Você — jovem muito jovem —, não lembrará, mas tivemos há 25 anos uma novela chamada ‘O clone’. Quem viveu aquela época parece ter entrado num túnel do tempo com a pesquisa divulgada na última quarta-feira, pela empresa Meio/Ideia. Nela, 12,5% dos eleitores acreditam que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva morreu e quem está no comando do país é um clone ou sósia. Outros 28,5% dos entrevistados disseram não saber. Isso significa que 41% do eleitorado considera a teoria conspiratória possível. Aqui não cabe outra palavra: Estarrecedor.
Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 158 milhões de eleitores aptos a votar. O que a pesquisa está nos dizendo é que cerca de 19 milhões não têm dúvidas da tese do duplo e que outros 45 consideram a possibilidade, ou seja, para um total de aproximadamente 64 milhões de brasileiros e brasileiras, é razoável pensar que quem governa o Brasil hoje é um ser nascido de um experimento científico. Aqui não cabe outra palavra: Amedrontador.
Estamos falando de uma população numericamente equivalente à da França e superior à da Itália completamente imersa numa fantasia absurda. Isso dá a medida do tamanho do buraco em que nos enfiamos como nação.
Naquele não tão distante 2001 da novela ‘O Clone’ — o folhetim das 21 horas da TV Globo —, escrito por Glória Perez (que, aliás, não esconde suas predileções ideológicas pela extrema direita brasileira), trazia uma trama que conquistou a nação: Um cientista interpretado pelo saudoso Juca de Oliveira estava às voltas com uma pesquisa para clonar um ser humano.
Não havia Inteligência Artificial, as redes sociais engatinhavam, o mundo ainda era bastante analógico e smartfones não estavam ao alcance de todos os bolsos como hoje, mas havia na novela ao menos a tentativa de um debate ético sobre os limites da ciências.
Duas décadas e meia depois, com o acesso na palma da mão aos maiores museus do planeta, a livros sérios em profusão e muito conteúdo de qualidade fornecido gratuitamente em páginas e sites, a população se fechou em bolhas criadoras das teorias da conspiração mais alucinadas e não só duvida do que seus olhos veem, como não se constrange em propagar tais teses.
O etarismo nosso de cada dia parece reforçar a ideia de que um homem na casa dos 80 anos não possa se exercitar, estar com a saúde em dia e ser funcional. O imaginário de que não existe idoso que não seja decrépito é, no fundo, a lenha da fogueira que forja a ideia do Lula-Clone. Curiosamente — e já comentei isso neste espaço —, o Brasil envelhece em velocidade acelerada. Pela primeira vez, há mais idosos que jovens no Brasil. O IBGE mostrou em 2023, que o percentual da população idosa de 15,6% ultrapassou os 14,8% dos que têm entre 15 e 24 anos. No período de 2000 a 2023, a quantidade de pessoas com 60 anos ou mais quase duplicou.
Serão clones Gilberto Gil, Caetano Veloso, Maria Betânia, Paulinho da Viola, Ney Matogrosso, Djavan, Roberto Carlos, Fernanda Montenegro, Zezé Motta, Conceição Evaristo, Nei Lopes, Toni Tornado, Ari Fontoura e tantos outros e outras que já ultrapassaram ou estão muito próximos dos 80 anos? Queremos o nome da fábrica, pois são geniais e mais interessantes que muito pré-adolescente que está por aí “farmando aura” gritando “six-seven”.
Sabemos. Teorias da conspiração têm método de disseminação, propósito de alienação e público-alvo. É fácil plantar qualquer crença em quem já está predisposto a acreditar em qualquer coisa que corrobore com suas visões adulteradas de mundo.
Poderiam acreditar na tese escalafobética que quisessem se não fosse por um detalhe: Todas essas pessoas votam…e são mais de 60 milhões.
Meu pai, a caminho de completar 86 anos em novembro, olha para o noticiário sem acreditar que exista tanto patriota crente na teoria do Luiz Ignácio clonado e afirma: “E eu, que pensei que já tivesse visto tudo que para ver havia”.