Em 1934, Santa Catarina colocou o nome de Antonieta de Barros na história política brasileira. Professora, jornalista e escritora, ela foi eleita deputada estadual e se tornou a primeira mulher negra a conquistar um mandato eletivo no Brasil. Mais de nove décadas depois, o estado onde Antonieta iniciou essa trajetória permanece como o único da Região Sul que nunca elegeu uma mulher negra para a Câmara dos Deputados.
A diferença em relação aos estados vizinhos surgiu nas eleições de 2022. No Paraná, Carol Dartora foi eleita com mais de 130 mil votos e tornou-se a primeira mulher negra do estado a chegar à Câmara. No Rio Grande do Sul, Daiana Santos também fez história ao se tornar a primeira deputada federal negra gaúcha.
Santa Catarina chegou a 2026 sem romper essa barreira.
A ausência chama atenção também pelo pioneirismo catarinense no século passado. Antonieta foi eleita apenas quatro anos depois de as mulheres brasileiras conquistarem o direito ao voto e exerceu dois mandatos na Assembleia Legislativa. Sua atuação esteve especialmente ligada à educação, ao acesso à escola e à valorização do magistério.

Representação ainda é desigual
A eleição de 2022 ampliou a presença de mulheres negras no Congresso Nacional. Dados do Observatório Nacional da Mulher na Política, da Câmara dos Deputados, mostram que a participação de mulheres negras entre os eleitos para a Câmara passou de 2,53% em 2018 para 5,74% em 2022.
O avanço ocorreu depois de mudanças nas regras eleitorais destinadas a enfrentar desigualdades na distribuição dos recursos de campanha. Em 2020, o Supremo Tribunal Federal determinou a distribuição proporcional de recursos do Fundo Eleitoral e do tempo de propaganda entre candidaturas negras e brancas. Desde então, a aplicação dessas regras e as condições efetivas de competitividade das candidaturas negras seguem acompanhadas por pesquisadores e organizações da sociedade civil.
A diferença entre a composição da população brasileira e a de seus espaços de representação continua significativa. Segundo o Censo 2022 do IBGE, 55,5% da população brasileira se declara preta ou parda.
Em Santa Catarina, a população negra é proporcionalmente menor do que a média nacional, mas sua presença está longe de ser residual. Dados do Censo mostram uma população historicamente mais diversa do que a imagem do estado construída exclusivamente em torno da imigração europeia.
A história de Antonieta de Barros é uma das evidências dessa presença. Nascida em Florianópolis em 1901, filha de uma mulher negra que havia sido escravizada, Antonieta tornou-se professora, fundou um curso de alfabetização, escreveu em jornais e ingressou na política numa época em que mulheres e pessoas negras praticamente não ocupavam espaços institucionais de poder.
Mais de 90 anos depois de sua primeira eleição, Santa Catarina chega a uma nova disputa eleitoral ainda sem ter levado uma mulher negra à Câmara dos Deputados.
O contraste regional ajuda a dimensionar o atraso. Paraná e Rio Grande do Sul romperam essa barreira na mesma eleição, em 2022. Santa Catarina, estado que deu ao Brasil uma de suas principais pioneiras negras na política, entra em 2026 como o único dos três estados do Sul onde esse capítulo ainda está por ser escrito.