Motoryn: Perito admite não ter comparado gastos de Dark Horse com preços do mercado

Jornalista conversou com perito contratado pela produtora do filme, que disse ter documentos sobre os gastos da produção
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O caso Dark Horse completa cem dias nesta sexta-feira (21) em meio à investigação aberta pela Polícia Federal, à divulgação de novos elementos sobre a relação entre o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o entorno empresarial do banqueiro Daniel Vorcaro e à ausência da prestação de contas que o parlamentar prometeu apresentar quando o financiamento do filme veio a público.

Durante sua participação no ICL Notícias – 1ª edição desta sexta-feira, o jornalista Paulo Motoryn, que liderou a cobertura da série “Vaza Flávio”, do The Intercept Brasil, relatou uma conversa com Anísio Costa Castelo Branco, perito contratado pela produtora do documentário, Karina Gama.

Segundo Motoryn, o perito admitiu que sua análise não verificou se os valores gastos na produção eram compatíveis com os preços praticados pelo mercado cinematográfico. A perícia também não teria investigado quem eram os destinatários finais dos recursos utilizados.

“Eu perguntei ao perito se ele não comparou o preço do Dark Horse com outras produções cinematográficas e ele falou ‘não não, minha perícia era só para ver se tinha dinheiro público chegando nesse filme’ e, diretamente, não tinha. O dinheiro veio do Banco Master, a gente sabe de onde veio o dinheiro do Banco Master”, afirmou Motoryn, que desenvolveu o tema em sua newsletter.

O jornalista também explicou que a análise apresentada pelo perito teria se limitado a verificar se recursos públicos, como dinheiro do programa Wi-Fi Livre ou de emendas parlamentares, haviam sido transferidos diretamente para o filme.

“Demonstram que os 13 milhões de dólares utilizados não foram periciados no sentido de comparar o valor gasto com que é praticado no mercado, entender quem são os destinatários finais. Foi uma perícia bastante simplificada, sem desqualificar o perito que foi extremamente gentil. Mas, a perícia está longe de cravar que o assunto é uma página virada, pelo contrário”.

“Foi uma perícia simplificada no âmbito de um processo no TJ de São Paulo que investigava se o dinheiro do Wifi livre ou das emendas tinha ido diretamente para o filme. Isso o perito atestou que não tinha uma transferência direta. Mas, o resto, de ter uma perícia completa, crível, que torne o assunto uma página virada e sossegue os investigadores da PF, não aconteceu”, disse.

Participação do jornalista Paulo Motoryn no ICL Notícias – 1ª edição. (Foto: Reprodução/ ICL Notícias)

Notas fiscais

De acordo com Motoryn, o perito afirmou possuir as notas fiscais referentes aos gastos analisados, mas não as apresentou ao jornalista sob a justificativa de preservar o sigilo bancário e fiscal das pessoas envolvidas.

“Eu perguntei a ele onde estão as notas fiscais e se são impressas ou digitalizadas e ele disse que tem todas as notas fiscais e só não apresenta para não ferir o sigilo bancário e fiscal das pessoas. Ele não nos apresentou, mas deu uma dica interessante: disse que se quer investigar lavagem de dinheiro, corrupção, não basta ver quem a produtora ou órgão público contrata, tem que ver quem e como fornecedor usa esse dinheiro e admite para mim que isso não foi feito”, relatou.

Motoryn afirmou ainda que, segundo o perito, cerca de US$ 10 milhões dos US$ 13 milhões utilizados na produção teriam sido gastos nos Estados Unidos.

“Desses 13 milhões de dólares, quase 10 milhões o perito disse que foram gastos lá nos Estados Unidos, no fundo do Texas ligado ao aliado do Eduardo Bolsonaro. Ele diz que todos os fornecedores são ligados ao mercado do audiovisual, mas o dinheiro, a maior parte, ficou lá pelas aquelas bandas. Acho que a Polícia Federal vai ter alguma dificuldade de averiguar, porque não parece ter a parceria dos órgãos norte-americanos. No entanto, o perito disse que tem os documentos. O caminho das pedras pros investigadores tá dado”, afirmou.

PF intimou perito

Ainda segundo o jornalista, a Polícia Federal intimou o perito e deu prazo de dez dias para que os documentos fossem apresentados. A informação, de acordo com Motoryn, é um dos novos elementos do caso.

“A Polícia Federal está atrás, essa é uma das informações novas importantes que a gente traz. De fato não há nenhum desdobramento público desse inquérito. A gente até cobrou algum tipo de operação, de novidade no caso. A novidade que a gente traz é essa, a PF demorou cerca de um mês para intimar o perito, mas o fez e deu dez dias de prazo, logo no primeiro pediu para eles esclarecerem um pouco melhor os detalhes. E ele me disse que tem as notas fiscais, então que entregue à PF, disse que o fará, e a gente espera que a PF apure, já com essa dica de ir atrás dos fornecedores”, disse.

Motoryn afirmou esperar que a investigação avance e que os documentos sejam analisados pelas autoridades. “A gente espera que a PF traga essas respostas o quanto antes para a sociedade e acho que a gente cumpre o papel de mostrar qual é o personagem que tem todo esse material”, afirmou.

O jornalista também relatou que o perito mantém contato direto com a produtora Karina Gama e que ela autorizou a conversa entre os dois.

“Entre a primeira e a segunda ligação que eu fiz com o perito, ele falou com a Karina da Gama e os advogados dela, ela autorizou que ele falasse comigo. Ele tá em contato direto com a produtora, ela deu toda a documentação para ele. Está aí o caminho”, relatou.

Flávio diz que caso é “página virada”

As declarações de Motoryn ocorrem um dia depois de Flávio Bolsonaro afirmar que já teria prestado contas sobre os gastos relacionados ao documentário Dark Horse.

Questionado na quinta-feira (20) sobre as cobranças feitas pelo PT para que detalhasse os gastos da produção, o senador respondeu: “Já aconteceu”. A declaração foi dada a jornalistas durante uma agenda de campanha em São Paulo, ao lado do prefeito Ricardo Nunes (MDB).

Flávio Bolsonaro
Flávio Bolsonaro participa de cerimônia no QG da Polícia Militar no Rio de Janeiro (RJ). (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)

Flávio afirmou ter visto na imprensa “a própria prestação de contas que foi feita do filme e foi vazada do processo, que responderam e viram que estava tudo certinho”.  Em seguida, acrescentou: “Agora, quem tem que prestar conta é o Lula, não sou eu.”

O senador também classificou o episódio como encerrado: “Da nossa parte, está tudo página virada.”

A prestação de contas citada por Flávio é baseada em uma perícia apresentada pela produtora Karina Gama no inquérito que tramita na Polícia Civil de São Paulo. O documento aponta gastos de aproximadamente R$ 75 milhões, mas, segundo as informações apresentadas por Motoryn, não detalha por meio de recibos ou notas fiscais todos os gastos realizados.

 

 

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