Por Cleber Lourenço
A abertura do inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) para investigar o financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro, trouxe novamente à tona uma das principais lacunas do caso: afinal, quanto dinheiro foi efetivamente movimentado para custear a produção?
Os documentos que vieram a público até agora apresentam três cifras diferentes, todas relacionadas ao projeto, mas sem uma explicação oficial sobre como elas se conectam.
A primeira delas é de US$ 24 milhões, valor que aparece nas negociações para viabilizar o financiamento do filme e que teria sido buscado junto ao banqueiro Daniel Vorcaro.
Depois vieram à tona documentos obtidos pelo Intercept Brasil mostrando seis transferências internacionais, realizadas entre fevereiro e maio de 2025, que somam US$ 10,6 milhões enviados ao fundo norte-americano Havengate Development Fund, responsável por administrar os recursos destinados à produção.
Já o parecer da Procuradoria-Geral da República (PGR), que embasou a abertura do inquérito pelo ministro André Mendonça, menciona um Relatório de Inteligência Financeira (RIF) do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) segundo o qual foram identificadas movimentações de US$ 12,3 milhões entre a Entre Investimentos e Participações e o Havengate.
Os três números não são necessariamente incompatíveis. Cada um pode representar etapas diferentes da operação financeira, como valores negociados, recursos efetivamente transferidos ou o conjunto das movimentações identificadas pelos órgãos de investigação.
O problema é que essa diferença nunca foi explicada publicamente.
O que se sabe sobre cada valor
Os US$ 24 milhões aparecem nas negociações para financiar integralmente o longa-metragem. O valor foi citado em documentos e mensagens que passaram a integrar a investigação e representa o montante que seria necessário para colocar o projeto de pé.
Os US$ 10,6 milhões correspondem às seis ordens de pagamento reveladas pelo Intercept Brasil. Os documentos incluem comprovantes bancários, planilhas e instruções de transferência realizadas entre fevereiro e maio de 2025 para o Havengate.
Já os US$ 12,3 milhões surgem pela primeira vez no parecer da PGR. O documento afirma que o Coaf identificou movimentações nesse montante entre empresas ligadas ao ecossistema de Daniel Vorcaro e o fundo utilizado para administrar os recursos do filme.
O parecer, porém, não informa quantas operações compõem esse total, quando elas ocorreram nem se todo esse dinheiro foi destinado exclusivamente à produção de Dark Horse.
Prestação de contas continua fora do alcance do público
A ausência de uma prestação de contas detalhada impede saber se os três valores se referem ao mesmo fluxo financeiro ou a operações diferentes.
Após a abertura do inquérito, a GoUp afirmou que entregou toda a documentação financeira à Polícia Civil de São Paulo em junho e que possui um laudo técnico apontando que os recursos utilizados na produção têm origem privada e rastreável.
Apesar disso, a documentação não foi tornada pública e não permite verificar como cada transferência foi contabilizada nem qual foi o destino final dos recursos.
Um dos pontos que a PF deverá esclarecer
Com o inquérito agora formalmente instaurado no STF, a Polícia Federal deverá reconstruir o caminho percorrido pelo dinheiro utilizado para financiar o filme.
Entre os pontos que tendem a ser esclarecidos durante a investigação estão:
- qual foi o valor efetivamente destinado à produção;
- quantas transferências internacionais ocorreram;
- quais operações compõem os US$ 12,3 milhões mencionados pela PGR;
- por que esse montante difere dos US$ 10,6 milhões já documentados publicamente;
- e se os US$ 24 milhões inicialmente negociados chegaram a ser integralmente disponibilizados.
Enquanto essas respostas não aparecem, a própria documentação conhecida sobre Dark Horse mostra que ainda existe uma lacuna importante sobre o volume de recursos movimentados para financiar um dos projetos que hoje estão no centro das investigações conduzidas pela Polícia Federal e supervisionadas pelo STF.