Por Gilberto Nascimento*
A máquina eleitoral da Igreja Universal do Reino de Deus, liderada pelo milionário bispo Edir Macedo, está em ação novamente. Desta vez, a igreja lançou uma “jornada de fé”, o “Desafio de Neemias”, a fim de reunir seus fiéis e voluntários e mobilizá-los para a atuação política na atual campanha eleitoral. A prioridade da Universal é eleger na eleição de outubro seus bispos e pastores candidatos a deputado estadual e federal por todo o país.
A campanha “Desafio de Neemias” é inspirada na narrativa bíblica de reconstrução dos muros de Jerusalém, que durou 52 dias. É um projeto religioso, de reflexão, oficialmente. O principal objetivo da campanha, porém, segundo relatos de pastores da Universal (que falam sob a condição do anonimato) e também de ex-pastores da igreja, é recrutar e doutrinar fiéis e multiplicar os votos dos candidatos apoiados pela instituição na eleição de outubro.
A Universal propõe aos seus seguidores “52 dias de fé, foco e reconstrução espiritual”, iniciando nesta quinta-feira (13). O término será exatamente em 4 de outubro, o dia da votação em primeiro turno.

Os fiéis estão sendo convocados a se inscrever em um site oficial do projeto – desafiodeneemias.com.br . Os pastores têm sido cobrados para cadastrar o maior número de membros e voluntários, e líderes da igreja monitoram quem está trazendo ou não novos adeptos. A Universal determinou, em reunião da cúpula da Igreja no Rio, no dia 4 de agosto, que cada cadastrado seja orientado a arregimentar outras 52 pessoas, segundo o ex-pastor da igreja Davi Vieira.
O número de fiéis e simpatizantes cadastrados que deverão atuar como voluntários na campanha político/religiosa da Universal já chegava a 154 mil até o dia 4 de agosto. Depois dessa data, o site não informou mais o total. Os seguidores terão de cumprir uma tarefa diária, a ser determinada pelos líderes da igreja.
No período até a eleição, os obreiros (auxiliares de pastor), fiéis e simpatizantes receberão diariamente um vídeo com reflexões, além de notícias e orientações de seus líderes espirituais sobre temas de interesse político que fortalecem o discurso religioso conservador. Entre esses temas, estão supostas perseguições políticas a evangélicos por regimes políticos de esquerda e o debate sobre a aprovação de leis que envolvem família, sexualidade e outras pautas morais.
No espaço destinado às notícias, há textos jornalísticos com títulos como: “Perseguição cresce: 380 milhões de cristãos sob perseguição no mundo”, “Onda de ataques e vandalismo a igrejas preocupa fiéis em várias cidades”, “PL da misoginia gera preocupação no Congresso Nacional”, e “Câmara avança em projetos que isenta sermões e pregações da lei do Racismo”, entre outros. Os seguidores receberão uma tarefa diária, a ser determinada pelos líderes da igreja.
A ideia do “Desafio de Neemias” é incentivar os fiéis a “cercarem a sua fé” e os seus valores, construindo um muro, com “um tijolo por dia”. Como Neemias, que em 52 dias restaurou os muros de Israel que estavam em ruínas e esse marco representou “a independência daquele povo”, de acordo com a Universal.

O foco da campanha, segundo a igreja, é a reconstrução e proteção da família, dos valores cristãos e da vida espiritual.
Para entrar no site do “Desafio de Neemias”, é preciso criar uma conta, a qual pede a identificação facial, uma senha e informações sobre qual templo, bairro, cidade e estado o fiel pertence.
“A cúpula da Universal quer fazer agora uma campanha mais vinculada diretamente aos fiéis da igreja porque, ao longo dos últimos anos, vinha perdendo votos no interior da denominação. Eles vão oferecer pílulas diárias de conteúdo, com pequenas reflexões bíblicas e divulgação de nomes de seus candidatos. Tudo isso vinculado à mensagem de Neemias, que é o reconstrutor de Jerusalém, alguém que defendeu Israel diante de tantas lutas”, diz o teólogo protestante Fábio Py, professor do programa de pós-graduação em Sociologia Política do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro, o Iuperj.
“É uma tentativa de reconectar e fidelizar mais ainda os seguidores aos políticos candidatos da igreja, de uma forma muito direta. Em 2020, a votação deles foi muito pulverizada. As indicações políticas da igreja não foram atendidas tão facilmente. Eles estavam perdendo a capacidade de influenciar politicamente os fiéis”, avalia Fábio Py. “Agora, por meio de um desafio religioso, a igreja procura enfatizar que os seus candidatos vão seguir os seus parâmetros e os propósitos de Neemias. E lembram que as figuras religiosas estão participando da política e da vida pública”, afirma o teólogo.
“É uma engrenagem de recrutamento que visa transformar futuros líderes espirituais em soldados de uma guerra eleitoral particular. É um esquema que tem o objetivo de eleger os candidatos do partido Republicanos em todo o país”, critica o ex-pastor Davi Vieira, hoje um youtuber, que é sobrinho de dois bispos da Universal.
“É um site político, disfarçado de conteúdo religioso. Vão dizer que é para proteger a família, porque isso mexe com o fiel. E vão falar de supostas perseguições e leis que prejudicariam a igreja, para justificar a necessidade de ter político no Legislativo para mudar isso”, afirma Vieira. “Eu queria que o Ministério Público e o Tribunal Regional Eleitoral vissem isso. É permitido, afinal, que uma instituição religiosa manipule os fiéis e venha a coagir pessoas de uma tal maneira que elas não possam fazer suas próprias escolhas políticas?”, indaga o ex-pastor da Universal, que tem denunciado a campanha em suas redes sociais.

