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Por Igor Mello

O eleitor que irá votar no Rio de Janeiro em outubro tem uma chance considerável de eleger sem saber um integrante de uma bancada com passado obscuro. Levantamento feito com exclusividade pelo núcleo investigativo do ICL Notícias constatou que 114 candidatos na disputa deste pleito receberam recursos no escândalo dos cargos secretos, que deixou o ex-governador Cláudio Castro (PL-RJ) inelegível.

A reportagem cruzou os dados de candidaturas registradas no estado com as folhas de pagamento secretas mantidas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e Fundação Centro Estadual de Estatísticas, Pesquisas e Formação de Servidores Públicos do Rio de Janeiro (Fundação Ceperj) durante os anos de 2021 e 2022. Ao todo, os 114 envolvidos receberam sem transparência mais de R$ 1,66 milhão em recursos públicos. O número esconde um percentual alarmante: mais de 5% de todas as pessoas com candidaturas registradas no estado tiveram algum envolvimento com o escândalo de corrupção eleitoral. A bancada dos cargos secretos está espalhada em 20 partidos, quase todos de direita ou extrema direita.

Dos 114 candidatos, apenas nove concorrem por legendas de centro-esquerda: são quatro no PSB, quatro no PDT e um na Rede.

Deputado, ex-subsecretária e dirigente do PL são campeões de recursos

O escândalo dos cargos secretos foi o maior esquema de corrupção eleitoral da história do Rio de Janeiro, tendo despendido mais de R$ 1,3 bilhão entre 2021 e 2022.

O caso foi revelado pelos jornalistas Igor Mello e Ruben Berta no portal UOL e levou à condenação na justiça eleitoral de Castro e de Rodrigo Bacellar –ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). O ex-deputado estadual foi considerado um dos mentores das folhas de pagamento secreto, ao lado de Castro, no período em que comandava a poderosa Secretaria de Governo.

O campeão em pagamentos é o deputado estadual Fred Pacheco, que busca se reeleger pelo PL de Flávio Bolsonaro. Cantor católico, ele exerce o primeiro mandato como deputado estadual. Antes de assumir o cargo, Fred Pacheco recebeu pagamentos de R$ 16 mil mensais entre julho e dezembro de 2021, totalizando R$ 112 mil em recursos públicos.  Ao mesmo tempo em que recebia uma bolsa da Uerj, ele acumulava um cargo de assessor na Secretaria Estadual de Cidades.

Irmão gêmeo do ex-deputado estadual Marcio Pacheco –padrinho político de Cláudio Castro e hoje presidente do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ)– Fred Pacheco foi bolsista do projeto Observatório Social da Operação Segurança Presente, vinculado diretamente à Secretaria de Governo, comandada por Rodrigo Bacellar à época.

O programa foi uma das maiores fontes de desvios no escândalo dos cargos secretos, tendo sido usado para contratar nomes ligados a Bacellar e até mesmo o tesoureiro da campanha à reeleição do ex-governador Cláudio Castro, o advogado Aislan de Souza Coelho.

Na ocasião, Pacheco disse em nota ter prestado serviços à Uerj sem “medição de carga horária, mas com tarefas executadas”.

Em segundo lugar vem Karol Mendez, candidata a uma cadeira na Alerj pelo PP. Ela recebeu pouco mais de R$ 110 mil do programa de extensão Mulher Mais Segura, também vinculado à Uerj, entre dezembro de 2021 e maio de 2022. Enquanto exercia a atividade de bolsista, ela foi nomeada chefe de gabinete da Fundação Santa Cabrini –órgão de assistência social do estado que esteve sob influência direta de Castro antes mesmo dele assumir o governo.

Ainda no governo Castro, ela chegou a ocupar diversos cargos, o mais importante deles o de subsecretária de Ações Comunitárias e Empreendedorismo, do qual foi exonerada em março, dias antes da renúncia do então governador.

