Por Patrícia Campos Mello
(Folhapress) – Contas de redes sociais da Argentina ligadas ao consultor Fernando Cerimedo e a influenciadores próximos ao presidente Javier Milei promovem uma campanha falando em uma suposta “invasão” de imigrantes marroquinos em Santa Catarina “impulsionada” por políticas migratórias do governo Lula.
As postagens usam fotos da crise espanhola de refugiados de maio deste ano, quando milhares de marroquinos chegaram ao enclave espanhol de Ceuta, na África, vindos a nado ou em barcos do vizinho Marrocos.
A viralização das mensagens, mapeada pelo Observatório Lupa, iniciou-se com publicações do veículo argentino La Derecha Diario no site e em redes sociais. Com o título “Gravíssimo: Lula impulsiona a imigração de marroquinos para o Brasil”, a publicação dizia que “disparou” a imigração de marroquinos para o Brasil “com impulso” das políticas do “governo do socialista Luiz Inácio Lula da Silva”, afirmando que havia consequências econômicas para os municípios do estado.
A postagem tinha como base a notícia de que 50 marroquinos pediram refúgio em Santa Catarina nos últimos três meses.
O número é comparativamente minúsculo. Segundo dados do ObMigra e Conare, houve 57 solicitações de refúgio de marroquinos em Santa Catarina em 2026 até julho, que representam 1,86% do total de 3.059 pedidos. Foram 1.707 de pedidos de cubanos, 543 de haitianos, 227 de venezuelanos e 61 de argentinos.

No país, foram 40.961 solicitações de refúgio em 2026, sendo 24.008 de Cuba, 6.880 da Venezuela e 835 do Marrocos.
O consultor argentino Fernando Cerimedo era o dono de 50% do portal La Derecha Diario até a semana passada. Ele saiu da empresa pouco após ser preso na Bolívia, acusado de ter ordenado o assassinato de sua ex-companheira, Nadia Beller, que está grávida. Ele nega envolvimento no crime. A Folha não conseguiu localizar sua defesa.
Cerimedo é próximo da família Bolsonaro. Após a vitória do presidente Lula (PT) no segundo turno das eleições de 2022, o consultor fez lives e publicações afirmando que as eleições brasileiras haviam sido fraudadas. O argentino foi indiciado pela Polícia Federal no inquérito do golpe, mas não entrou na denúncia da Procuradoria-Geral da República.
No fim de julho deste ano, ele participou de uma transmissão ao vivo de Eduardo Bolsonaro, na qual os dois voltaram a levantar suspeitas sobre a integridade do sistema eleitoral brasileiro.
Segundo levantamento do Observatório Lupa, a publicação do La Derecha Diario foi replicada, em diferentes versões, entre sexta-feira (21) e esta quinta-feira (27), com 13,4 mil menções, em redes sociais e websites.
Análise produzida a partir da Meltwater Explore, ferramenta de monitoramento de redes sociais, mostra que os posts partiram de contas baseadas principalmente na Argentina, em seguida no Brasil, e estão em português e espanhol.
Publicações com os títulos “Onda de imigrantes marroquinos chega ao Brasil pelas mãos de Lula” e “Disparou a chegada de imigrantes marroquinos em Santa Catarina” chegaram a 475 mil visualizações.
Segundo o relatório, entre os disseminadores das publicações está o influenciador Christopher Marchesini (“Mate con Mote”), que produziu um vídeo sobre a publicação do La Derecha Diario com a legenda “Lula impulsiona imigração do Marrocos para o Brasil e ameaça fronteira da Argentina”.
Marchesini foi recebido em maio pelo presidente Milei na Quinta de Olivos, residência oficial da Presidência da Argentina, ao lado de outros influenciadores. Após o encontro, Milei fez uma publicação no X criticando a mídia tradicional e exaltando os influenciadores.
“Neste estudo, conseguimos algo que geralmente é bastante difícil: identificar o ponto de origem de uma narrativa desinformativa. Ela surgiu no site argentino La Derecha Diario a partir de informações verdadeiras sobre imigração, mas esses dados foram retirados de contexto, exagerados e associados artificialmente ao presidente Lula. O caso combina malinformation [uso prejudicial de informações verdadeiras] com desinformação, porque acrescenta relações causais e alegações sem provas para criar a impressão de uma crise migratória”, diz Maiquel Rosauro, analista de inteligência do Observatório Lupa.
“Em seguida, a narrativa foi adaptada e reproduzida, em um curto intervalo, por diferentes perfis ideologicamente alinhados, que utilizaram argumentos e imagens semelhantes.”
Segundo Beatriz Farruggia, pesquisadora de inteligência do Observatório Lupa, a Argentina surge como um novo “ator” em operações estrangeiras de influência, normalmente associadas à Rússia, China e Irã.
“Vínhamos suspeitando de redes operando de maneira transacional na América Latina e essa é uma evidência de um novo ator entrando nesse jogo de usar manipulação da informação para influenciar em cenários eleitorais em outros países.”
Em Santa Catarina, a Missão Scalabrini Pastoral do Migrante, que prestou assistência aos 50 marroquinos, sentiu as repercussões da campanha sobre a “explosão” de imigração. “Sempre recebemos comentários negativos nas redes em relação a imigrantes, mas, desta vez, houve um grande aumento. E por causa dos 50 marroquinos, um número que não é expressivo. Recebemos muito mais cubanos e venezuelanos”, diz Dina Scharb, coordenadora do escritório Scalabrini.