Neutralidade por conveniência?
Para a Presidência da República, ao menos oficialmente, o Republicanos, partido ligado à igreja, decidiu pela neutralidade, em convenção, no dia 4 de agosto, e a igreja deve adotar a mesma posição. A Universal deve apoiar também candidatos a governador e a senador nos estados, mas essas escolhas serão avaliadas caso a caso.
No Rio de Janeiro, por exemplo, a tendência da igreja era apoiar ao governo estadual Douglas Ruas, do PL. No entanto, o responsável pela Universal no estado, o bispo Honorilton Gonçalves, ex-vice-presidente da TV Record, teve um encontro na semana passada com o candidato a governador Eduardo Paes, do PSD, e agora a igreja deve apoiar o ex-prefeito do Rio.
Em Goiás, a Universal apoia a candidatura ao Senado do atual deputado do PL Gustavo Gayer. A maioria dos candidatos do Republicanos ao governo e ao Senado é identificada com o campo conservador e tende também a fechar alianças políticas com outros políticos à direita.
O bispo Renato Cardoso, genro de Edir Macedo – casado com a primogênita do fundador da Universal, Cristiane Cardoso -, é um duro crítico da esquerda. Na campanha presidencial de 2022, Cardoso, atualmente o segundo homem na herarquia da Universal, disse que é “incompatível ser cristão e votar em partidos de esquerda”, apesar de a Universal ter apoiado os dois primeiros mandatos de Lula no Palácio do Planalto e os dois de Dilma Rousseff, entre 2003 e 2014, até o impeachment da então presidente.

Religiosos próximos à Universal especulam que a igreja – como também o Republicanos -, teriam optado agora pela neutralidade na disputa presidencial diante da expectativa de que o governo pudesse ajudar o bispo Edir Macedo a salvar o seu banco, o Digimais, que corre o risco de ser liquidado pelo Banco Central, após investigações da Polícia Federal. O BC e a PF detectaram fraudes contábeis e fundos de investimentos sem lastro na instituição.
Nem o Republicanos nem líderes petistas admitem qualquer possibilidade de acordo nesse sentido. O Republicanos, por meio de um assessor, disse considerar o comentário “uma viagem” e informou que a decisão do Republicanos pela neutralidade entre Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL), na disputa presidencial, foi aprovada após consultas aos diretórios estaduais do partido. Foram nove votos pela neutralidade, nove a favor de Flávio Bolsonaro e um para Ronaldo Caiado (PSD), segundo o assessor. Nenhum pró-Lula.
Integrantes do Republicanos em São Paulo, no entanto, onde o atual governador, Tarcísio de Freitas, do partido, é candidato à reeleição, devem acompanhá-lo no apoio a Flávio. Por outro lado, em Pernambuco, onde o líder do Republicanos é o ex-ministro de Portos e Aeroportos Silvio Costa Filho, candidato a senador e próximo de Lula, a maior parte dos votos dos seguidores do Republicanos tende a ir para o atual presidente da República.

