Por Cleber Lourenço
O Ministério Público Federal colocou em dúvida a versão apresentada pela Polícia Militar de São Paulo para explicar a abordagem ao motorista do candidato ao governo paulista Fernando Haddad (PT), durante a campanha eleitoral. Após analisar documentos, registros de viaturas e imagens da noite de 11 de agosto, a Procuradoria Regional Eleitoral concluiu que a sucessão de contatos de duas equipes diferentes da Força Tática com o mesmo carro, em apenas 44 minutos, enfraquece a explicação de que tudo ocorreu por mera coincidência.
A avaliação consta de uma decisão assinada pelo procurador regional eleitoral Paulo Taubemblatt. O MPF afastou a existência de elementos para atribuir ao governador Tarcísio de Freitas um ilícito eleitoral, mas fez uma ressalva contundente sobre a versão apresentada pela corporação.
“O exame crítico dos elementos fáticos e cronológicos afasta por completo a verossimilhança de uma ‘mera coincidência’ no patrulhamento ordinário”, escreveu Taubemblatt.
O procurador destacou que, em apenas 44 minutos e dentro de uma área restrita, duas equipes da Força Tática, vinculadas a batalhões diferentes, tiveram “sucessivos contatos visuais e abordagens atípicas” com as mesmas pessoas e o mesmo Ford Fusion.
A conclusão não responsabiliza Tarcísio, mas também não encerra as dúvidas sobre o comportamento dos policiais naquela noite. A Procuradoria enviou o material ao Ministério Público de São Paulo para que a atuação das equipes seja analisada fora da esfera eleitoral.
Duas equipes em 44 minutos
O episódio ocorreu em 11 de agosto, depois que Haddad retornou de um compromisso e chegou à sua residência, na capital paulista.
Segundo a representação que deu origem à apuração, policiais iluminaram o interior do veículo enquanto Haddad ainda estava no carro. Depois que ele desembarcou, seu motorista, Alessandro Caseri, relatou ter sido acompanhado por uma viatura até a região da Rua Joinville, na Vila Mariana. Nas proximidades de um hotel, policiais teriam desembarcado e um deles teria mandado Caseri deixar o local.
A suspeita apresentada à Procuradoria era de possível uso do aparato de segurança pública para intimidar um candidato. Diante do relato, a PRE requisitou informações à Secretaria da Segurança Pública e ao comando da PM, além de buscar imagens de câmeras da região.
Em 18 de agosto, a Procuradoria pediu dados sobre a operação, identificação das equipes e registros da movimentação das viaturas. Também requisitou imagens do hotel e de imóveis próximos e encaminhou o caso ao MP-SP para avaliar a possível ocorrência de constrangimento ilegal, ameaça e perseguição.
A PM sustentou que a presença da primeira viatura da Força Tática era “estritamente regular e legal”. Segundo a corporação, a equipe estava retornando à base, localizada a cerca de 1,2 quilômetro do ponto da abordagem, e cumpria ordens de serviço relacionadas ao combate a roubos e furtos.
Os próprios registros apresentados pela corporação, porém, revelaram uma sequência que chamou a atenção da Procuradoria.
A primeira equipe teria chegado à base por volta das 21h56. O Ford Fusion dirigido por Caseri estacionou na Rua Joinville às 21h58. Às 22h24, outra equipe da Força Tática, pertencente a um batalhão diferente, entrou na mesma rua. Caseri deixou o local cerca de dois minutos depois.
Os registros afastaram a hipótese de que uma única viatura tenha seguido continuamente o motorista. Mas criaram outra questão: por que equipes especializadas de batalhões diferentes cruzaram sucessivamente com as mesmas pessoas e o mesmo carro em tão pouco tempo? Foi justamente esse ponto que levou o MPF a questionar a explicação da PM.
Taubemblatt ressaltou que se tratava de “forças de apoio especializado e de elite”, que “não realizam radiopatrulha comum de 190”. Para ele, “o caráter excepcional desse duplo engajamento tático” fragiliza “sobremaneira a tese de regularidade e casualidade administrativa levantada pela corporação”.
Imagens reforçam versão do motorista
Um parecer técnico solicitado por Haddad acrescentou outro elemento ao caso. O documento analisou as gravações disponibilizadas pela própria autoridade policial na investigação aberta em 14 de agosto, três dias depois do episódio.
O parecer foi elaborado por assistentes técnicos escolhidos por Haddad e, portanto, não se trata de uma perícia independente determinada pela Justiça. Já na apresentação do resultado, os responsáveis registraram: “Positivo para a versão apresentada pelo motorista do Sr. Haddad”.
A análise reconstrói minuto a minuto a movimentação na Rua Joinville.
Às 22h24, uma viatura aparece entrando na rua. Segundo os técnicos, o veículo não é visto passando imediatamente pela câmera porque teria parado em um ponto fora de seu alcance.
Pouco mais de um minuto depois, às 22h25, as imagens mostram um policial próximo a um veículo com uma lanterna ligada. Às 22h26, Caseri deixa o local.
Na análise quadro a quadro, os técnicos afirmam que a viatura ficou fora do alcance da câmera devido à existência de uma árvore. O cruzamento com imagens de outro equipamento também foi usado para reconstruir a movimentação policial.
A conclusão é categórica. Segundo o parecer, os “deslocamentos de viaturas policiais, paradas de policiais e movimentação” registrados pelas câmeras são compatíveis com uma parada da viatura fora do campo de visão e “corresponde integralmente com a narrativa do motorista” de Haddad.
O documento não permite concluir quem teria determinado uma eventual ação contra Haddad nem prova, sozinho, a existência de uma perseguição deliberada. Mas reforça um ponto central do relato de Caseri: havia uma viatura parada nas proximidades enquanto ele permanecia no local.
Caso segue no MP-SP
A decisão da Procuradoria separou a eventual responsabilidade eleitoral de Tarcísio da conduta dos policiais.
No primeiro caso, o MPF entendeu que não surgiram elementos que permitissem ligar o governador à atuação das equipes. A apuração eleitoral foi, por isso, arquivada.
A avaliação sobre os policiais teve outro destino. A Procuradoria enviou cópia integral do caso ao Ministério Público de São Paulo para as providências que o órgão considerar cabíveis. O MP-SP já havia sido provocado a avaliar possíveis crimes de constrangimento ilegal, ameaça e perseguição. A decisão ainda pode ser contestada pela coligação de Haddad no prazo de dez dias.
O arquivamento, portanto, afastou por enquanto uma responsabilização eleitoral de Tarcísio, mas não validou a versão apresentada pela PM. Ao contrário: ao analisar os horários, as equipes envolvidas e a movimentação das viaturas, o próprio MPF concluiu que a sucessão de contatos com o carro de Haddad é difícil de explicar como simples coincidência.