Homens brancos são 33% dos candidatos, mas concentram 59% do patrimônio

Entre mulheres não brancas, quase metade das candidatas declarou não possuir bens ao TSE
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Por Cleber Lourenço

Homens brancos representam um terço dos candidatos registrados para as eleições de 2026, mas concentram quase 60% de todo o patrimônio declarado à Justiça Eleitoral. Levantamento do ICL Notícias com 19.847 candidaturas mostra que esse grupo corresponde a 32,6% dos concorrentes e reúne 59,4% dos bens informados ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). No outro extremo, 48,6% das mulheres não brancas declararam não possuir nenhum patrimônio.

O levantamento foi feito a partir do cruzamento dos dados de candidaturas e das declarações de bens disponibilizados pelo TSE. Foram excluídos os candidatos a suplente, enquanto os candidatos a vice permaneceram na base. Gênero e raça ou cor correspondem às informações declaradas no cadastro eleitoral.

A diferença fica ainda mais evidente quando se observa o patrimônio mediano — o valor que separa a metade mais pobre da metade mais rica de cada grupo e reduz o efeito provocado por candidatos com fortunas muito acima da maioria.

Entre os 6.465 homens brancos que concorrem neste ano, o patrimônio mediano é de R$ 376 mil. Entre as 3.743 mulheres não brancas, cai para apenas R$ 1.214.

Isso não significa que o patrimônio médio de uma mulher não branca seja de R$ 1.214. A mediana é baixa principalmente porque quase metade das candidatas desse grupo informou não possuir bens: são 1.820 mulheres não brancas com patrimônio declarado igual a zero, ou 48,6% do total.

Entre os homens brancos, 1.442 declararam patrimônio zero, o equivalente a 22,3% do grupo.

A distância também aparece no topo da pirâmide patrimonial. Dos homens brancos candidatos, 30,3% declararam patrimônio de pelo menos R$ 1 milhão. Entre as mulheres não brancas, apenas 6% atingem essa marca.

Em números absolutos, são 1.957 homens brancos milionários contra 226 mulheres não brancas. Na faixa entre R$ 1 milhão e R$ 10 milhões, estão 26,6% dos homens brancos e 5,5% das mulheres não brancas.

O cruzamento mostra ainda que homens brancos e homens não brancos ocupam praticamente a mesma parcela da disputa eleitoral: são, respectivamente, 32,6% e 32,4% das candidaturas. A semelhança termina quando se olha para os bens.

Os homens brancos concentram 59,4% de todo o patrimônio declarado pelos candidatos. Os homens não brancos, 16,9%. A mediana patrimonial também cai de R$ 376 mil no primeiro grupo para R$ 65,8 mil no segundo.

Entre as mulheres, as brancas correspondem a 16,1% das candidaturas e concentram 11,5% dos bens declarados. As não brancas são um grupo numericamente maior — 18,9% dos candidatos — e ficam com 12,3% do patrimônio.

Convenções partidárias definem candidatos que estarão nas urnas em outubro Foto: Moisés Pimentel/UFRJ
Homens brancos são 33% dos candidatos, mas concentram 59% do patrimônio. (Foto: Moisés Pimentel/UFRJ)

Brancos são menos da metade dos candidatos e têm 71% dos bens

O recorte exclusivamente racial repete a desigualdade encontrada no cruzamento com gênero.

Os 9.664 candidatos brancos representam 48,7% da base analisada, mas concentram 70,9% de todo o patrimônio declarado. Os 10.183 candidatos não brancos são maioria, com 51,3% das candidaturas, e ficam com 29,1% dos bens.

A diferença também aparece quando se retira da conta o efeito das grandes fortunas. O patrimônio mediano entre candidatos brancos é de R$ 251,9 mil, quase oito vezes os R$ 32 mil registrados entre os não brancos.

Um em cada quatro candidatos brancos, 25,5%, declarou possuir R$ 1 milhão ou mais. Entre os não brancos, a proporção cai para 11,6%.

Na outra ponta, 26,4% dos brancos declararam patrimônio zero. Entre os não brancos, são 41,2%.

Quando pretos e pardos são observados separadamente, a distância também é expressiva. Os candidatos pardos têm patrimônio mediano de R$ 50 mil, enquanto entre os pretos o valor é de R$ 5 mil. Quase metade dos candidatos pretos, 47,2%, declarou não possuir bens.

Homens concentram três quartos do patrimônio

A desigualdade de gênero aparece mesmo sem considerar a raça dos candidatos.

Os homens são 65% das candidaturas analisadas, mas concentram 76,2% do patrimônio declarado. As mulheres representam 35% dos concorrentes e ficam com 23,8% dos bens.

O patrimônio mediano entre os homens é de R$ 185 mil. Entre as mulheres, R$ 30 mil — pouco mais de um sexto do valor masculino.

Também há diferença relevante na presença entre os candidatos milionários. Dos 12.905 homens analisados, 2.914, ou 22,6%, declararam patrimônio de R$ 1 milhão ou mais. Entre as 6.942 mulheres, são 731, equivalentes a 10,5%.

No sentido contrário, 42,2% das mulheres registraram patrimônio zero, ante 29,6% dos homens.

Os dados não significam que homens ou candidatos brancos tenham necessariamente mais recursos disponíveis para gastar nas eleições. A declaração apresentada ao TSE inclui bens como imóveis, veículos, participações societárias, aplicações financeiras e dinheiro declarado pelos candidatos, mas não mede renda nem equivale aos recursos disponíveis para uma campanha.

O levantamento também é uma fotografia das informações apresentadas pelos próprios candidatos à Justiça Eleitoral. Os valores são nominais e não descontam dívidas nem consideram liquidez ou eventual diferença entre o valor declarado de um bem e seu preço atual de mercado.

Ainda assim, ao comparar quase 20 mil candidaturas pelo mesmo critério, os dados mostram que a composição da disputa eleitoral de 2026 é mais equilibrada numericamente do que patrimonialmente. Não brancos já são maioria entre os candidatos e as mulheres ocupam pouco mais de um terço das candidaturas. A maior parcela dos bens declarados, porém, permanece concentrada entre os homens brancos.

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