Morre aos 91 anos Monty Roberts, pioneiro na doma de cavalos sem violência e amigo do ICL

Vítima de fake news no Brasil, Roberts teve causa ganha há poucos dias contra veículos de imprensa e associação
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O treinador norte-americano Monty Roberts, considerado um dos maiores nomes da equitação mundial e referência em métodos de treinamento sem violência, morreu neste sábado (1º) de agosto, aos 91 anos. Ele faleceu em sua propriedade, a Flag Is Up Farms, em Solvang, na Califórnia, ao lado da esposa, Patricia, conforme informaram familiares. Roberts é um grande amigo e inspirador de Eduardo Moreira, criador do Instituto Conhecimento Liberta, e tem um curso na plataforma do ICL.

Ao longo de mais de sete décadas dedicadas aos cavalos, Roberts conquistou reconhecimento internacional por romper com práticas tradicionais de adestramento e defender uma relação baseada na comunicação e na confiança entre humanos e animais.

Natural de Salinas, na Califórnia, onde nasceu em 14 de maio de 1935, ele passou a observar ainda jovem o comportamento de cavalos selvagens. A partir dessas experiências, desenvolveu uma metodologia que buscava compreender a linguagem corporal dos animais em vez de submetê-los à força física.

Essa filosofia deu origem ao Join-Up, técnica que revolucionou o treinamento equino ao demonstrar que era possível conquistar a cooperação do cavalo sem recorrer ao medo ou à punição. Décadas depois, seus princípios continuam influenciando criadores, treinadores e cavaleiros em diferentes partes do mundo.

Muito antes de conceitos como bem-estar animal e adestramento positivo ganharem espaço no debate público, Roberts já defendia que compreender o comportamento natural dos cavalos era o caminho para estabelecer relações mais saudáveis e eficientes.

Sua história ganhou projeção internacional com a publicação da autobiografia “O Homem que Ouve os Cavalos”, obra que permaneceu entre os livros mais vendidos e apresentou sua filosofia a milhões de leitores. O sucesso da publicação ajudou a popularizar sua visão sobre o treinamento equino e ampliou ainda mais sua influência fora do universo dos esportes equestres.

Ligação de Eduardo Moreira com Monty Roberts

Eduardo Moreira publicou em seu Instagram um vídeo em que classifica Monty Roberts como seu “segundo pai” e alguém que o fez “mudar completamente a vida e buscar coisas que desde pequeno tinha vontade de fazer, mas nunca tive coragem”.

“Monty Roberts recebeu não só a mim, mas a minha família como sua família”, explicou Eduardo. “Ele e a Debbie, filha dele, são padrinhos do meu casamento com a Juliana Baroni. Todos os anos estava com ele nos Estados Unidos, levei meus filhos para aprenderem, para sentarem ao lado dele, para ouvir histórias da sua vida. Monty esteve aqui no Brasil várias vezes e tive a alegria de recebê-lo aqui em casa”.

Monty Roberts e Eduardo Moreira

Eduardo Moreira destacou que Roberts “teve uma vida corajosa, valente e que nunca foi fácil”, já que começou a implantar suas ideias numa época em que  defender que era possível o tratamento de cavalos sem violência era considerado uma heresia. “Ele chegou a ser preso, apanhou, até os 12 anos de idade teve mais de 70 ossos quebrados pela violência do pai que batia nele com corrente. Teve todos os motivos da vida para se transformar numa pessoa odiosa e agressiva, mas não fez nada disso. Dedicou a vida dele para tentar fazer o mundo melhor”, conta o fundador do ICL.

Eduardo escreveu o livro “Encantadores de vidas”, em que apresenta o método de Monty Roberts, que prega o afeto e a não violência para domar os animais, juntamente com o de Nuno Cobra, preparador físico de atletas, adepto da integração corpo-mente-emoção-espírito para a reorganização e o equilíbrio do corpo em uma zona de conforto para o ser humano. O autor descreveu como esses mestres se tornaram os pilares de sua vida

Vítima de fake news no Brasil, Roberts teve causa ganha há poucos dias

No vídeo, Eduardo Moreira conta como Roberts foi vítima de fake news no Brasil há 15 anos, quando participou de uma apresentação de cavalos em Belo Horizonte. Na ocasião, houve uma demonstração de doma violenta e o americano fez questão de mostrar ao domador como se pode tratar o animal de forma diferente.