A reportagem tentou contato com Karol Mendez por e-mail, mas não obteve resposta até o momento. O espaço segue aberto para manifestação.

Fecha o pódio dos mais bem pagos Jeremias Santos, candidato a deputado estadual pelo PL. Ele recebeu quase R$ 103 mil do projeto ECO – Escola Criativa de Oportunidades, outra programa vinculado à Uerj. A ação abrigou uma série de cabos eleitorais de deputados e senadores do PL, como amigos de Romário –entre eles o ex-jogador e influenciador Fábio Braz, pago enquanto participava de um reality show– e a mãe do senador Carlos Portinho, que tenta a reeleição neste ano.

Jeremias Santos era presidente da Juventude do PL e funcionário do gabinete de Portinho. À época, o senador Carlos Portinho afirmou ao portal UOL desconhecer a contratação do funcionário no projeto de extensão, enquanto Jeremias Santos alegou participar de um projeto musical em escolas públicas, por ser “maestro de coros musicais na igreja”.

Segundo os dados levantados pelo ICL Notícias, os sete candidatos do PL receberam R$ 277,7 mil nas folhas secretas de Ceperj e Uerj. O valor coloca o PL em segundo lugar no ranking de recursos públicos recebidos por candidatos. A legenda perde apenas para o Avante, cujos filiados acumularam mais de R$ 295 mil.

Avante e Solidariedade são os partidos com mais candidatos

Além de ser o primeiro lugar em recursos recebidos, o Avante também é o partido com mais candidatos ligados ao escândalo: ao todo são 14, mesmo número registrado pelo Solidariedade.

O candidato do Avante que mais recebeu recursos públicos foi o influenciador digital bolsonarista Pedro Neto. Com 249 mil seguidores no Instagram, o aspirante a deputado estadual posta vídeos com polêmicas em entrevistas nas ruas e abordando políticos de esquerda, como os deputados federais Glauber Braga (PSOL-RJ) e Lindbergh Farias (PT-RJ).

Pedro Neto recebeu quase R$ 85 mil da folha secreta da Uerj — assim como outros bolsonaristas, foi contratado no projeto ECO – Escola Criativa de Oportunidades. Ele foi bolsista do projeto por nove meses, entre dezembro de 2021 e agosto de 2022.

Nas suas redes, se apresenta como “candidato do Flávio Bolsonaro” –o presidenciável gravou um vídeo em apoio a ele. Em outubro de 2023, Neto foi nomeado por Douglas Ruas –atual presidente da Alerj e candidato a governador pelo PL– para um cargo de superintendente na Secretaria Estadual de Cidades. Ele permaneceu no governo até dezembro de 2025.

Procurado pelo ICL Notícias, Pedro Neto afirmou que atuou como engenheiro em obras em escolas no Leste Fluminense. Ele enviou para a reportagem fotos e anotações manuscritas sobre visitas em escolas.

“Na Seeduc eu era engenheiro sênior, responsável pela parte de todas as unidades escolares da Região Metropolitana. Faziam parte as unidades escolares de São Gonçalo, Itaboraí e Niterói”, disse ele. “Eu trabalhei durante esse tempo lá fazendo fiscalizações,acompanhamento das obras e elaborando laudos e pareceres. Todos você consegue ver nos processos eletrônicos que envolviam as obras. Eu fazia os laudos e depois o orçamentista ia e orçava as obras. Trabalhamos muito lá. Sei que houve alguns problemas no Ceperj, com as questões de folha de pagamento. Até o governador ficou inelegivel por isso. Mas teve muita gente que trabalhou sério, trabalhou muito. E eu fui um desses que trabalhou duro”.

O Solidariedade, por sua vez, tem candidatos com menor remuneração no escândalo –os 14 nomes do partido nas folhas secretas receberam juntos R$ 112,7 mil. A campeã do partido é a candidata a deputada estadual Verônica do Social. Ela recebeu R$ 18,4 mil do Ceperj.

