Por Maeli Prado e Matheus dos Santos
(Folhapress) – A Casas Bahia, que pediu recuperação judicial neste domingo (16), busca um empréstimo de R$ 1 bilhão junto a bancos e fundos de investimento para injetar recursos no caixa da empresa para comprar e repor estoques.
Segundo pessoas próximas à operação, a rede de varejo começou a estruturar um tipo específico de financiamento concedido a empresas em recuperação judicial.
Esse tipo de empréstimo, conhecido como DIP (“debtor-in-possession”), foi regulamentado pela legislação que alterou a Lei de Falências e Recuperação Judicial em 2020, e serve para injetar dinheiro novo no caixa para permitir que o negócio pague salários e matérias-primas para continuar a operar durante a reestruturação.

Fala do CEO
Para o CEO da Casas Bahia, Renato Franklin, a recuperação judicial da empresa é um instrumento para reorganizar passivos e proteger o caixa, e não o destino da companhia.
“O destino continua o mesmo: ter uma operação saudável e rentável, que a gente vem evoluindo. Mas ela é um instrumento para a gente poder realmente resolver os passivos estruturais da companhia”, afirmou em teleconferência para a Folha nesta segunda-feira (17).
Segundo Franklin, o pedido também é uma forma de fortalecer a continuidade da operação da varejista, “permitindo não só a captação de linhas de crédito de curto prazo, mas também a monetização de alguns daqueles ativos, preservar esses pilares da operação, negociando de forma organizada com os credores”.
O CEO também disse que a mudança no cenário macroeconômico contribuiu para a decisão de pedir recuperação judicial. Segundo Franklin, a alta dos juros, a guerra entre Estados Unidos e Irã e a maior volatilidade no cenário eleitoral afetaram duas frentes planejadas pela empresa: o aumento do limite de crédito com seguradoras e a captação de recursos no mercado de capitais.
“A gente começou a ter um cenário macro muito diferente. Em abril, começou a guerra entre Estados Unidos e Irã, tivemos pressão sobre o petróleo, que subiu de preço, gerando pressão inflacionária e elevação da curva de juros. Também tivemos a questão eleitoral, com alguns episódios que trouxeram mais volatilidade e, consequentemente, mais impacto sobre juros. Isso acabou resultando na redução dos limites de algumas seguradoras, comprometendo nossa capacidade de compra”, afirmou.
Balanço
No balanço publicado neste domingo, a Casas Bahia informa que já está com dificuldades de repor estoque nos volumes esperados devido às restrições de crédito e do elevado custo dos financiamentos.
“Ao longo do segundo trimestre de 2026, a capacidade de recomposição dos estoques foi
restringida em relação aos níveis originalmente planejados pela administração”, diz trecho da divulgação de resultado da varejista.
Segundo a empresa, o valor de estoques disponíveis caiu mais de 20% no último trimestre, enquanto o prazo de estoque disponível se reduziu de 95 dias em 31 de março deste ano para 75 dias em 30 de junho de 2026.
Essa redução, diz a Casas Bahia, afetou a disponibilidade de determinadas mercadorias, lojas e canais de venda.
A companhia cita uma operação de captação internacional de recursos que seria “de extrema relevância” no planejamento financeiro da empresa, mas que não se concretizou no prazo previsto.
O grupo entrou com o pedido de recuperação na 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais na Justiça de São Paulo no final da noite deste domingo (16) e declarou uma dívida de R$ 17,3 bilhões.
O pedido engloba dez empresas da holding, entre elas a dona das marcas Casas Bahia e Ponto Frio, o e-commerce Extra.com e a fabricante de móveis Bartira, além de subsidiárias de logística e tecnologia.
Das dívidas, R$ 16,4 bilhões são com credores quirografários (ou seja, sem garantia), R$ 754 milhões com credores trabalhistas e R$ 154 milhões com microempresas e empresas de pequeno porte.
O grupo informa no pedido a demissão de cerca de 3.000 funcionários, dos 30.117 colaboradores que possui, e o fechamento de quase 300 lojas -segundo o documento, a Casas Bahia possui mais de 700 lojas físicas, e o Ponto Frio, mais de 65.