Por Gabriel Gomes
Um levantamento preliminar do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP) aponta que as eleições de 2026 deverão registrar o maior índice de deputados federais buscando a reeleição da série histórica da entidade. Segundo o estudo, 448 dos 513 parlamentares em exercício pretendem disputar um novo mandato, o equivalente a 87,32% da composição da Câmara dos Deputados.
Os dados foram elaborados com base em pesquisas, consultas a portais locais, contatos com candidatos e dirigentes partidários, além da análise dos arranjos políticos nos estados. O percentual de parlamentares que pretendem permanecer na Câmara supera o registrado nas eleições de 2022.
Outros 65 deputados decidiram disputar cargos diferentes, como Senado, governos estaduais, vice-governos, assembleias legislativas ou a Vice-Presidência da República, enquanto parte deles optou por não concorrer nas eleições.
Segundo o DIAP, esse número ainda pode aumentar. Caso parlamentares que hoje pretendem disputar o Senado ou ainda não tenham definido seus planos mudem de estratégia, o total de candidaturas à reeleição poderá chegar a 495. A confirmação ocorrerá apenas após as convenções partidárias.

Senado terá renovação maior
No Senado Federal, o cenário é diferente. Como a eleição de 2026 renovará dois terços da Casa, estarão em disputa 54 das 81 cadeiras. Dos 54 senadores em fim de mandato, 34 sinalizam intenção de disputar a reeleição, o equivalente a 62,96% das vagas em disputa. Os demais deverão concorrer a outros cargos, como Presidência da República, governos estaduais, Câmara dos Deputados e assembleias legislativas.
Na avaliação do DIAP, os números indicam uma tendência de baixa renovação na Câmara dos Deputados, enquanto o Senado deverá registrar uma mudança mais significativa em sua composição.
Segundo Rita Serrano, presidente do DIAP, parte da diferença entre as duas Casas ocorre porque senadores em fim de mandato devem disputar outros cargos, especialmente governos estaduais. O mandato de oito anos também contribui para essa dinâmica.
“Parte dos senadores que estão terminando o mandato são candidatos ao governo dos estados e acabam postulando outras funções. Por isso, o número é um pouco menor. Além disso, quando falamos de Senado, estamos falando de um mandato de oito anos”, avalia.

O estudo atribui esse cenário a três fatores principais. O primeiro é a redução do número de candidatos à Câmara, consequência do limite de candidaturas por partido ou federação, equivalente a 100% das vagas mais uma, e da exigência de que ao menos 30% das candidaturas sejam destinadas a mulheres.
O segundo fator é o endurecimento da cláusula de barreira nas eleições de 2026. Para ter acesso aos fundos partidário e eleitoral, as legendas precisarão atingir 2,5% do eleitorado nacional. Segundo o DIAP, essa mudança levou partidos a priorizar fusões, federações e candidaturas de parlamentares que já exercem mandato.
O terceiro elemento é a vantagem competitiva dos atuais congressistas, que contam com recursos do fundo eleitoral e com as emendas parlamentares individuais, aumentando as chances de permanência no cargo.
Para Rita Serrano, o aumento do poder do Congresso sobre o orçamento da União fortaleceu os parlamentares e criou uma vantagem eleitoral para quem já ocupa uma cadeira. “O Congresso, nos últimos anos, foi extremamente valorizado pelo fato de controlar parte do orçamento da União. Essa valorização do Congresso, no sentido de ele controlar parte do orçamento que deveria ser definido pelo Executivo, valorizou demais a função dos parlamentares e deu a eles uma ferramenta, que são justamente essas emendas.”
Na avaliação de Rita, esse cenário reduz o espaço para novos partidos e lideranças. “As regras eleitorais também criaram dificuldades para os novos partidos, para os partidos menores. O que está acontecendo hoje, com as novas regras eleitorais, é uma concentração nos grandes partidos”, afirmou.
Para a presidente do DIAP, a combinação entre recursos, estrutura partidária e regras eleitorais favorece quem já exerce mandato. “A consequência é termos um Congresso mais do mesmo. É claro que haverá eleição, mas as condições objetivas favorecem quem já está hoje no Congresso.”
Congresso deve manter perfil atual
Caso o cenário projetado se confirme, o DIAP avalia que o Congresso Nacional eleito para o mandato de 2027 a 2030 deverá apresentar características semelhantes às da atual legislatura.
Entre as principais tendências apontadas pelo levantamento estão a baixa renovação da Câmara dos Deputados, a redução da fragmentação partidária e a permanência da força da centro-direita e do Centrão, enquanto a esquerda tende a registrar crescimento moderado.
O estudo também prevê a continuidade da influência de bancadas temáticas, como as ruralista, da segurança pública e evangélica, além da manutenção de um perfil liberal na economia e conservador nos temas sociais e de costumes.
Na disputa pelo tamanho das bancadas da Câmara, o DIAP projeta que a federação PP-União Brasil, o PT e o PL deverão formar os maiores grupos parlamentares. Republicanos e PSD aparecem com potencial de crescimento, enquanto, entre os partidos de esquerda e centro-esquerda, o PSB desponta como a legenda com maior perspectiva de expansão.
Para Rita Serrano, a manutenção desse perfil pode dificultar a aprovação de pautas relacionadas a direitos trabalhistas e avanços sociais. A presidente do DIAP avalia que o próximo governo também poderá enfrentar dificuldades semelhantes às observadas na atual gestão, diante do poder adquirido pelo Legislativo sobre o orçamento.
“Você tende a ter um governo repetindo o que foi essa gestão, com o Congresso concentrando grande parte do orçamento e o governo ficando refém, em muitos momentos, disso”, afirmou.