Espancador da Faria Lima: é preciso uma aldeia para proteger um agressor

Caso Ivo Kos mostra que gritos de mulheres podem ser menos ouvidos se o agressor for um homem rico 
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A cena é assustadora. Em uma rua vazia, a dentista Giulia Mello Falcão chora sentada no meio-fio e é agredida violentamente por um homem com socos. O agressor é seu marido, Ivo Kos, um empresário rico da Faria Lima. Ela pede socorro e ninguém vem. Até que um homem, que seria um segurança privado da rua, aparece em cena. Só que, ao invés de ajudar a mulher, ele acolhe o agressor e, junto com ele, leva a mulher para dentro da casa deles. No vídeo, é possível ver que ela resiste e não quer ir.

Essa cena de terror da vida real aconteceu na noite de sexta-feira da semana  passada (14.08) bem no meio de Pinheiros, bairro nobre de São Paulo, e veio a público depois que a vítima, munida de muita coragem e com o rosto deformado por agressões, foi para as redes sociais e deu diversas entrevistas expondo o agressor.

Ela contou que, dentro da casa, para onde foi levada com ajuda do segurança, passou por horas de tortura e agressões. O empresário a teria atacado, inclusive, com um taco de baseball. “Dessa vez ele queria me matar”, disse a mulher, os olhos tão roxos que ela mal conseguia abri-los.

Vale lembrar que o lugar mais perigoso para mulheres é dentro de casa. Em 2025, de acordo com dados do Ministério das Mulheres, 70% das agressões aconteceram dentro de domicílios.

Direito de agredir

Ao tomar a atitude de mostrar suas feridas e contar as agressões que sofreu, a dentista expôs não só o marido, mas também todo um sistema que protege agressores ricos e deixa mulheres expostas. Os gritos das vítimas, o caso prova, podem ser menos ouvidos se o agressor for um homem rico em “sua” rua.

As agressões, segundo Giulia, começaram antes da cena terrível da rua, ainda no carro, quando eles voltavam de um restaurante. Imagens de câmeras de segurança mostram o veículo sendo parado por seguranças. A dentista diz que pediu, desesperada, socorro para esses homens, que não fizeram absolutamente nada.

O empresário foi preso em flagrante depois que Giulia conseguiu fugir para o segundo andar da casa e gritar por ajuda e, finalmente, foi ouvida por vizinhos. Na quarta-feira, ele se tornou réu por lesão corporal e ameaça. Na verdade, o caso, fica claro, foi uma tentativa de feminicídio, embora não tenha sido registrado pela polícia como tal.

Os machucados no rosto de Giulia mostram que ela realmente correu risco de vida, o que poderia ter sido evitado se ela tivesse sido ouvida na primeira vez em que pediu socorro naquela noite. Em entrevista, ela disse que falou para o segurança: “ele vai me matar. Eu não posso ir para dentro de casa.” Mas o homem preferiu acreditar na versão do agressor, que repetia o clichê de que a mulher “era louca”.

De acordo com os relatos da dentista, o empresário se achava blindado por causa dos seus privilégios e jogava na cara da esposa-vítima que ninguém a levaria a sério ou acreditaria nela por causa da diferença de poderio econômico entre os dois. “Ninguém mexe comigo ou com a minha família” , ele teria dito, segundo a mulher. O fato dos guardas privados o terem protegido e até ajudado prova que, infelizmente, ele não estava errado de pensar assim.

Os seguranças são os cúmplices mais óbvios. Mas todo o entorno do empresário, pelo visto, sabia das agressões e se calou. Giulia afirma que foi agredida até nas vésperas de seu casamento, há mais de dois anos. “Toda a família sabia, os padrinhos sabiam”, disse.

Muitos, ao ouvir os depoimentos de Giulia, ignoram o mecanismo dos relacionamentos tóxicos e dos ciclos de violência e simplesmente atacam a dentista: “por que ficou com ele, afinal?”. Mas podemos fazer outra pergunta, em todo esse tempo, quantas pessoas acharam que Giulia “era louca” e, assim como o segurança, a levaram de volta para o agressor?

Para que um homem continue praticando crimes assim, por anos, é preciso que haja uma aldeia de passadores de pano ao seu redor. Se ele for rico, o exército de passadores é enorme. E, infelizmente, muito eficiente.

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