Ligada ao deputado federal Áureo Ribeiro, principal cacique da legenda no estado, ela foi contratada durante quatro meses. Em todos eles, sacou os cerca de R$ 4,6 mil de salário em dinheiro vivo, em agências do banco Bradesco no município de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense –reduto político do deputado.

Áureo e sua irmã Danielle Ribeiro –secretária de Cultura do governo Castro– chegaram a ser denunciados pela Procuradoria Regional Eleitoral, em dezembro de 2022, por envolvimento no escândalo dos cargos secretos no Ceperj. No entanto, acabaram absolvidos pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ).

Verônica concorre em dobradinha com Áureo, que tenta mais um mandato na Câmara. Em suas redes sociais, mostra ser uma cabo eleitoral de longa data da família do deputado. Áureo Ribeiro é descrito por ela como “grande amigo e líder político”. A esposa do deputado, a vice-prefeita de Duque de Caxias Aline do Áureo (Solidariedade-RJ), é figura frequente nas redes de Verônica, sempre com postagens elogiosas.

O ICL Notícias tentou contato com Verônica do Social por e-mail e telefone, mas não obteve resposta até o momento. O espaço segue aberto para manifestação.

Escândalo deixou Castro e Bacellar inelegíveis

O esquema dos cargos secretos consistiu na transferência de centenas de milhões de reais de secretarias e órgãos do governo do estado para a Fundação Ceperj –espécie de IBGE do governo do Rio, com orçamento irrisório até então– e para a Uerj, com a suposta finalidade de promover programas sociais. Parte dos recursos foram oriundos da concessão dos serviços de saneamento básico, feita por Castro em 2021.

Os recursos transferidos –cerca de R$ 1,3 bilhão, somando a fundação e a universidade– foram usados em sua quase totalidade na contratação de pessoal. Os dois casos tinham o mesmo modus operandi: eram contratadas pessoas sem qualquer qualificação comprovada e sem processo seletivo público.

As listas de contratados e as remunerações não receberam nenhuma publicidade, ficando secretas até mesmo para órgãos de controle como o Ministério Público e o TCE-RJ. Também não havia qualquer controle de frequência ou comprovação de que os contratados de fato trabalhavam. Grande parte deles sacava os pagamentos em dinheiro vivo na boca do caixa de agências bancárias, fato que gerou alertas formais do Bradesco, banco responsável pela folha de pagamento do governo do Rio.

Reportagens mostraram a contratação sistemática de cabos eleitorais de candidatos ligados ao grupo político de Castro e Bacellar. Em muitos casos, essas pessoas mantinham outras ocupações em tempo integral e não sabiam explicar o que faziam nos projetos em que eram contratadas.

As provas fizeram com que a Procuraria Regional Eleitoral denunciasse Castro, Bacellar e outras 11 pessoas –entre deputados, ex-secretários, assessores e candidatos– por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022.

Principais artífices do esquema de corrupção, Castro e Bacellar foram absolvidos no TRE-RJ por 4 votos a 3, em uma decisão considerada controversa por juristas. No entanto, a procuradoria recorreu e o caso foi parar no TSE.

A iminência de uma condenação no TSE fez com que Castro tentasse uma manobra desesperada. Um dia antes do julgamento, em 23 de março, Castro renunciou ao cargo de governador, em uma tentativa de emplacar a tese de que ao deixar o julgamento teria perdido o objeto.

A tese não convenceu a maioria dos ministros e o ex-governador foi condenado, tornando-se inelegível por 8 anos. A punição impediu que ele se candidatasse ao Senado pelo Rio, como planejava.

Bacellar já havia sido preso pela Polícia Federal, mas continuava exercendo o cargo de deputado estadual e a presidência da Alerj, da qual estava licenciado. Com a condenação, perdeu o mandato e também se tornou inelegível.

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