Big Techs e crise na fronteira: Brasil vê risco de ‘armadilhas’ dos EUA na eleição

Atuação militar conjunta de Colômbia e EUA é considerada como “preocupante” e fluxo de desinformação em redes acende alerta em Brasília
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O governo brasileiro teme que as próximas semanas sejam marcadas por ações orquestradas por parte de grandes plataformas digitais, com o objetivo de criar uma turbulência política no país e influenciar a eleição. No mapeamento que se faz em Brasília sobre os riscos para a eleição, uma eventual “armadilha” militar na fronteira com a Colômbia tampouco estaria fora do radar.

Com suspensão de vistos, tarifas, sanções e ofensas americanas, Brasília considera que existe uma ingerência do governo Trump desde 2025, que a eleição de outubro é revelante para a estratégia dos EUA e que a ofensiva pode ganhar ainda mais força até outubro.

Ao longos dos últimos meses, membros do governo tentaram entender por onde poderia vir os próximos lances dessa ingerência e de um processo de desestabilização.

A principal aposta é de que o instrumento usado para isso seja o impulsionamento de desinformação a partir de fora do país, com a possibilidade de plataformas agindo de forma subterrânea para impactar na opinião pública.

A operação repetiria o modelo que acaba de ser adotado com êxito na eleição Colômbia e, há poucos meses, em Honduras. Ambos garantiram a vitória de aliados de Donald Trump.

Trabalhar com o “medo” da população também poderia ser um instrumento que tem sido avaliado como um risco por parte do Brasil para abalar padrões de votos. Para autoridades brasileiras, as cenas de 70 mil imigrantes em Ceuta, a partir da difusão de uma desinformação, reforçaram a tese de uma orquestração para abalar democracias.

No Brasil, chegou a ser considerado como fluxos migratórios poderiam ser instrumentalizados, como no caso de haitianos, afegãos e, principalmente, cubanos. Por enquanto, porém, isso não ocorreu.

A avaliação no Palácio do Planalto é de que, apesar da liderança de Luiz Inácio Lula da Silvas nas pesquisas de opinião, o pleito continua acirrado e que uma operação de manipulação poderia virar votos suficientes para transformar a eleição em um dos momentos mais tensos do país em décadas.

Membros do governo ainda vão estudar os casos das vitórias de aliados de Trump em Honduras e na Colômbia, beneficiados por uma forte atividade de narrativas que viriam de fora desses países. No caso do pleito em Bogotá, o que se observou foi uma proliferação intensa de Inteligência Artificial e de DeepFake.

Uma das estratégias seria o impulsionamento de desinformação a partir de perfis falsos, criados nos exterior. O material poderia promover mudanças abruptas na opinião pública, faltando poucos dias para a eleição e capaz de virar votos.

O cálculo do envolvimento das plataformas é por conta do impacto de uma reeleição para o setor. O governo estima que as Big Techs seriam os grandes perdedores com a vitória de Lula. Se o petista vencer, a estimativa é de que poderia usar seu quarto mandato para promover uma regulamentação das redes digitais e das Bets.

Um possível retorno do ativismo de Elon Musk também é monitorado, principalmente diante de seu histórico de realizar provocações em eleições em todo o mundo, às vésperas do pleito.

Esperar até o último momento para fazer a operação também impediria que houvesse tempo suficiente para investigações e eventuais denúncias do envolvimento de um grupo ou outro no processo de desestabilização.

Armadilha na fronteira com Colômbia

O governo brasileiro também vê com preocupação e diz estar “atento” ao anúncio de que militares americanos passarão a agir dentro do território da Colômbia, supostamente para lutar contra cartéis. A informação foi dada pelo próprio secretário de Guerra dos EUA, Pete Hegseth, nesta semana. Segundo ele, os americanos passarão a agir por terra na América Latina.

Ainda que o narcotráfico colombiano esteja localizado longe da fronteira com o Brasil, autoridades não descartam atos “fabricados” perto do território nacional, eventualmente para usar como “isca” para uma ação de militares brasileiros para defender a soberania do país.

Neste caso, uma tensão militar estaria criada e, assim, todo o debate político e eleitoral no Brasil seria abalado.

Uma armadilha nessa região do mundo não seria inédito. O governo brasileiro tem em mente a crise que foi criada quando o então presidente colombiano e aliado dos EUA, Alvaro Uribe, orquestrou uma suposta tensão militar na fronteira com o Equador de Rafael Correa, na época.

No mapeamento dos riscos, outra hipótese avaliada foi a instrumentalização de algum ato antissemita, causando um impacto popular importante e um suposto envolvimento do Hezbollah, Hamas ou outros grupos que mexem com o imaginário coletivo. Um dos epicentros poderia ser a Tríplice Fronteira, já declarada pelo governo Trump como local “sensível”.

 

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