“Me dê a Mão”
Desde setembro de 2025, a Universal mobiliza os seus fiéis em todo o país para garantir a eleição de bispos e pastores ao Legislativo em 2026. Os seguidores da igreja têm recebido também, por meio de um programa chamado “Me dê a Mão”, uma lista para cada um deles incluir nomes e telefones de 20 familiares, vizinhos e amigos, a fim de que possam se tornar novos seguidores e apoiadores dos candidatos da igreja.
As pessoas arregimentadas passaram a receber regularmente, por meio de aplicativos, links e áudios com discursos e mensagens dos candidatos a deputados da igreja. Programas de entrevistas e podcasts são produzidos também pelo grupo Arimateia, o braço de formação política da igreja, e cortes são enviados aos fiéis em grupos de WhatsApp.
Em Goiás, um vídeo enviado aos seguidores da igreja, em março, mostrou o pastor e deputado estadual Ricardo Quirino, agora candidato a deputado federal, saudando o Dia das Mulheres e condenando a violência contra elas. Em outro vídeo, o pastor e candidato fala de sua trajetória política.
O também pastor da Universal e candidato a deputado estadual Wellington Cardoso apareceu criticando a escola de samba Unidos de Niterói, que homenageou o presidente Lula no Carnaval, e dizendo que esse desfile foi um “ataque ao cristianismo”. Quirino e Wellington Cardoso também foram mostrados lado a lado, em cards, enviado a fiéis por meio de redes sociais, com o seguinte texto: “As muralhas de Goiás estão sendo construídas. Nós somos parte dessas muralhas. E você?”.
O conglomerado de Edir Macedo visa aumentar seu poder político para impor pautas conservadoras, como deixaram claro os líderes da Universal em programas políticos exibidos na internet, como o “True Podcast”, apresentado pelo bispo Alessandro Paschoal, o líder do grupo Arimateia.

Edir Macedo é o único brasileiro e uma das poucas pessoas no mundo a ter sob o seu domínio uma igreja, a Universal; uma rede de televisão, a Record; um partido político, o Republicanos; e um banco, o Digimais (antigo Renner), além de mais de uma centena de outras empresas, como hospital, planos de saúde, seguradora, portal, produtoras, jornais e rádios.
O Republicanos, além dos bispos e pastores da igreja eleitos, abriga o governador Tarcísio de Freitas e também o atual presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, eleito pela Paraíba. Tarcísio e Motta, porém, não são membros da igreja. O Republicanos tem 42 deputados e 17 deles são ligados á Universal (bispos, pastores, obreiros e apresentadores da TV Record).
Em abril, na Sexta-Feira da Paixão, a Universal deu uma demonstração de força ao mobilizar seus fiéis em um evento gigantesco, “A Família ao Pé da Cruz”, simultaneamente, em vários estados. Foram 14 concentrações, nove delas em grandes estádios de futebol: Pacaembu e Neo Química Arena (SP), Maracanã (RJ), Mané Garrincha (DF), Arena do Grêmio (RS), Fonte Nova (BA), Independência (MG), Mangueirão (PA) e Albertão (PI). As concentrações no Pacaembu e no estádio do Corinthians, na capital paulista, concorreram entre si.
Em fevereiro, a igreja enviou a fiéis um link, repassado após os cultos em todo o país, para colher dados dos potenciais eleitores e suas preferências políticas na eleição de outubro, a fim de identificar a intenção de votos dos fiéis.
Os fiéis responderam a um questionário sobre qual grupo da igreja atuam (há projetos na igreja voltados a jovens, idosos e policiais, entre outros), há quanto tempo estão na denominação, qual templo e de qual município frequentam, quais redes sociais utilizam, e se conheciam o programa político True Podcast, produzido pelo grupo Arimateia. E, por último, se a eleição fosse hoje em quem votariam para deputado.

No questionário dirigido aos fiéis do Rio foram apresentados os nomes dos candidatos à Assembleia Legislativa do Rio Danniel Librelon, Carlos Macedo (não é parente de Edir Macedo) e Tia Ju – os três atualmente no exercício do mandato e candidatos à reeleição. Librelon e Carlos Macedo são pastores.
Para a Câmara Federal, foram apresentados os nomes de Rosangela Gomes, Luiz Carlos Gomes, presidente estadual do Republicanos no Rio, e do ex-prefeito carioca Marcelo Crivella, os três também candidatos à reeleição. Deputada licenciada, Rosangela Gomes foi, até março, secretária de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos no governo Claudio Castro, do PL.
O uso para fins eleitorais da estrutura da Universal – que arrecada bilhões de reais e detém dezenas de meios de comunicação pode configurar abuso de poder econômico, segundo o advogado Fernando Neisser, professor de Direito Eleitoral da Fundação Getulio Vargas, FGV.
“A gente sabe, eles estão querendo mapear para poder chegar nessas pessoas, e falar que tem que votar em fulano, que tem que votar em ciclano”, diz o advogado. Neisser não viu ilegalidade, no entanto, na realização da pesquisa interna.
A reportagem procurou a Universal para comentar os assuntos tratados nesta reportagem, mas até o fechamento não obteve resposta. O espaço segue aberto.
*Especial para o ICL Notícias