricas que interrompem viagens e chegam à paralisação integral dos ramais, como visto na quinta-feira (23).

Antes da falha desta semana, que desencadeou um caos no sistema de transporte que atende a capital paulista e cidades da região metropolitana, os problemas já eram do convívio diário dos passageiros em períodos recentes.

Em março, antes de passar às mãos da concessionária Trivia, a linha 12-safira enfrentou lentidão após um problema técnico em um aparelho de mudança de via. O ramal também registrou problemas recentes após atos de vandalismo e furtos de cabos elétricos.

Não há um dado público que compute os registros das falhas no transporte por trilhos em São Paulo e permita uma comparação temporal unificada.

Em 15 de junho, uma falha no sistema de energia da linha 10-turquesa, da CPTM, levou passageiros a mudarem de composição no meio da via com a interrupção da circulação. Em 3 de julho, ainda sob a tutela da estatal, os trens da linha 11-coral operaram com lentidão e maior tempo de paradas nas estações.

Os problemas são vistos na operação de outros ramais, como nas linhas 8-diamante e 9-esmeralda, sob gestão da Motiva. Em fevereiro, um problema em um trem vazio interrompeu a circulação em um trecho da linha 8. Em abril, um problema na rede aérea da linha 9 fez com que os trens circulassem por via única.

Depois da pane na quinta-feira, a Artesp (Agência Reguladora de Serviços Públicos Delegados de Transporte do Estado de São Paulo) determinou que a empresa pública reassuma a operação das linhas 11, 12 e 13 por ao menos 90 dias.

O leilão que definiu a concessão dos três ramais ocorreu em março de 2025 e foi vencido pelo grupo Comporte Participações, criado por Nenê Constantino, da família fundadora da companhia aérea Gol. Além da Trivia, o grupo empresarial controla a Tic Trens, operadora da linha 7-rubi.

Após a falha na quinta, a Trivia afirmou que mantém diálogo com o governo e a Artesp. “A concessionária reitera sua capacidade técnica e operacional para gerir as linhas, estando integralmente à disposição para atuar em cooperação, sempre priorizando a segurança e a prestação do serviço de qualidade à população”, diz.

Para Cláudio de Senna Frederico, ex-secretário de transportes metropolitanos e vice-presidente da ANTP (Agência Nacional de Transportes Metropolitanos), concessões de linhas metroferroviárias não são necessariamente ruins ou boas.

“Há exemplos que deram muito certo e outros que pioraram o sistema. Em Paris e Londres, houve algumas tentativas de privatização, mas elas não funcionaram a longo prazo. O modelo europeu é essencialmente estatal e unificado. Já no Japão há várias linhas operadas por empresas que funcionam muito bem”, diz.

Frederico critica uma “perda de unidade e de identidade” do sistema metroferroviário de São Paulo, com diferentes companhias operando ao mesmo tempo.

“O metrô e os trens deveriam ser percebidos pelo passageiro como um produto único e centralizado, e não como um conjunto de ‘lojinhas’ com cores, identidades visuais e comunicações diferentes. Hoje, o sistema lembra mais o modelo de ônibus. Quando acontece algum problema, o passageiro tem dificuldade em saber com quem se comunicar.”

Recuos

O contrato de concessão das linhas 11, 12 e 13 para a empresa Trivia Trens previa a realocação de trens da série 8.500 da linha 10-turquesa, os mais modernos da frota em operação no ramal (fabricados em 2015).

Modelos mais antigos, das séries 7.000, 7500 e 2070 ficariam na última linha sob gestão pública da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos).

Após pressão, inclusive de usuários, o governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) decidiu não seguir adiante com a remodelação e manteve os trens da série 8.500 na linha 10, que também conta com seis composições 2070, fabricadas em 2008, mas que estão passando por reformas e devem seguir padrões semelhantes aos veículos mais novos.

Esse foi um dos recuos em meio a sequência de problemas em outras concessões do sistema metroferroviário, uma das principais promessas de campanha de Tarcísio em 2022. Ele, agora, tenta a reeleição.

A linha 10 é a única que continua nas mãos da CPTM. Passar o ramal também estava no pacote de concessões de Tarcísio. Mas a ideia esfriou.
Em maio, Tarcísio disse que antes de conceder a linha, precisaria modernizar o ramal. E é o que deve acontecer.

“Neste momento, o foco do estado está na implantação dos investimentos previstos nos contratos de concessão já realizados e na melhoria operacional dessas linhas, enquanto a estruturação do projeto da linha 10 segue em desenvolvimento”, diz em nota a SPI (Secretaria de Parcerias em Investimentos).

A remodernização da linha 10 tem um pacote complexo de obras que, totalizado, não deve sair em menos de cinco anos, e é orçado em cerca de R$ 1,5 bilhão.

Ela contempla construção de novas estações, reformulação de algumas já existentes, como a centenária de Rio Grande da Serra. Há ainda investimentos estruturais, como de sinalização de via –o que permite reduzir o tempo entre os trens– em energia e construção de oficinas.

“O que o governador disse mais de uma vez foi sobre a intenção de manter a linha sem descartar a concessão, e fazer todos os investimentos para trazê-la no padrão das demais”, afirmou o presidente da CPTM, Michael Sotelo Cerqueira, em entrevista à Folha nesta sexta-feira (24).

“Há um programa robusto de investimentos dentro das concessões, ainda que ela [linha] continue com o governo”, diz Cerqueira.

Um possível recuo na concessão da linha 10 não seria uma surpresa diante dos últimos discursos do governador. Há menos de um mês, ele disse que pretende desistir de conceder linha 17-ouro e deixar a gestão do ramal com o Metrô.

A linha faz parte do contrato de 2018 com a ViaMobilidade, do grupo Motiva, que inclui a linha 5-lilás. O monotrilho foi inaugurado em 31 de março e está em processo de operação assistida pelo Metrô, com horário reduzido de funcionamento até a outubro, quando a empresa privada deveria assumir o comando.

“A capacidade que a gente tem é de mudar de opinião”, disse durante a inauguração da estação Washington Luís. “A gente não concede algo por conceder. A realidade é que o Metrô está operando muito bem. Estou pensando é em expandir as linhas operadas pelo Metrô”, afirmou.

Na entrevista, Tarcísio também falou que há dificuldade de mobilizar operadores estrangeiros. “E também não se pode concentrar todo o transporte na mão de poucos operadores”, disse.

Atualmente, das seis linhas do trem metropolitano concedidas à iniciativa privada, quatro têm participação do Grupo Comporte (linhas 7-rubi, 11-coral, 12-safira e 13-jade). Outras duas, 8-diamante e 9-esmeralda são operadas pela Motiva, que também controla as linhas 4-amarela e 5-lilás, do metrô.

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