‘Quem é esse cara?’: Brasil e Argentina na guerra global

A crise diplomática entre Brasil e Argentina não é apenas uma briga de egos presidenciais de ideologias distintas, é a linha de frente de uma batalha muito maior entre a democracia liberal com seus ritos civilizatórios e a barbárie do mercado totalitário
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Buenos Aires, 29 de julho de 2026

Chego no hotel em Buenos Aires e um atencioso recepcionista me acompanha com seu sotaque portenho inconfundível. Não trocamos nem duas frases e já percebo que é um entusiasta de Javier Milei. Com sorriso largo e simpatia de sobra, ele repete todos os mantras do bolsonarismo brasileiro, mas numa outra língua e num país não apenas arrasado pela derrota na final da Copa do Mundo, mas por uma nação dividida pela motosserra privatista de seu presidente. O recepcionista minimiza o caos de Milei, que, ao passar pelo Brasil, violou trocentas regras dos antigos “bons modos” da classe política mundial.

O fato é que a cena do saguão do hotel é o microcosmo de uma América Latina fraturada. O que para o meu anfitrião é apenas “o estilo” de um líder autêntico, para a diplomacia sul-americana é um terremoto sem precedentes. Quando Javier Milei aterrissou em São Paulo não para uma visita de Estado, mas para um comício partidário ao lado de Flávio Bolsonaro, ele não apenas rasgou o manual de etiqueta do Itamaraty; ele dinamitou uma tradição de mais de duzentos anos de relações cordiais entre Brasil e Argentina. Talvez Milei desconheça os conflitos do século XIX e de como o Império do Brasil redefiniu o mapa da região Rio da Prata com suas intervenções políticas e militares. O massacrado Paraguai que o diga. Mas são outros tempos, dizem por aqui os altivos portenhos. Altivos, mas rodeados de miséria nas franjas da Grande Buenos Aires. Em todo caso, o Brasil não é mais um Império e desde 1870 não se envolve em conflitos bélicos na região.

Voltando ao tresloucado Milei, a resposta irônica de Luiz Inácio Lula da Silva — “Quem é esse cara?” — capturou a perplexidade institucional diante do absurdo. Mas o recepcionista do hotel está certo em um ponto: Milei não é um acidente. Ele é um projeto. Uma performance. Um espetáculo dantesco.

Milei, Donald Trump e os Bolsonaros representam o fim de qualquer rito democrático. Eles são a antessala do fascismo mais desbragado, ou, em outras palavras, da sociedade totalitária mercantil. Nessa distopia em expansão, tudo é mercadoria: os recursos naturais, as estatais, as relações diplomáticas e, principalmente, a própria justiça. A viagem de Milei a São Paulo não foi um arroubo de loucura, mas um passo calculado na consolidação de um bloco regional de extrema-direita, subserviente a Washington e determinado a isolar a China da região. É a “Doutrina Donroe” operando em velocidade 5G e tentando transformar a América Latina, como nunca antes, num mero apêndice colonial dos USA. E assim Milei entrará para os livros de História, um garoto de recados da Casa Branca, só falta substituir a tinta da Casa Rosada pela tinta branca e fantasmagórica de Washington.

E para que essa sociedade mercantil prospere, é preciso eliminar os obstáculos políticos. É aqui que entra a arma mais sofisticada desse novo totalitarismo: o lawfare (guerra jurídica). Estas mesmas figuras que desprezam a diplomacia são especialistas na instrumentalização do direito, tentando levar todo o continente de baciada.

Aqui na Argentina, a ex-presidente Cristina Kirchner — do Partido Justicialista, também conhecido como Partido Peronista — segue em prisão domiciliar, resultado da controversa condenação no caso Vialidad (órgão de estradas e rodovias). A sentença de seis anos e a inabilitação perpétua para exercer cargos públicos, confirmadas pela Corte Suprema, basearam-se em acusações de “administração fraudulenta” e “associação ilícita”, mas a defesa sempre apontou a falta de provas diretas e as flagrantes violações do devido processo legal. É o mesmo roteiro que vimos no Brasil com a Operação Lava Jato e a prisão de Lula: o tribunal transformado em “pelotão de fuzilamento”, nas palavras da própria Cristina.

Contudo, essa história ganha hoje um novo capítulo. A defesa de Cristina Kirchner recebe um reforço brasileiro, especializado em combater as diatribes do lawfare em perspectiva global. Rafael Valim, jurista com vasta experiência em tribunais superiores e organismos internacionais de direitos humanos, une-se ao espanhol Javier Borrego e ao argentino Alberto Beraldi. Valim, que atuou na defesa de Lula e é coautor de obras seminais sobre o uso do direito como arma de guerra, traz para Buenos Aires a expertise de quem já derrotou esse espectro no Brasil.

Nesta quarta-feira, 29 de julho — talvez não muito longe de onde o recepcionista sorridente me atendeu —, essa nova equipe jurídica apresenta uma comunicação individual ao Comitê de Direitos Humanos das Nações Unidas (ONU). O objetivo é claro: internacionalizar a denúncia das violações cometidas pelo judiciário argentino e expor ao mundo as engrenagens da perseguição política.

Enquanto o recepcionista — um trabalhador — celebra a motosserra que corta os laços diplomáticos e os direitos sociais, a resistência se organiza nos tribunais internacionais. A crise diplomática entre Brasil e Argentina não é apenas uma briga de egos presidenciais de ideologias distintas, é a linha de frente de uma batalha muito maior entre a democracia liberal com seus ritos civilizatórios e a barbárie do mercado totalitário. O lawfare tenta silenciar as vozes dissonantes, mas a união de juristas ibero-americanos mostra que a solidariedade democrática também cruza fronteiras. Agora resta saber como o povo argentino irá agir-reagir.

“A então vice-presidente em fim de mandato (2019–2023) e duas vezes presidente da Argentina (2007–2015), Cristina Fernández de Kirchner, ao lado de Javier Milei, na cerimônia de posse deste último como presidente da Nação Argentina (2023–2027).” Fonte: Prensa del Senado de la Nación Argentina.
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