Aliado de Bolsonaro quer adotar Paulo Freire no Nordeste

Candidato do PL, importante cabo eleitoral de Flávio na região, exalta método do educador odiado pela extrema direita brasileira
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Foi um daqueles momentos em que a caveira fumante do filósofo e astrólogo Olavo de Carvalho — imagem famosa dos memes de internet — dá uma baforada e se revira no túmulo.

Lá estava o candidato bolsonarista ao governo do Rio Grande do Norte, Álvaro Dias (PL), em um samba-de-coco exaltação ao educador Paulo Freire, um dos maiores ícones da esquerda brasileira, alvo do olavismo na guerra cultural que levou Jair Bolsonaro ao poder em 2018.

Cena mais inusitada da primeira rodada de debates eleitorais da Band, o elogio ao método freiriano assanhou os extremistas da direita. Desde a noite de domingo (08/08), o bolsonarista recebe ataques dos seus próprios aliados de campanha.

“Nós vamos implantar no Rio Grande do Norte o programa de erradicação do analfabetismo, inspirado no método Paulo Freire, que alfabetiza em quarenta horas”, disse o representante do PL. “Nós fizemos o programa de alfabetização de jovens e adultos com o método Paulo Freire. Nós chegamos a formar uma turma e aí o processo foi interrompido por causa da pandemia”, contou o ex-prefeito de Natal (2021–2024).

O depoimento de Álvaro Dias tem respaldo em uma nostalgia histórica potiguar. Foi em Angicos, município a 176 km da capital, que o pernambucano Paulo Freire, em apenas 40 horas, alfabetizou um grupo de 300 pessoas, em 1963.

Não foi a primeira vez, porém, que o nome de Paulo Freire recebeu o reconhecimento de quem poderia ser um óbvio inimigo ideológico. Acompanhe essa cena testemunhada pelo próprio educador.

Logo que os militares tomaram à força o poder, em 1º de abril de 1964, o professor e pedagogo passou de intelectual respeitado a inimigo público do novo Regime. Ele trabalhava no Ministério da Educação e Cultura, o MEC, e havia sido convocado no governo João Goulart (1961-1964) para implantar o seu método revolucionário de alfabetização nas escolas de todo o país.

Com o golpe, o pernambucano é posto na lista dos primeiros presos políticos e é levado para um quartel do Exército em Olinda. Ao chegar ao local, um tenente o reconhece e, empolgadíssimo, pede, implora que Freire aplique o seu método para ensinar a tropa de soldados a ler e a escrever. Às gargalhadas, o professor responde: “Meu querido tenente, estou preso exatamente por causa disso! Se o senhor falar nessa história de que vai convidar o Paulo Freire para alfabetizar os recrutas, o senhor vai para a cadeia também.”

O Brasil tinha então quase 16 milhões de pessoas no analfabetismo, o que representava 39% da população adulta, incluindo os jovens militares do quartel. Com o seu idealizador na cadeia, o Programa Nacional de Alfabetização — que seria iniciado em 13 de maio daquele ano — foi extinto. O material, segundo a justificativa dos militares, só possuía um objetivo: implantar o comunismo no país.

O uso do método Paulo Freire permitia alfabetizar um adulto em pouco tempo de aula, por isso a empolgação do tenente para resolver o drama dos seus recrutas. A teoria havia sido testada com sucesso em algumas escolas e na experiência que ficou conhecida como as “Quarenta horas de Angicos”.

Em 1º de Julho de 1964, Freire foi convocado a depor. O motivo: “atividades subversivas antes e durante o movimento de 1º de abril, assim como suas ligações com pessoas e grupos de agitadores nacionais e internacionais”.

O inquérito policial militar foi chefiado pelo tenente-coronel Hélio Ibiapina Lima, um dos 376 agentes do Estado indicados pela Comissão da Verdade em 2014 por violação dos direitos humanos e crimes cometidos durante a Ditadura.

O interrogatório ao professor revela a paranoia e o desconhecimento dos militares sobre o plano de educação do governo João Goulart. Freire foi questionado sobre seu suposto envolvimento com regimes totalitários de Hitler, Mussolini e Stalin.

O tenente-coronel também quis saber a opinião do educador sobre os regimes de Cuba, da União Soviética e da China. Por fim, perguntou se ele torceria pelo Brasil ou por um país comunista em uma eventual guerra.

Paulo Freire ficou preso por 70 dias. Ele acabou no exílio político. Inicialmente na Bolívia, depois no Chile, onde permaneceu até 1969, ano em que foi convidado a lecionar em Harvard. O professor ainda passou pela Inglaterra e pela Suíça, e só voltaria ao Brasil em 1980. Morreu em 1997, vítima de um ataque cardíaco.

Freire é considerado um dos educadores mais importantes do país, e um dos brasileiros mais influentes do mundo. Sua figura, no entanto, continua um tabu para a extrema-d —ireita. Ao assumir o Ministério da Educação, em abril de 2019, o economista Abraham Weintraub prometeu retirar do prédio um mural em homenagem ao educador. A promessa não foi cumprida, mas o autor de “Pedagogia do Oprimido” seguiu como inimigo público no governo de Jair Bolsonaro.

O candidato do PL potiguar, porém, resolveu passar uma borracha sobre tudo isso. Para o desespero dos alunos de Olavo de Carvalho — fumantes ou não fumantes.

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