O vídeo desse evento, no entanto, foi manipulado e publicado em alguns meios de comunicação como se o encantador de cavalos estivesse maltratando os animais. “Essa mentira foi divulgada para todo o mundo por uma revista de cavalos que tinha ódio de Monty Roberts e pela TV Record em seu principal programa de reportagens. Isso fez com que apresentações dele fossem canceladas em todos os países. Essa foi a fase mais difícil e dura da vida dele”, recorda Eduardo. “Eu fiz uma carta pública e divulguei defesa dele. Também sofri ataques. Entre junto com Monty Roberts na Justiça”.

A última sentença do caso foi emitida na quarta-feira (29) e torna pública neste fim de semana. A Rede Record, a revista Horse, e a Associação Brasileira dos Criadores do Cavalo Mangalarga Marchador (ABCCMM) foram condenadas no Tribunal de Justiça de São Paulo a pagarem indenização por danos morais e lucros cessantes ao Monty Roberts por ter sido configurado manifesto abuso do direito de informar, através da edição de imagens e desvirtuamento de fatos, imputando a ele maus tratos a um cavalo em evento de doma em Belo Horizonte.

Além disso, a Record foi condenada a produzir um programa com a mesma duração daquele inverídico, se retratando e divulgando a doma racional. O mesmo aconteceu com a Revista Horse, que deve publicar reportagem com o mesmo número de páginas daquela que lhe caluniou. A ABCCMM deve publicar nota se retratando por ter, na época imputado os maus tratos a Roberts.

Foi uma decisão emblemática, pois ressaltou que as matérias violaram o princípio da veracidade.

Relação próxima com Elizabeth II

Uma das amizades mais conhecidas de Monty Roberts foi com a rainha Elizabeth II. O interesse comum pelos cavalos aproximou os dois depois que a monarca britânica o convidou para apresentar sua metodologia no Castelo de Windsor.

A parceria atravessou mais de 30 anos. Segundo Roberts, foi justamente Elizabeth II quem o incentivou a transformar sua trajetória em livro, iniciativa que resultou em “O Homem que Escuta os Cavalos”.

Em reconhecimento pelos serviços prestados aos Haras Reais e pela contribuição ao bem-estar dos animais, o treinador recebeu, em 2011, o título honorário de Membro da Ordem Real Vitoriana (MVO), uma das distinções concedidas pela família real britânica.

Monty Roberts, Elizabeth II, Juliana Baroni e Eduardo Moreira

Trabalho também mudou o turfe

As ideias de Roberts não ficaram restritas à equitação clássica. Elas também deixaram marcas importantes nas corridas de cavalos.

Um dos episódios mais emblemáticos envolveu o puro-sangue alemão Lomitas. Considerado extremamente talentoso, o animal enfrentava dificuldades porque se recusava a entrar nos boxes de largada, comprometendo sua carreira.

Utilizando seu método de aproximação gradual, Roberts conseguiu restabelecer a confiança do cavalo. Lomitas voltou a competir, tornou-se um dos maiores campeões da Alemanha e, posteriormente, destacou-se também como reprodutor.

O caso fortaleceu a relação entre Roberts e o tradicional haras alemão Gestüt Fährhof, parceria que durou mais de três décadas. Todos os anos, ele viajava ao país para colaborar na preparação de jovens puro-sangues destinados às pistas, incluindo animais que mais tarde conquistariam títulos importantes, como Silvano.

Juliana Baroni, Eduardo Moreira e Monty Roberts no ICL

Legado que transformou a equitação

Embora suas ideias tenham enfrentado resistência entre defensores dos métodos tradicionais de treinamento, a influência de Monty Roberts acabou se consolidando em todo o mundo.

Por meio de livros, clínicas, palestras e cursos, ele formou milhares de profissionais e inspirou desde cavaleiros iniciantes até treinadores de elite, competidores olímpicos e especialistas em turfe.

Mais do que ensinar técnicas de manejo, Roberts defendia uma mudança de mentalidade: compreender o comportamento do cavalo antes de tentar controlá-lo.

Sua morte gerou homenagens de diferentes países. Amigos, alunos e profissionais do setor destacam não apenas sua contribuição técnica, mas também seu compromisso permanente com o respeito aos animais e sua disposição em compartilhar conhecimento.

O legado deixado por Monty Roberts permanece presente na forma como milhares de pessoas treinam, manejam e convivem com cavalos. Sua principal mensagem — de que a confiança produz resultados mais duradouros do que a imposição da força — continua influenciando novas gerações dentro e fora do universo equestre.

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